(31) 3224-2434
Comentário Homilético
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18º DOMINGO DO TEMPO COMUM de de
A a     

1ª LEITURA – Ecl 1,2;2,21-23

1,2 - Tudo é vaidade
“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Esta frase já é conhecida e parece estranha, pessimista. Na verdade o livro do Eclesiastes ou Qohélet caminha nesta linha aparentemente pessimista. Estudando, porém o contexto histórico da Palestina do séc. III, tempo do autor, a gente vai entendendo melhor. Na verdade, a Palestina vivia dominada e explorada pelo império grego e o povo era obrigado a pagar pesados impostos. Quer dizer, o povo usufruía pouco do fruto do seu trabalho. O autor faz uma análise crítica e realista desta situação opressora que parece destruir o futuro do povo. A vida do povo, na realidade, estava insuportável, por isso o autor acha que tudo é “vaidade”. Aliás, esta palavra “vaidade” não traduz tudo o que o termo hebraico “hebel” pode significar. Significa vaidade, fugacidade, ilusão, mais precisamente, sopro, hálito, fumaça. Quando ele diz que tudo é “hebel” ele quer dizer que tudo é como uma bolha de sabão. É bonita, reluzente, mas não dura nada, não serve para nada. Assim é a vida do povo, quando é explorado na sua força de trabalho. O v. 1 diz que tudo é vaidade (“hebel”). O v. 2 questiona a validade e o benefício do trabalho humano. Estes dois versículos iniciais sintetizam todo o livro. E se o povo vive trabalhando e não pode usufruir do fruto do seu trabalho, que valor, que consistência, que proveito tem seu trabalho? A única conclusão é que tudo é frágil, tudo é passageiro como uma bolha de sabão.

2,21-23 – Um trabalho decepcionante
A palavra “hebel” que comparamos com uma bolha de sabão aparece 37 vezes neste livro. Só no nosso texto de hoje aparece cinco vezes. Revela a decepção do autor diante de um trabalho humano que não é valorizado, mas explorado pelo sistema. “Há quem pense que o muito trabalho poderá assegurar felicidade e realização. Porém, de que vale fatigar-se para acumular coisas que a própria pessoa não conseguirá desfrutar?” (v. 21). O autor acha que isso é “hebel” e, até mesmo, um grande mal, pois no fim é outro que vai curtir, o fruto do seu trabalho através da exploração, opressão e roubo. Na verdade um trabalhador que se vê assim explorado vai perder o gosto pelo trabalho, sentir seus dias dolorosos, sua tarefa penosa e perder o sono da noite (vv. 22-23). Por isso o autor acha que tudo é “hebel”. Mas, diante desta análise realista de uma vida explorada, o autor nos deixa uma mensagem: a felicidade neste mundo é poder usufruir plenamente dos frutos do trabalho, pois esse é o dom que Deus dá para todos (cf. vv. 24ss). O Novo Testamento dá um passo em frente não colocando a felicidade do homem neste mundo. Convida-nos à partilha e a sermos ricos para Deus (cf. Evangelho).

2ª LEITURA – Cl 3,1-5.9-11

O autor da carta aos Colossenses procura combater doutrinas estranhas que apareceram na comunidade. Assim ele desenvolve uma parte doutrinal (1,15-3,11) e faz umas exortações morais (3,12-4,18).

O forte da doutrina, além do hino cristológico em 1,15-20, está no capítulo segundo, nos versículos 2-3 e 9-12 e também nos primeiros versículos do texto de hoje (Cl 3,1-4).
O nosso texto conclui a parte doutrinal e já vai antecipando a parte exortativa.

3,1-4 – Conclusão da parte doutrinal
O autor considera o cristão como um homem já ressuscitado. Todo aquele que foi batizado recebe a circuncisão de Cristo, que consiste em ser sepultado com ele no batismo e em ressuscitar com ele pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou da morte (cf. 2,12). Assim pelo batismo já fomos ressuscitados com Cristo. E Cristo ressuscitado está onde? No céu, “sentado à direita de Deus” (cf. Sl 110,1 (109)). O cristão é aquele que já morreu (v. 3) para os elementos do mundo (cf. 2,20). Então, neste mundo, ele deve aspirar, desejar e procurar as coisas do alto, não as da terra (v. 1). As coisas do alto são todas as coisas que se relacionam com Cristo e seu evangelho. As coisas da terra são os pecados e os vícios. Cristo é a cabeça da Igreja, que é seu corpo. Enquanto o corpo de Cristo, os cristãos ainda lutam neste mundo pela justiça, pela paz, contra os vícios, contra o pecado; a cabeça (o Cristo) já está no céu. Assim a vida do cristão está escondida em Cristo com Deus (v. 3). Quando é que a vida do cristão vai aparecer? A vida do cristão é Cristo. É só quando Cristo se manifestar na parusia que a vida do cristão vai aparecer junto com Cristo na glória (v. 4). Nós somos, na terra, como a semente, já temos tudo, mas só nos será revelada toda a beleza da novidade cristã, com toda a riqueza da ressurreição e da glória, quando do encontro com Cristo, quando Cristo se manifestar totalmente em nós e no mundo.

3,5.9-11 – Antecipação das exortações morais
Diante de tudo o que foi dito o autor começa a tirar as conclusões para a prática da vida cristã. O cristão é um homem novo, enquanto ele vive com Cristo, ou deixa Cristo viver nele: “já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Quando fomos batizados, morreu em nós o homem velho com seus membros terrenos. Membros terrenos são os vícios e tudo o que pertence à terra: fornicação, impureza, paixão, concupiscência e avareza, que é uma espécie de idolatria (v. 5). O v. 8 continua a enumeração dos vícios, que o homem novo deve abandonar: ira, raiva, maldade, maledicência e palavras obscenas. O v. 9 salienta a mentira. Os vv. 9 e 10 apresentam o contraste entre o que éramos: homem velho, a velha humanidade corrompida pelos vícios e pecados, e o que agora somos: homens novos, a nova humanidade, como que saída de novo das mãos de Deus “criada à sua imagem e semelhança”. O batismo é isso: uma nova criação; um novo nascimento. É por isso que no v. 11 não se admitem distinções antigas de raça, religião, cultura ou classe social: “todos são iguais e participam igualmente da vida de Cristo”

EVANGELHO – Lc 12, 13-21

Numa primeira leitura do texto de hoje percebemos uma correlação entre herança e ganância. Acredito que nem toda herança gera ganância, pois herança é um direito dos filhos, com a morte dos pais, inclusive assegura a continuidade da família. Talvez tenha razão aquele homem ao reclamar o que lhe é devido (cf. Gn 21,10; Jz 11,2). Ganância, entretanto, já é um esforço indevido ou desmedido de acumular, um desejo desenfreado de aumentar os bens, de ter em abundância. É o caso do irmão que não queria repartir a herança. Se os irmãos são desleais, desonestos e injustos a herança pode gerar ganância e mais ainda pode gerar briga e até mesmo morte.

Jesus não quer ser árbitro da partilha de bens entre irmãos (v. 14). No v. 15 Jesus deixa entrever que, realmente, o pedido do v. 14: “Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança”, supõe um caso de ganância, de egoísmo, de apropriação indevida dos bens do pai por parte de um irmão em detrimento do outro. De fato no v. 15 Jesus fala de ganância, de cupidez, de abundância e aproveita para exortar a uma precaução cuidadosa sobre os bens materiais, pois isso não assegura a vida do homem. Além disso, Jesus explica sua posição através de uma parábola sobre o fim inesperado de um rico ganancioso e egoísta que só pensava em acumular para si. O v. 21 vai arrematar tudo dizendo que quem ajunta tesouros para si e não é rico para Deus tem a trágica sorte desse rico ganancioso e seus bens ficam para outrem.

O que está por trás do texto? Uma idéia do que está por trás do texto ajuda a entender a posição de Jesus. No tempo de Jesus havia duas propostas de sociedade, ou dois modelos econômicos. O do campo e o da cidade. O do campo se fundamentava na partilha, através da solidariedade, da troca de produtos, etc. Isso impedia que os endividados caíssem na desgraça e que tivessem que emigrar para a cidade, tornando-se mendigos ou bandidos. O modelo econômico da cidade, ao contrário, é fundamentado na ganância, no acúmulo, na lei do mais forte. Isso, naturalmente, é fonte de exclusão e marginalidade. Isso gera mendicância, violência, roubo, etc. Sem dúvida, o texto de hoje reflete uma situação do modelo econômico da cidade e não do campo, reflete a ganância e a exploração, não a partilha. Jesus toma posição em favor da partilha, não da cobiça, mas sem se colocar como árbitro entre os contendentes.

A posição de Jesus
A posição de Jesus está clara na sua exortação (v. 15) e na parábola que contou (vv. 16-21). Jesus é contra qualquer cobiça, pois a cobiça não garante a vida de ninguém. A parábola é um monólogo de um homem rico, ganancioso e egoísta, cujo ideal de vida é apenas comer, beber e desfrutar (v. 19; cf. Ecl 2,24; 3,13; 8,15). Este homem não pensa nos seus empregados, não pensa nos pobres; é profundamente ganancioso e egoísta, chamando-o de insensato, e afirmando sua morte naquela mesma noite. Isso significa que acumular bens não garante a vida. O importante é ser rico para Deus, através da justiça, da partilha e solidariedade para com o próximo, pois “quem se compadece do pobre empresta a Deus” (Pr 19,17; Eclo 29,8-13). Eclo 29,12 diz expressamente: “Dê esmola daquilo que você tem nos celeiros, e ela o livrará de qualquer desgraça”.

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