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Evangelho da vida 08 de Outubro de 2021 Dom Walmor Oliveira de Azevedo Artigo dos Bispos "É hora de novas lógicas, gerando renovadas narrativas com força libertadora"
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte - MG e Presidente da CNBB
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O Dia do Nascituro, 8 de outubro, contribui para lembrar a sociedade: a vida deve ser defendida em todas as suas etapas, desde a primeira, na concepção, até a última, no declínio com a morte natural. Proteger a vida significa ser contra o aborto, mas também exige uma crítica profética à falta de políticas públicas e a outras dinâmicas sociais que igualmente matam. O Evangelho da vida está no centro da missão e da mensagem de Jesus. Por isso mesmo, a Igreja deve ser irrestritamente fiel aos valores do Evangelho da vida, buscando sempre partilhá-los. Cenários e práticas que ameaçam a existência de cada pessoa devem incomodar os cristãos. Esse incômodo aponta para a autenticidade da fé celebrada, professada e testemunhada. Os discípulos de Jesus não podem estar em paz enquanto convivem com desigualdades e com práticas que ameaçam a inviolabilidade da vida. Dissociar a vivência da fé cristã do compromisso com a defesa de cada pessoa, especialmente dos mais vulneráveis, é sério risco, um tipo de anestesia paralisante. E não basta defender ferrenhamente apenas uma etapa da vida, se esquecendo, desconsiderando ou silenciando-se em relação aos prejuízos cruéis impostos às muitas outras.

A profecia cristã tem um dimensionamento global – exige a defesa da vida em todas as suas fases. Não se pode, pois, correr o risco de cair no desequilíbrio, constituindo uma espécie de fanatismo a respeito de determinada etapa enquanto se cultiva indiferença pelas demais. Assim, as narrativas cristãs em defesa da vida, articulando linguagem e compreensão, precisam contribuir para que a sociedade reconheça: todos têm direito de viver dignamente. É preciso dedicar atenção ao conjunto de estatísticas que expõem atentados contra a vida. Essa realidade deve incomodar os discípulos de Cristo, chamados a constatar: uma sociedade que se diz cristã é ferida por vergonhosas desigualdades e privilégios – pesos ainda maiores sobre os ombros dos pobres e desvalidos.

A fé cristã vivida com autenticidade precisa inspirar nova compreensão e, consequentemente, atitudes condizentes com as muitas lições do Evangelho, orientadas para a defesa da vida em todas as suas etapas. Trata-se de insubstituível ponto de partida para os discípulos de Jesus que evita alienações, indiferenças, redução da fé a um instrumento intimista e subjetivista - rejeitando a sua essencialidade, distanciando-se do verdadeiro Deus da vida. Distanciamento comprovado pela carência de mudanças na sociedade atual, um palco de disputas e manipulações fratricidas, homicidas e feminicidas, com exclusões inaceitáveis para um autêntico cristão.

O núcleo central da missão redentora de Jesus Cristo, sublinhado em sua palavra - “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” - precisa ser cotidianamente reconhecido. A palavra forte do Mestre ilumina essa verdade: homens e mulheres são chamados a uma plenitude de vida que ultrapassa as dimensões da existência terrena, por consistir em participar da própria vida de Deus. Aí estão raízes intocáveis e inegociáveis da sacralidade da vida. E o reconhecimento de que a vida é dom sagrado leva ao compromisso com a inviolabilidade do dom de viver de cada pessoa, principalmente dos pobres e sofredores. A grandeza temporal da vida tem raízes na sublimidade da vocação sobrenatural, apontando que a vivência autêntica da fé cristã significa profética luta em defesa do ser humano.

O reconhecimento do direito à vida, considerando todas as suas etapas, é o alicerce seguro que sustenta a convivência humana e a comunidade política. Cresce, pois, a urgência de os cristãos - e dos que a eles se aliam por partilharem convicções, princípios e valores - anunciarem o Evangelho da vida. As muitas crises na sociedade brasileira - sanitária, econômica, política, ética, cultural – devem interpelar os discípulos de Jesus, homens e mulheres de boa vontade, para desarmar as armadilhas arquitetadas pela ganância e pelo lucro - com suas manipulações e inverdades que enjaulam cidadãos e cidadãs em lógicas prejudiciais ao desabrochar da vida plena, atrasando, sempre mais, o sonho de uma sociedade impulsionada pela fraternidade universal.

Os cristãos não ignorem a realidade desafiadora da contemporaneidade, hibernando em “zonas de conforto”. Ao invés disso, é urgente crescer na veneração e no compromisso com a vida do outro, especialmente do pobre e indefeso, por uma sociedade solidária e fraterna. A doutrina do Evangelho da vida só é vivida e testemunhada quando inspira a busca por rumos novos, capazes de afastar a sociedade dos cenários vergonhosos da desigualdade social e de outros atentados contra a vida, dom inviolável. É hora de novas lógicas, gerando renovadas narrativas com força libertadora. Lembra bem o Papa Francisco: ninguém se salva sozinho. Todos no mesmo barco. Valha, de verdade, o Evangelho da vida.

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