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Ética do cuidado 16 de Março de 2020 Dom Paulo Francisco Machado Artigo dos Bispos “O Senhor Deus levou o homem e o colocou no jardim do Éden, para o cultivar, e também, para o guardar” (Gn 2,15)
Dom Paulo Francisco Machado
Dom Paulo Francisco Machado Bispo Diocesano da Diocese de Uberlândia - MG
A a     

Cabe-me, primeiramente, esclarecer o sentido que dou aos termos e à expressão “Ética do cuidado”. Por “Ética”, refiro-me ao saber, ao discurso sobre à avaliação moral de nossos comportamentos e ações, se correspondem realmente à nossa natureza de pessoa humana, na relação com o mundo (meio ambiente), consigo mesmo, com os outros, com a sociedade, com a cidade (pólis). Já o termo “cuidado” é empregado no sentido de ocupar-se, responsabilizar-se por, tomar conta, tutelar.

Ao abrir a Bíblia em Gn 4, nos deparamos com a resposta de Caim à pergunta de Deus: “Onde está o teu irmão? ” A resposta: “Por acaso, sou guarda do meu irmão? ” Aqui, penso, deveríamos aplicar o princípio agostiniano: “narrata, non laudata”, ou seja, a Bíblia narra, mas não louva, antes recrimina a resposta de Caim. A ele cabe, como irmão, buscar o bem, amar seu irmão Abel. Portanto, a resposta de Caim é avaliada negativamente sob o aspecto moral.

A pessoa é obrigada moralmente a atender, cuidar, ocupar-se com o bem dos semelhantes. Posto isto, apresento de modo bem sucinto quatro exemplos desta “Ética do cuidado”, melhor ainda, moral do cuidado, uma vez que, dispondo de inteligência para conhecer e de vontade para querer e até – o que nos realiza como pessoa – amar, somos vocacionados por natureza a construir relações. Somos pessoas, seres relacionais, chamados a pensar e cuidar, buscar o bem dos semelhantes. O egoísmo, o amor voltado só para o próprio umbigo, estiola nosso espírito, torna gélida nossa alma, calcifica nosso coração.

O primeiro exemplo tem amplidão, diz respeito ao cuidado com o nosso meio ambiente. O livro de Gênesis afirma: “O Senhor Deus levou o homem e o colocou no jardim do Éden, para o cultivar, e também, para o guardar” (Gn 2,15). Não somos senhores absolutos da criação, pois esta não é obra nossa, não lhe demos a existência, e recebendo-a como um dom, “devemos” (Ética) preservá-la para as gerações futuras. Vê-se, pois, com gratidão, uma multidão de pessoas, especialmente de cientistas, homens e mulheres públicos envolvidos seriamente na guarda, no cuidado com a casa comum. Se entendemos a humanidade como uma imensa família, é natural que todos nos empenhemos na preservação do nosso meio ambiente.

O outro caso diz respeito à praga do “aedes aegypti”, esse mosquitinho que vive rondando as casas de nossos cidadãos, a nos incomodar com as doenças transmitidas por suas picadas: dengue, chikungunya, as febres zika e amarela. O cuidado em impedir a proliferação do terrível mosquitinho, não pode ser obra somente de uma pessoa e para os que lhe são caros. A nossa saúde e a dos outros depende do zelo de todos para evitar os criadores dele, a saber, a água parada. Cada um de nós é corresponsável pela saúde do outro.

O coronavirus. Este tem uma capacidade muito grande de contaminação, mesmo porque é invisível aos nossos olhos e se instala, transmitidos por pessoa contaminada, nos objetos mais comuns, por exemplo: o celular, a maçaneta de uma porta, o teclado de um computador. Cada pessoa é chamada a cuidar de si mesmo, mas também é imprescindível, tomar as devidas precauções para não infectar os outros: lavar cuidadosamente as mãos, fazer o uso do álcool gel, etc.

Agora, o cuidado que me parece mais importante: “voto consciente”. Neste ano eleitoral, já estamos preocupados em verificar como está nossa cidade, quais seus maiores desafios. Vamos às urnas munidos dos nossos interesses pessoais, ou pensamos no bem da comunidade?

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