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Eco do grande silêncio 05 de Abril de 2021 Dom Walmor Oliveira de Azevedo Artigo dos Bispos
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte - MG e Presidente da CNBB
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Nesta Sexta-feira da Paixão - a Sexta-feira Santa -, pela celebração na liturgia, grande silêncio ecoa na Terra. Silêncio provocado por um grande grito: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. Súplica do Redentor da humanidade, Jesus Cristo, o único Senhor. O eco deste grande silêncio rasgou o véu do templo de Jerusalém, depois que uma escuridão cobriu toda a Terra até às três horas da tarde.  A escuridão que marca o princípio do mundo – deserto, vazio e coberto de trevas, com o silêncio do caos. E o Espírito Criador fecunda esse silêncio com a força da criação, desdobra tudo em vida.

O eco do grande silêncio que brota do peito do crucificado não é o grito de um Deus desesperado. É Deus emprestando a força recriadora de sua voz para ecoar a dor lancinante que enjaula o coração do ser humano. A melodia é dolorosa. Um grito de desespero e de abandono profundo, que traduz o sofrimento da humanidade em cada tempo de sua história.  As dores e sofrimentos humanos se manifestam, assim, pela voz de Deus compassivo, amoroso e redentor - som que irrompe com força para gerar o eco de um grande silêncio. A humanidade, enjaulada nos modos de viver que estão na contramão da vida plena, experimenta, no grito de Jesus, a possibilidade de iniciar novo ciclo. O grande silêncio com o seu eco é o reverso de toda a solidão desoladora, manifestando o caminho para fecundante escuta da voz do amor que redime e salva.

Há uma escolha: escutar o eco do grande silêncio, para transformar o coração humano e regenerar as suas fibras com amor. O grito de Jesus, que condensa a voz de toda humanidade, tem força de redenção e vida nova. Exigiu, nas minúcias de sua engenharia, a encarnação do filho de Deus que, mesmo sendo Deus, não se apegou à sua condição divina. Jesus, esvaziando-se, inigualável na sua arquitetura, se fez obediente até à morte - e morte de cruz. Ao seu nome, no céu e na terra, se dobrem os joelhos, porque Ele é o Senhor, o Salvador.

A indisposição para aprender com o grande silêncio da Sexta-feira Santa significa perder a oportunidade para amorosa escuta de Deus - leva ao risco do fracasso. Isto porque sem o grande silêncio não é possível reconhecer a gramática da vida, superando a orgulhosa vaidade que adoece, as disputas, a mesquinhez e a indiferença.  A falta de hábito para lidar com o silêncio precipita o conjunto da sociedade no frenesi de um barulho ensurdecedor que fere o ser humano. Prejudica ainda a necessária capacidade para escutar, amorosamente, os clamores de outras pessoas, até daquelas com quem se convive na mesma casa. Gera indiferença em relação aos pobres e vulneráveis.

O medo do silêncio, a falta de habilidade para vivenciá-lo, explica também a causa das solidões que enlouquecem. Elas não são tratadas com o remédio que está no próprio ato de se silenciar. Busca-se a cura nos venenos que entorpecem sensibilidades, paralisam avanços na solidariedade, petrificam percepções, robotizando mentes e corações. Assim, o ser humano perde a capacidade genuína de se encantar pela palavra fecundada no silêncio necessário à escuta, à meditação. E a humanidade fica imersa em uma pobreza materializada nos calvários de muitos sofrimentos, que se perpetuam em pandemias não tratadas, devastações não denunciadas, respostas humanitárias retardadas, insanidades políticas que desconsideram a vida - o bem maior, dom pleno que custa o sangue d’Aquele que morre no alto da cruz, vencedor da morte por sua ressurreição.

No mistério deste grande silêncio, a Sexta-feira da Paixão, está a fonte da grande experiência que pode recompor sensibilidades, produzir sabedoria, revitalizar a dimensão humanística de cada pessoa. Esse é o caminho para superar leituras e práticas perversas, devolver a serenidade interior necessária a todos, capacitando o ser humano para desenvolver discursos e narrativas construtivas, urgências deste tempo de destempero e de escassez de palavras recriadoras. As lições do grande silêncio da Sexta-feira Santa fortalecem instituições a serviço da vida e dos valores fundamentais, qualificam homens e mulheres na competência para dialogar e exercer a solidariedade.

Tudo começa e alcança fecundidade pelo exercício do silêncio que evita a multiplicação de palavras distantes dos propósitos cristãos: edificar e consolar cada pessoa. O ponto de partida é dominar o medo de se silenciar, debelando o hábito de muito falar, até para tentar remediar o irremediável. Contribui para cultivar a coragem desse exercício a preciosa indicação do escritor Thomas Merton: tomar sobre si o fardo da cruz de Cristo, isto é, a humildade, a pobreza, a obediência e a renúncia, e encontrar paz para a alma. O gesto de Jesus, diz o autor, é a única e a verdadeira revolução, porque todas as outras levam a mortes. Já a revolução de Jesus significa a morte que faz brotar nova vida, renovando todas as coisas. Tudo começa e se fecunda pela atenção amorosa dada ao eco do grande silêncio desta Sexta-feira Santa, a Sexta-feira da Paixão.

 

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