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De volta à realidade 10 de Janeiro de 2020 Dom Walmor Oliveira de Azevedo Artigo dos Bispos A volta à realidade é exercício cotidiano para a confecção de um novo tecido civilizatório, na contramão de prepotências de chefes de Estado, de escolhas criminosas em instâncias ou instituições.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte - MG e Presidente da CNBB
A a     

As festas na passagem de ano se engalanam para, certamente, encobrira realidade.O íntimo de cada indivíduo, os cenários econômicos, políticos e religiososmostramaspectos muito diferentes do que se presencia nas comemorações espetaculares. Por isso mesmo, exigem adequado tratamento. Obviamente, a euforia da contagem regressiva, ao se finalizar um ano civil e começar um novo ano, justifica-se pelo nutrimento de esperanças traduzidas com os augúrios de todo tipo. Além de ser uma propriedade do coração humano, esperar um novo tempo se põe como exigência e premente necessidade, especialmente quando se considera os descalabros e descompassos civilizatórios, como o crescimento da miséria, a condição cruel dos refugiados, a prática irresponsável de extermínios de indígenas, moradores de rua, mulheres. Passadas as comemorações, é preciso buscar profundas mudanças que permitam superar esses pesos que recaem, especialmente, sobre os mais pobres e indefesos.

Impressiona o quanto se gasta com fogos de artifício, incalculável éo consumo de comida – para além da necessidade – e de álcool. As festas na passagem de ano estão distantes da realidade de diferentes cenários sociais. Muitos parecem buscar a alegria não na expectativa de um tempo novo, mas no espetáculo que reúne fogos, comida e bebida. Enxerga-se na festa, equivocadamente, a possibilidade de fazer surgir a novidade esperada, o futuro que se quer. Essa reflexão não é juízomoralista - descabido e inassimilável nas celebrações festivas da passagem do ano. Trata-se de indicaçãoque pode ajudar a perceber que, além das festas, é preciso avançar na busca pelos caminhos capazesde levar a nova etapa civilizatória.

Ora, sempre haverá festas, que são também importantescontribuições para compor o tecido da cidadania, constituir a dimensão interior que sustenta condutas e inspira sentimentos de solidariedade a partir de um encantamento pela vida,que não se pode perder, pois levaria a uma falta de graça suicida. A baixa estima pela vida corrói interioridades, inviabiliza percepçõespara se viver qualificadamente, prejudica o cumprimento de obrigações e posturas que podem contribuir para avanços sociais, econômicos e políticos. O aspecto fantástico das luzes e cores, mesmo sendo um fenômeno efêmero, é beleza que marca o caminho inaugurado pela contagem de uma nova série de dias vindouros, mas também pode esconder uma essencialidade interior que, se for desconsiderada, leva a situações desastrosas.

O ingrediente perigoso e ilusório que esconde e, ao mesmo tempo, indica haver uma baixa estima pela vidaé revelado nas festas que substituem o encontro familiar, a troca da solidariedade, pela ostentação de roupas e maquiagens, na simples busca pela aceitação dos outros em vez de se cultivar laços verdadeiros de amizade, no comer e beber exageradamente enquanto se conversa sobre veleidades. A sociedade contemporânea - descompassada social e politicamente, mesmo cultural e religiosamente, encobre e, ao mesmo tempo, é vetor de baixas estimas, que levam a revoltas, ao desrespeito a princípios éticose ao fomento de todo tipo de violência. Abre-se mão da simplicidade, da sobriedade e do equilíbrio, remédios que curam indiferenças, dissabores e a falta de gosto pelo altruísmo e pela vida.

Em oposição às ilusões, a espiritualidade proporciona uma qualificação interior para que se tenha coragem de voltar à realidade, sempre, de novo, a cada dia, e, ao reconhecê-la, humanizá-la. Assim, contribuir na superação dos descompassos e manipulações que continuam a dizimar a humanidade. Quando o ser humano alicerça-se somente na razão, não consegue avançar na direção de um mundo melhor.Fracassa, ou até joga lama sobre o que já conquistou, por falta de qualificado humanismo que formata hábitos, práticas e posturas cidadãs.Oresultado é sempre a vida ameaçada, como revelam tantos acontecimentos recentes, já vividos neste novo ano.

A volta à realidade é exercício cotidiano para a confecção de um novo tecido civilizatório, na contramão de prepotências de chefes de Estado, de escolhas criminosas em instâncias ou instituições. É considerar a necessidade urgente de se desmontar esquemas estruturais e conjunturais, também individuais, dos muitos que não querem renunciar a seus privilégios e, consequentemente, passam por cima da dignidade humana e do bem comum.Desafio e exigência, voltar à realidade, sem medo de sua crueza e a partir do sonho de transformá-la, é passo decisivo para um novo humanismo, integral:cultivando uma vida simples, a coragem sábia paraenfrentar adversidades com alegria, promovendo o bem, a justiça e a paz.

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