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Cálice erguido 27 de Julho de 2022 Dom Paulo Francisco Machado Artigo dos Bispos “Ergo um cálice e uma patena, salvo o mundo”
Dom Paulo Francisco Machado
Dom Paulo Francisco Machado Bispo Diocesano da Diocese de Uberlândia - MG
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É sempre com um certo constrangimento que faço referência a fatos ocorridos comigo, mas faço-o a exemplo de São Paulo que se viu forçado a tecer auto elogios na Segunda carta aos coríntios, capítulo 11, sobretudo a partir do versículo 16, quando ferrenhamente defende a origem divina de sua vocação e sua autoridade apostólica, ao expor suas lutas, incompreensões e dores no anúncio do Evangelho, para tornar conhecida a vida de Jesus , o Ressuscitado, a nos conceder vida nova no amor.

Outro motivo me anima: não sou o protagonista dessa história e, portanto, não sou merecedor do menor elogio. Enalteço sim, um grande amigo a deixar-me como inesquecível herança um ensinamento verdadeiramente precioso. Faço questão de partilhá-lo.

Era ainda um adolescente. O seminário onde estudava tinha vários padres residentes, dentre eles Mons. Gilberto, grande amigo dos jovens, capaz de ouvir nossas lamúrias e nossas conversas marcadas muitas vezes por nossa imaturidade. Ele foi um homem de grande amor à Igreja de Jesus Cristo e nela prestou relevantes serviços. Recém ordenado, foi secretário particular de Dom José Pereira Alves, um dos mais eminentes oradores sacros do século passado na Igreja do Brasil. Também acompanhou como secretário o cardeal do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara no Concílio Vaticano II. Conhecedor profundo da língua latina e de nossa língua. Mantinha por vezes correspondência com um colega de Seminário, nada menos que um imortal da Academia Brasileira de Letras: Carlos Heitor Cony, autor do romance “Informação ao Crucificado”. Por cerca de três anos foi oficial da Marinha Brasileira de onde saiu como capitão, deixando grandes amizades que nela alçaram os mais altos postos (as mais altas patentes). Na Diocese Petropolitana foi o primeiro reitor do Seminário Nossa Senhora do Amor Divino, em Correias. Esteve à frente da Catedral petropolitana, quando em grande campanha do primeiro bispo, Dom Manuel Pedro da Cunha Cintra, ergueu uma esbelta e graciosa torre de 70 metros onde foram inaugurados os famosos sinos.

Após tantos momentos gloriosos, vieram anos de escondimento. Foi um simples professor de Português, Latim e, mais tarde, capelão de um Carmelo. Foi justamente quando nos ensinava Português e Latim que passei a conhecê-lo melhor pois, de temperamento afável, criou um círculo de amigos. Cuidava dos ensaios de peças teatrais e da academia literária. Incitava-nos a cultivar bom gosto literário e musical. Eram inesquecíveis as audições largamente explicadas das obras musicais do padre Antônio Vivaldi.

Foi justamente após uma dessas audições, que ele se abriu comigo a dizer de seu passado glorioso e, sem mágoa alguma no coração e no tom de voz, me confidenciou uma lição a marcar para sempre a minha vida, pois foi a partir daquela conversa que passei a compreender, onde se encontrava toda a grandeza e dignidade do padre, iluminando-o e alegrando cada momento de sua vida, de seu ministério. Disse-me: “Paulinho, fui um padre com altos cargos na Diocese, e até mesmo, na Universidade Católica. Hoje, ainda tenho força e energia – convém notar que mais tarde ele será o Vigário Geral de três bispos diocesanos – para servir com entusiasmo a Diocese de Petrópolis. Aqui sou um simples professor. Não me deixo abalar, Deus Pai sabe do amor que tenho a Cristo e à Igreja. Nela nunca me senti inútil e desprestigiado, sempre tendo na memória do coração, que me basta um cálice e uma patena para salvar o mundo”.

Aquelas palavras me acompanham até hoje a plasmar o meu coração sacerdotal: “Ergo um cálice e uma patena, salvo o mundo”. O mérito não é meu, mas de Cristo que ungiu a minha limitada humanidade para agir na sua pessoa.

Hoje, tantas vezes ouço com insistência nas outras dimensões do ministério presbiteral, a real e a profética, como se fossem dimensões estanques. Não vejo contradição entre a dimensão santificadora – aquela de erguer o cálice ou absolver um penitente e as demais apresentadas pelo catecismo católico, porque “ora meu caro, Watson”, se estou a serviço da santificação de uma pessoa, estou sendo pastor e profeta, rei e servo do Ressuscitado, membro vivo e atuante da Igreja. Tudo o que o Senhor faz através do meu ministério, melhor ainda de CRISTO, brota como de uma fonte, do altar, do cálice e patena erguidos.

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