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Ação Pastoral pós-pandemia 21 de Maio de 2020 Dom Edson José Oriolo dos Santos Artigo dos Bispos Devemos estar abertos para nos adaptar com agilidade, passar de “uma pastoral de mera manutenção para uma pastoral decididamente missionária” (EG 15)
Dom Edson José Oriolo dos Santos
Dom Edson José Oriolo dos Santos Bispo Diocesano de Leopoldina - MG
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Jesus, consciente da filiação divina e da missão de anunciar o Reino, andava pela Palestina nas três grandes províncias (Judéia, Samaria e Galileia) como profeta que ensinava com autoridade (cf. Mt 7,28-29; Lc 5,26). As pessoas “o procuravam” (Lc 4,42), “acompanhavam” (Lc 14,25), o “comprimiam” (Lc 8,42-45) e iam até ele “para ouvi-lo” (Lc 5,15). Jesus jamais perdeu contato direto com as pessoas, sempre esteve presente, próximo às multidões. Os sacerdotes, identificados com Cristo pela consagração, têm como missão estar e fazer história com o povo de Deus que lhe é confiado. A realização do sacerdote é construir história salvífica na vida do povo.

No entanto, na conjuntura da pandemia, de uma hora para outra, fomos obrigados a fechar nossas igrejas e nos afastar do povo de Deus que nos é confiado, em razão do isolamento social. Não só a Igreja que está sendo posta à prova: o sistema de saúde, a seguridade social, a educação (em todos os níveis), sistema produtivos (indústria, comércio, trabalho), a vida social em geral. Mas nunca poderíamos imaginar Igrejas vazias e fechadas, nenhuma reunião de pastoral, encontros e outras atividades importantes cancelados. Somos sacerdotes e estávamos em contato direto com as pessoas, mas atualmente, estamos sem contato com o povo que nos foi confiado pela Igreja. Somos pastores com o rebanho em suas residências, confinadas por uma síndrome gripal chamada Covid19.

Vivenciamos, mais do que nunca, a necessidade de estar com o povo. Muitas vezes sem refletir a dimensão eclesiológica de “estar com o povo”, começamos a replicar o que fazíamos nas Igrejas, transmitindo as celebrações eucarísticas, os sacramentais, as catequeses, os serviços dos escritórios paroquiais, retiros, reuniões, terços, momentos de oração, mas de maneira online. Nunca pensamos numa paróquia sem as comunidades. Uma comunidade eclesial missionária sem os seus membros comprometidos e participantes. Foram iniciativas rápidas, imediatas, urgentes e inéditas. Foram implementadas enormes adaptações e uma versatilidade em relação a competências diversas e ao aprendizado contínuo.

As nossas operações, as medidas de sucesso, os nossos planejamentos, as diretrizes, os projetos pastorais, as nossas organizações numa linearidade tão bem elaboradas e direcionadas foram abaladas e desestruturadas por uma crise sanitária de consequências imprevisíveis. Mesmo sabendo que a nossa ação evangelizadora, diante desse problema epidemiológico, tem como prioridade salvar e cuidar das vidas, perguntamo-nos: que mudanças ocorrerão na Igreja, com povo de Deus? Como serão as nossas pregações e sacramentos? Quais serão as conexões do povo de Deus para com seus pastores?

Nós, ministros ordenados, olhamos e entendemos a realidade por meio da filosofia ocidental, que está fundamentada na lógica aristotélica, na revelação judaico-cristã e no direito romano. Esse conjunto cultural nos condiciona a pensar e a agir de maneira linear. Os nossos pensamentos e nossas ações estão dentro de “caixas”, isto é, de uma lógica direcionada. Tudo está determinado, tudo será dessa forma, não mudará a não ser dentro de um processo contínuo e gradativo.

O pensamento linear a que estamos condicionados pela nossa matriz cultural contribui, muitas vezes, para a perpetuação de uma pastoral de conservação que prescinde da pastoral discípulo-missionária desejada pela Conferência de Aparecida. Não conseguimos avançar em nossos projetos e ações eclesiais porque estamos condicionados a uma lógica sistemática e inerte. Não raro a forma se impõe ao conteúdo. A pandemia, de forma imprevista e radical, desarticula nossas prioridades e inverte nossos sistemas condicionantes. O imperativo de adaptação nos coloca em movimento e abre um amplo horizonte de novas iniciativas.

A ousadia necessária para evangelizar nos impele a superar a eclesiologia pensada de forma linear, isto é, algo determinado, sempre da mesma forma. Precisamos aderir a um processo contínuo e gradativo, mas numa dinâmica comunitária, fortalecendo os laços humano-comunitários. Somos chamados a fazer um exame mais apurado do nosso ministério. Uma aceleração na percepção de valor da inovação com as novas tecnologias disruptivas que estão surgindo para voltarmos a sermos Igreja de acordo com os ensinamentos apostólicos, a fração do pão, a comunhão fraterna e a vida de oração. Os laços comunitários são consequências positivas deste momento de crise e podemos partir para uma eclesiologia preocupada com o povo de Deus.

Temos condições de reinventar, repensar, redesenhar e reconstruir uma eclesiologia mais ousada, na dinâmica da missionariedade. A Igreja está sendo um apoio, um enorme referencial para povo nesse tempo de pandemia. Devemos estar abertos para nos adaptar com agilidade, passar de “uma pastoral de mera manutenção para uma pastoral decididamente missionária” (EG 15). O problema não está no excesso de atividades online, mas, sobretudo, nas atividades mal vividas, sem as motivações adequadas, sem uma espiritualidade que impregne a ação e a torne desejável (cf. EG 82).

Na Evangelli Gaudium, Francisco propõe uma “renovação eclesial inadiável” (EG 27) que consistirá em pôr a Igreja em estado de saída (cf. EG 20) de si mesma em direção aos pobres e ao diálogo com o mundo contemporâneo. Falando do seu desejo de uma “Igreja em saída”, o Papa, no número 20 da Exortação, cita o exemplo de Abraão (cf. Gn 12,1-3), Moisés (cf. Ex 3,17), Jeremias (cf. Jr 1,7) como exemplos de missionariedade. Os patriarcas são missionários porque se sentem comprometidos com Deus, possuem uma Aliança com ele. Nós, ministros ordenados, devemos nos fortalecer em comunhão presbiteral, mas esperançosos de continuar a nossa missão, sendo os verdadeiros responsáveis pela Palavra, pelos sacramentos e grandes intercessores do povo de Deus junto a Deus. Igreja em saída, profetas próximos das multidões, do lado dos pobres, preocupados com o Povo de Deus.

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