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A relevância de uma verdadeira cultura da paz 04 de Janeiro de 2021 Dom Eurico dos Santos Veloso Artigo dos Bispos
Dom Eurico dos Santos Veloso
Dom Eurico dos Santos Veloso Arcebispo Emérito de Juiz de Fora - MG
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Em minha caminhada, iniciada há 58 anos na vida sacerdotal, pude conhecer e conviver com diversas pessoas em diferentes locais. Não é por acaso que o Papa Francisco escolheu o lema “A cultura do cuidado como percurso de paz” para a tradicional mensagem pelo Dia Mundial da Paz do ano da graça de 2021.

Este não foi um ano como qualquer outro: enfrentamos desafios globais que colocaram nossa fé à prova, exigindo de religiosos e leigos do mundo todo um compromisso ainda maior na disseminação do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O acolhimento aos doentes sempre esteve presente na gênese da Igreja. Em 2020, uma pandemia assolou o mundo, ceifando vidas, enlutando famílias e exaurindo nossos irmãos e irmãs profissionais da saúde.

O Santo Papa Francisco nos lembra que não há paz sem cuidado. “A cultura do cuidado, enquanto compromisso comum, solidário e participativo para proteger e promover a dignidade e o bem de todos, enquanto disposição a interessar-se, a prestar atenção, disposição à compaixão, à reconciliação e à cura, ao respeito mútuo e ao acolhimento recíproco, constitui uma via privilegiada para a construção da paz”.

É uma aceno à Carta Encíclica Fratelli tutti, lançada em outubro de 2020, que nos recorda que “em muitas partes do mundo, fazem falta percursos de paz que levem a cicatrizar as feridas, há necessidade de artesãos de paz prontos a gerar, com criatividade e ousadia, processos de cura e de um novo encontro”.

Se por um lado a pandemia escancarou a miséria humana, a falta de compaixão de governantes, desigualdades e a importância de colocarmos a vida no centro de toda discussão, Francisco nos convida a ser bússola para nossos irmãos em 2021. “Na verdade, este permitiria estimar o valor e a dignidade de cada pessoa, agir conjunta e solidariamente em prol do bem comum, aliviando quantos padecem por causa da pobreza, da doença, da escravidão, da discriminação e dos conflitos. Através desta bússola, encorajo todos a tornarem-se profetas e testemunhas da cultura do cuidado, a fim de preencher tantas desigualdades sociais. E isto só será possível com um forte e generalizado protagonismo das mulheres na família e em todas as esferas sociais, políticas e institucionais”.

A paz se alcança pelo coração. Em quase seis décadas de vida consagrada, sempre busquei animar a comunidade para vivenciar as bem-aventuranças no dia a dia, com foco na construção de uma sociedade melhor, por justiça social e promoção da paz.

Na mensagem do Papa, um epítome merece atenção: “A educação para o cuidado nasce na família, núcleo natural e fundamental da sociedade, onde se aprende a viver em relação e no respeito mútuo. Mas a família precisa de ser colocada em condições de poder cumprir esta tarefa vital e indispensável”. Ora, sabemos que só alcançaremos a misericórdia de Cristo em face da paz, se não abandonamos nossos valores familiares e comunitários. Não se alcança o coração de nosso bom Pai de maneira egoísta ou autoritária.

Que possamos nos fortificar em vivenciar as Bem-aventuranças em nosso dia-a-dia; na vivência e na busca de uma sociedade melhor a todos; pela busca e sede de justiça; nos atos misericordiosos; na promoção da paz (...), “porque será grande a vossa recompensa nos céus” (cf. Mt 5,12a).

Como costume, o Papa não se esquece dos pastores que devem ser o exemplo de cuidado para seu rebanho. “As religiões em geral, e os líderes religiosos em particular, podem desempenhar um papel insubstituível na transmissão aos fiéis e à sociedade dos valores da solidariedade, do respeito pelas diferenças, do acolhimento e do cuidado dos irmãos mais frágeis. Recordo, a propósito, as palavras que o Papa Paulo VI proferiu no Parlamento do Uganda em 1969: «Não temais a Igreja; esta honra-vos, educa-vos cidadãos honestos e leais, não fomenta rivalidades nem divisões, procura promover a liberdade sadia, a justiça social, a paz; se tem alguma preferência é pelos pobres, a educação dos pequeninos e do povo, o cuidado dos atribulados e desvalidos»”.

Em 2021, que possamos ouvir os apelos do Papa Francisco, para que unidos em torno do mesmo propósito, possamos remar juntos no mesmo barco. “Como cristãos, mantemos o olhar fixo na Virgem Maria, Estrela do Mar e Mãe da Esperança. Colaboremos, todos juntos, a fim de avançar para um novo horizonte de amor e paz, de fraternidade e solidariedade, de apoio mútuo e acolhimento recíproco. Não cedamos à tentação de nos desinteressarmos dos outros, especialmente dos mais frágeis, não nos habituemos a desviar o olhar, mas empenhemo-nos cada dia concretamente por «formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros»”.

Só há paz verdadeira onde o cuidado esteja centrado na promoção da dignidade humana e da saúde. Rezo a Deus Pai misericordioso por nossos irmãos e irmãs, para que Ele nos livre desta triste pandemia, cuide de todos os profissionais da saúde que se dedicam diuturnamente e abençoe o nosso País e os povos de todo o mundo.

Neste ano, em retiro pro causa da COVID-19, eu tenho acompanhado com a minha oração mais incessante do que nunca, por todos os que como trabalhadores da saúde e os cientistas possam dar uma solução com a vacinação para que a COVID-19 seja vencida e, com esta graça, vivamos em paz, levando o Evangelho da vida para todos os recantos do mundo!

Que em 2021 possamos continuar reunidos espiritualmente e, também, próximos fisicamente para vivenciar o mistério da fé e da comunhão.

Sejamos construtores da paz e promotores da saúde universal para todos, com o cuidado com o outro, em nome de Cristo!

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