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A Páscoa nos põe de pé 09 de Abril de 2021 Dom Gil Antônio Moreira Artigo dos Bispos
Dom Gil Antônio Moreira
Dom Gil Antônio Moreira Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora - MG
A a     

Depois de celebrar com Cristo a penitência da Quaresma, Sua paixão e morte na Semana Santa, recordaremos, nos próximos 50 dias, a Páscoa da Ressurreição. O Senhor não permaneceu na morte, mas ressuscitou, ressuscitou de verdade, não morre mais. Com Ele todo o orbe se alegra, se refaz.

É a vida criada por Deus que rejubilou inteira na hora em que o inesperado se realizou, o inédito se compôs, o que parecia impossível se tornou visível e palpável. Aquela noite santa apontou para a aurora antes mesmo que o sol brilhasse, a luz espantasse a noite, a escuridão desse lugar às claridades que enchem de tranquilidade, paz e bem-estar todos os corações.

A beleza da liturgia da Vigília Pascal trouxe para o altar, para o ambiente sagrado, todas as forças naturais: o fogo, a água, o ar e a terra. Entre os elementos que compuseram a festa pascal, destaca-se a água.

Diz o livro do Gêneses que, “No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava deserta e vazia, as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1, 1-2). No livro do Êxodo, que narra a libertação do povo hebreu da escravidão do Egito, encontramos o episódio da travessia do Mar Vermelho, onde as águas volumosas se abriram para salvar o povo da perseguição do Faraó. As mesmas águas serviram de proteção para os peregrinos, quando os inimigos, embrenhando-se no mesmo caminho aberto, foram submergidos por elas (Cf. Ex 14, 15-30). O episódio inesperado, mas realizado, encheu o coração de Moisés e de Maria, sua irmã, que compuseram um cântico que todos cantaram “Cantai ao Senhor Deus, pois estupenda foi sua vitória, cavalo e cavaleiro ele precipitou no mar. Minha força e meu canto é o Senhor; Ele foi para mim a salvação” (Ex 15, 1-2). Quando, no deserto de Rafidim, o povo teve sede, o Senhor mandou e Moisés feriu a rocha duas vezes e jorrou água em abundância que o povo pode beber e se reanimar (Cf. Ex 17, 6 e Num 20, 11).

Quando Jesus, cansado da viagem, sob o sol de meio-dia, sentou-se à beira do Poço de Jacó, disse à Samaritana: “Se conhecesses o dom de Deus e soubesses quem é que te diz: dá-me de beber, tu mesma lhe pediria e ele te daria água viva” (Jo 4, 10). Vemos que Jesus, aqui, já emprega sentido simbólico ao elemento natural que é a água. O Dom de Deus é o Espírito Santo, é a graça divina, é algo sobrenatural que vem em socorro da fragilidade humana.

No deserto da Judeia, João batizava com água. Era um batismo de penitência, um convite à conversão, um banho de regeneração. Na última ceia, Jesus usa a água para lavar os pés dos discípulos e diz a Pedro: “Se eu não lhe lavar os pés, não terás parte comigo”. Ao que Pedro, receoso de se ver separado do Senhor, mais que depressa responde: “Senhor, então não me lave apenas os pés, mas as mãos e a cabeça” (Jo 13, 8-9).

No alto da cruz, quando o Senhor se entrega totalmente por nós, diz São João, que ali estava presente, que “Um soldado golpeou -lhe o lado com uma lança e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19, 33). A Igreja sempre viu neste fato, acontecido no Gólgota, a imagem da Eucaristia no elemento sangue e o Batismo no elemento água. São João Crisóstomo, no século 4, ensinava: “O evangelho lembra que, quando Cristo estava morto, mas ainda pendendo da Cruz, um soldado veio e transpassou o seu lado com uma lança e, imediatamente, saíram sangue e água. Então a água foi um símbolo do batismo, e o sangue, da santa Eucaristia. O soldado transpassou o lado do Senhor, rompeu o muro do templo sagrado, e eu encontrei o tesouro e apossei-me dele”. Esses dois sacramentos constituem a Igreja.

Por fim, Jesus Ressuscitado, antes de voltar para o seio da Trindade, no momento da Ascensão, ordena aos discípulos: “Ide por todo o mundo; fazei discípulos meus em todas as nações, e batizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-lhes a observar tudo o que vos ensinei. Eis que estarei conosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28, 19-20).

Neste tempo difícil de pandemia em que estamos vivendo, recobremos o ânimo, pois a Páscoa nos põe de pé. Nossa condição de batizados, de vivos em Cristo, lavados e dessedentados pela água regeneradora, ressuscitados que somos e que seremos em plenitude depois de nossa pascoa definitiva, ou seja, de nossa morte, peçamos ao Pai que nos dê o fim da pandemia, mas peçamos também força e confiança enquanto ela durar, certos de que o Senhor esteve conosco, continua conosco e continuará conosco até o fim os tempos.

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