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Todos tem lugar na comunidade eclesial! O bem que Deus nos pede para realizarmos está sempre ao nosso alcance. Por isso, agradeçamos ao Senhor que “nos consola em todas as nossas aflições, para que, com a consolação que nós mesmos recebemos de Deus, possamos consolar os que se acham em toda e

Dom Eurico dos Santos Veloso

Arcebispo Emérito de Juiz de Fora - MG

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24/09/2018 - Atualizado em 24/09/2018 10h14

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A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum apresenta várias sugestões para que os batizados possam purificar a sua opção e integrar, de forma plena e total, a comunidade do Reino. Uma das sugestões mais importantes (que a primeira leitura apresenta e que o Evangelho recupera) é a de que os batizados não pretendam ter o exclusivo do bem e da verdade, mas sejam capazes de reconhecer e aceitar a presença e a ação do Espírito de Deus através de tantas pessoas boas que não pertencem à instituição Igreja, mas que são sinais vivos do amor de Deus no meio do mundo.

A primeira leitura (cf. Nm 11,25-29), recorrendo a um episódio da marcha do Povo de Deus pelo deserto, ensina que o Espírito de Deus sopra onde quer e sobre quem quer, sem estar limitado por regras, por interesses pessoais ou por privilégios de grupo. O verdadeiro batizado é aquele que, como Moisés, reconhece a presença de Deus nos gestos proféticos que vê acontecer à sua volta.

No Evangelho (cf. Mc 9,38-43.45.47-48) temos uma instrução, através da qual Jesus procura ajudar os discípulos a situarem-se na órbita do Reino. Nesse sentido, convida-os a constituírem uma comunidade que, sem arrogância, sem ciúmes, sem presunção de posse exclusiva do bem e da verdade, procura acolher, apoiar e estimular todos aqueles que atuam em favor da libertação dos irmãos; convida-os também a não excluírem da dinâmica comunitária os pequenos e os pobres; convida-os ainda a arrancarem da própria vida todos os sentimentos e atitudes que são incompatíveis com a opção pelo Reino. Jesus vem desfazer o mito da vida que busca somente os confortos e prazeres do mundo. Seu chamado requer de nós uma decisão que compromete todos os âmbitos de nossas vidas. Uma decisão que abarca toda a nossa existência. Quando Jesus diz que é preferível perder uma mão e entrar na vida do que ter as duas e ir para o inferno, quer nos indicar que o nosso compromisso com Ele seja tal que nos privemos radicalmente de todas as ocasiões e situações que nos levam a pecar. Pois não se furtar às ocasiões de pecado e pecar, significa um compromisso com o pecado, e não podem coexistir um compromisso com Jesus e com o pecado. Muito pelo contrário, comprometer-se com Cristo significa lutar contra o pecado, porque o pecado, mesmo os menores, afasta-nos de Jesus, distancia-nos de sua vida e de sua salvação, que é o nosso único caminho de vida plena e feliz. Por isso, não nos iludamos, pensando ser possível seguir a dois senhores (cf. Mt 6,24). Pelo contrário, abramos nosso coração a Cristo e consistamos que ele vença o pecado em nós, porque ele é a nossa vitória.

A segunda leitura (cf. Tg 5,1-6) convida os crentes a não colocarem a sua confiança e a sua esperança nos bens materiais, pois eles são valores perecíveis e que não asseguram a vida plena para o homem. Mais: as injustiças cometidas por quem faz da acumulação dos bens materiais a finalidade da sua existência afastá-lo-ão da comunidade dos eleitos de Deus.

Não podemos seguir a Nosso Senhor Jesus Cristo abraçando ao mundo, vivendo conforme as suas leis egoístas de conforto e prazeres, sem responsabilidades, enfim, “entregues à boa vida, cevando os corações”, como nos disse São Tiago na sua carta de hoje (Tg 5,5). O bem que Deus nos pede para realizarmos está sempre ao nosso alcance. Por isso, agradeçamos ao Senhor que “nos consola em todas as nossas aflições, para que, com a consolação que nós mesmos recebemos de Deus, possamos consolar os que se acham em toda e qualquer aflição”(cf. 2Cor 1,4).

“Mestre, vimos um homem a expulsar os demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue” (cf. Mc 9,38). São João quer delimitar as fronteiras do grupo dos discípulos, pôr em ordem, classificar os bons de um lado, os maus de outro, separar aqueles que estão “em regra” daqueles que estão à margem. Esta tentação de erguer barreiras entre os homens em nome de Deus é uma tentação mortal. É a tentação de todos aqueles que pretendem agir em nome de Deus, que se declaram, eles e apenas eles, detentores da Verdade e reivindicam serem eles os únicos verdadeiros fiéis de Deus. Todos os outros, que não pensam, que não agem como eles devem ser rejeitados, condenados. Essa tentação gera o fanatismo. Isso não é em vista do espírito! É uma realidade bem concreta no nosso mundo. Mas Jesus conduz-nos para além disso. Sem dúvida diz Ele: “Eu sou a Verdade”, mas não reivindica qualquer poder. Recusa entrar no jogo de João: “Não impeçais este homem de expulsar os demónios em meu nome”. Porquê? Porque Jesus veio para reunir na unidade os filhos de Deus dispersos e, como dirá São Paulo, para destruir a barreira que separava os Judeus e os pagãos, para fazer a paz e reconciliar todos os homens com Deus e entre eles. O apelo de Jesus à sua comunidade no sentido de não “escandalizar” (afastar da comunidade do Reino) os pequenos, faz-nos pensar na forma como lidamos, enquanto pessoas e enquanto comunidades, com os pobres, os que falharam, os que têm atitudes moralmente reprováveis, aqueles que têm uma fé pouco consistente, aqueles que a vida marcou negativamente, aqueles que a sociedade marginaliza e rejeita. Todos tem lugar na comunidade eclesial!

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