2007-09-10
I° LEITURA - Ap 7,2-4.9-14
Nosso texto pertence à última parte da seção dos selos que ocupa os capítulos 6 e 7. O capítulo 7 é um clarão de força salvadora de Deus, um injeção de ânimo para a caminhada. Diante da situação calamitosa da humanidade (6,1-8 = abertura dos quatro primeiros selos) e do grito dos mártires (6, 9-12 = abertura do quinto selo). Deus intervém para julgar os ímpios (6,13-17), com a abertura do sexto selo. O capítulo sétimo é uma pausa, onde o autor apresenta a salvação dos justos, dos eleitos de Deus. A pergunta de 6,17: “quem poderá ficar em pé?” Encontra no capítulo sétimo sua resposta. A salvação é impossível ao homem, mas para Deus nada é impossível.
1o Momento- uma referência ao passado, 7,1-8
O autor tem presente o recenseamento dos hebreus no deserto (Nm 1, 20-43). O v. 1 mostra a proteção de Deus. A marca na fronte indica a salvação. Os marcados são 144 mil. Este número não pode ser interpretado ao pé da letra. Ele é simbólico. Ele aponta para a totalidade de 12 (12x12x1000=144.000), todo o povo de Deus do Antigo Testamento - 12 tribos, como também todo o povo do Novo Testamento - 12 apóstolos. O no 12 é símbolo da totalidade. O número 1000 simboliza um grande número. Aqui temos totalidade vezes totalidade, vezes uma grande multidão. Este número pode indicar a largura da misericórdia divina, salvando a totalidade dos eleitos.
2o Momento- uma referência ao presente/futuro da comunidade cristã - vv. 9-17
O v. 9 esclarece que o no 144 mil é um número simbólico e não apenas o resultado exato de uma multiplicação. As seitas fundamentalistas que acham que apenas 144 mil serão salvos, caem no ridículo diante do v. 9. O número dos que serão salvos será incontável. Expressões que se referem à salvação aparecem aqui com fartura. “De pé” (= não serão julgados; é sinal salvífico); “vestes brancas” (simbolizam a vitória, a salvação); “palmas nas mãos” (= vitória). Todos reconhecem que a salvação vem de Deus através da cruz de Cristo - o Cordeiro. Os versos 10 e 11 traduzem a adoração e o louvor de todos os que foram salvos, juntamente com todos os anjos, com os 24 anciãos (podem ser os representantes do povo santo do Antigo e do Novo Testamento: 12 tribos + 12 apóstolos, e os 4 seres vivos (símbolo do que há de mais perfeito na criação em força e ciência). Os vv. 13 e 14 desvendam o mistério sobre “os que estão trajados com vestes brancas”. “São os que vêm da grande tribulação = lavaram suas vestes e alvejaram-nas com o sangue do Cordeiro”. “O sangue simboliza a eficácia da morte de Jesus”. O povo das comunidades pode assim descobrir seus mártires e santos que derramaram seu sangue por Jesus, na resistência contra o mal representado pelo Império romano perseguidor. O Apocalipse é assim uma injeção de ânimo para que os cristãos de todos os tempos lutem até o fim, para não deixarem que o bem - o projeto de Deus - seja abocanhado pelo antiprojeto, o mal encarnado nas injustiças e perseguições de pessoas e instituições.
II° LEITURA - 1Jo 3,1-3
Vamos analisar este trecho da carta de João à luz da 6a e 7a bem-aventuranças: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (cf. 1Jo 3,3); bem-aventurados os que promovem a paz “porque serão chamados filhos de Deus” (cf. 1Jo 3,1-2). Em 1 Jo 2,29 (“Se sabeis que ele é justo, reconhecei que todo aquele que pratica a justiça nasceu dele”) podemos ver o eco de Mt 5,6 e 10,4 e as 8 bem-aventuranças.
Como pano de fundo da 1a carta de João, lembramos a crise da comunidade provocada pelos dissidentes carismáticos, que achavam que a salvação não estava na prática da justiça à imitação de Jesus, que deu a vida por nós, mas num conhecimento religioso especial e pessoal. Negavam Jesus como Messias, achavam-se livres do pecado, iluminados por Deus e se gloriavam de conhecer e amar a Deus, mas sem dar importância ao amor ao próximo. Por isso, o autor se preocupa com algumas afirmações básicas como a purificação através do sangue de Jesus. (cf. 1,7-9), a consciência de sermos pecadores (cf. 1,8;2, 2); a importância de guardarmos os mandamentos e andarmos como Jesus andou (cf. 2,4-6); a importância de confessar o Filho e não negar que Jesus é o Cristo-Messias (cf. 2,22-23; 5,1); a importância do amor ao próximo (cf. 3,11.14.23; 4,7ss); etc.
O texto de hoje pertence à seção, cujo tema é: “viver como filhos de Deus” (cf. 2, 29-4,6). Já temos a afirmação da prática da pertença como combate do autor ao espiritualismo vazio dos carismáticos. Praticando a justiça, nascemos de Deus e, assim, podemos ver a maior prova de amor, que o Pai nos deu: “sermos chamados de filhos de Deus e o sermos de fato”. Para Jesus na 7a bem-aventurança (cf. Mt 5,9), isto é concedido aos que promovem a paz. Uma paz verdadeira é bem estar que exclui injustiça e opressão. Supõe, portanto, a fé traduzida em obras, uma fé no único Pai de todos, que nos ama através do amor do Filho, que vivendo e morrendo por nós, nos concedeu a graça da filiação divina. Somos, portanto, todos irmãos com a obrigação do amor mútuo. Mas nós estamos no mundo que desconhece a Deus, desconhece seu Filho e, portanto, também não nos conhece. O mundo cultiva o ódio e nos impede de ver a Deus. O mundo, portanto, na sua impureza obscurece a nossa visão e dificulta o nosso ser cristão. Na verdade, a nossa realidade de filhos está escondida em Cristo (cf. Cl 3, 3-4). Quando Cristo se manifestar, também a nossa realidade de filhos se manifestará, e, aí, seremos semelhantes a ele, pois o veremos tal como ele é. A 6a bem-aventurança afirma que os puros de coração verão a Deus. Ser puro de coração é ter uma conduta pautada na justiça e no amor. Aqui, no último versículo, está afirmado que nós nos purificamos a nós mesmos na força da esperança de vermos a Deus tal como ele é.
Sintetizando, para vivermos a realidade de filhos, ou seja, vermos a Deus, ou partilharmos de sua vida, precisamos de uma fé sólida, uma esperança firme e um amor profundo aos irmãos.
EVANGELHO - Mt 5,1-12a
Estamos no início do grande “Sermão da Montanha” (Mt 5-7). Para quem Jesus fala? Para multidões numerosas vindas de vários lugares (cf. 4, 25). E essas multidões são compostas de gente simples, pobres, aflitos, perseguidos, famintos. Jesus sobe a montanha e se assenta. A montanha lembra o Sinai, onde Deus tinha feito, através de Moisés, aliança com seu povo. Assentado, Jesus assume o papel de Mestre e legislador da Nova Aliança, numa aproximação muito grande com seus discípulos. No Sinai a distância era grande entre Deus e o povo.
Aqui o clima é de total confiança e aproximação. Inclusive, aqui não há leis, há sim propostas de felicidade. Jesus proclama seus ouvintes um povo feliz, bem-aventurado e lhes promete as alegrias do Reino.
Duas bem-aventuranças (a 1a e a 8a) sintetizam as outras. A 1a é: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus” (v. 3) A 8a é: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus”. As outras Bem-aventuranças não são mais do que esclarecimentos dessas duas. A promessa da 1a e da 8a é a mesma e é uma constatação diferente: O Reino dos céus é deles (verbo no presente). As outras trazem uma promessa futura (verbo no futuro).
1a bem-aventurança - “Pobres”: São os injustiçados que depositaram sua confiança em Deus. São considerados pobres em espírito, porque estão abertos para participar do projeto de Deus, que é a construção da nova sociedade, baseada na justiça e na igualdade - isso é o Reino de Deus.
A 8a bem-aventurança - Tem muito a ver com a primeira, pois os que são perseguidos por causa da justiça são os mesmos pobres em espírito. Eles buscam uma sociedade alternativa através da partilha e da solidariedade, através da luta pela justiça, melhores condições de vida para todos. Isto, porém, não é tolerado pela sociedade estabelecida, que, sentindo-se ameaçada, parte para a perseguição.
Qual é a situação dos pobres?
A 2a, a 3a e a 4a bem-aventuranças vão explicar a 1a e a 8a, vão dizer quem são os pobres.
A 2a diz quem são os mansos, os que foram amansados pelos poderosos, que até lhes caçaram os direitos; mas eles herdarão a terra. Podem ser identificados com “os sem terra”. A 3a diz quem são os aflitos - pessoas cativas e aprisionadas, vítimas da sociedade cruel e opressora - mas Deus os consolará, libertando-os. A 4a diz quem são os que têm fome e sede de justiça - aqueles que não podem viver (fome e sede) na atual injustiça. Eles lutam pela sobrevivência. Sua luta é justa e eles serão saciados. Os pobres são, portanto, os mansos, os aflitos, os que têm fome e sede de justiça. Sua situação é de extrema miséria, injustiça e opressão.
Qual é a meta dos pobres?
As bem-aventuranças 5a, a 6a e a 7a vão mostrar que os pobres querem construir a nova sociedade.
A 5a afirma que os pobres são misericordiosos, são solidários, eles querem colocar tudo em comum. Deus reparte com quem reparte. A 6a afirma que os puros de coração verão a Deus. O coração é a sede das opções profundas. Os pobres são puros de coração, ou seja, suas opções estão em sintonia com o Reino, são íntegros, honestos com os outros. A 7a diz respeito aos que promovem a paz. Paz (=Shalom) é a plenitude dos bens, é exclusão da injustiça, da opressão e da violação dos direitos. Paz aqui é mais social do que pessoal. Serão chamados filhos de Deus, os que lutam pelo bem comum, pelo bem estar de todos.
O conflito na comunidade - 9a bem-aventurança.
Esta última bem-aventurança é diferente das outras. Ela é mais desenvolvida e enquanto as outras são escritas na 3a pessoa, esta está na 2a pessoa com recomendações diretas aos discípulos. No fundo ela quer revelar as tensões e conflitos enfrentados pela comunidade dos evangelistas.
A comunidade sofria injúrias, perseguições e calúnias, por causa de Cristo. O Evangelista busca em Jesus uma força e um incentivo na caminhada, com o v. 12 diz que ser tudo isso, deve ser motivo de alegria e regozijo, pois a recompensa dos perseverantes será grande no céu. Assim também aconteceu com os profetas.
32° DOMINGO DO TEMPO COMUM
11/11/2007
I° LEITURA – 2Mc 7,1-2.9-14
O capítulo sétimo de 2º livro dos Macabeus “é uma das páginas mais comoventes de toda a Bíblia, mostrando que o tempo de perseguição se torna ocasião de educar, para o testemunho capaz de enfrentar até o sacrifício da própria vida”. Este capítulo pode ser chamado de: “A paixão dos Santos Macabeus”. A mãe com seus sete filhos sofrem o martírio para não negarem sua fé no Deus da vida. Na luta pela vida, a última palavra não pertence aos grandes deste mundo, mas a Deus. Estamos no séc. II a.C., no tempo da dominação grega. O povo mesmo sendo judeu tinha que adotar a cultura grega e seu modo de viver. Ou se vivia segundo os costumes gregos ou se era torturado até à morte. A Lei judaica proibia comer carne de porco, mas os dominadores, os opressores obrigavam sob pena de morte, a transgressão dessa Lei. Naquele tempo, os opressores, obrigando o povo a transgredir o que era lei para eles, queriam acabar com a identidade e a tradição que mantinha unido o povo de Deus. Essa lei no Novo Testamento foi superada. Leia por exemplo (At 10,9-16; Cl 2,16-17; Mc 7,15.18-19).
O texto mostra que, apesar da crueldade dos torturadores, os irmãos Macabeus e sua mãe resistem até à morte, com uma força sobrenatural por causa de sua fé na ressurreição dos mortos. É a primeira vez que vemos no Antigo Testamento, com clareza, a fé na ressurreição dos mortos. O texto mostra também que para os opressores não haverá ressurreição para a vida (v. 14b). O sangue frio e a maldade dos opressores podem-se ler nos vv. 3-5, onde se fala em cortar a língua, arrancar o couro cabeludo, mutilar os membros do corpo e, por fim, assar numa assadeira o corpo dos mártires. Você teria coragem de testemunhar sua fé com o martírio?
II° LEITURA – 2Ts 2,16-3,5
As cartas autênticas de Paulo são apenas sete: Rm, 1 e 2 Cor Gl, 1Ts, Fl, Fm. Alguns estudiosos ainda acrescentaram 2Ts e Cl. Particularmente não consideramos a 2Ts como carta autêntica. Por isso usaremos o nome de “Paulo” entre aspas.
Os vv. 16 e 17 do capítulo 2o são o finalzinho de uma oração de ação de graças que “Paulo” faz pela predileção de Deus pela comunidade, sua vocação, sua fé e sua firmeza nas tradições. De Deus vem o amor, o consolo e a esperança feliz. É dele também que a comunidade recebe ânimo, força para, não obstante as perseguições, agir segundo a fidelidade e a bondade. No início do capítulo 3°, Paulo pede as orações da comunidade, para que a Palavra do Senhor se espalhe rápida e seja bem acolhida. Pede também orações, para que Deus livre a ele e seus colaboradores dos homens, que não têm fé, ímpios e maus, homens, que se opõem ao projeto divino. O cristão vive em constante luta contra o poder do Maligno, que se manifesta em todo tipo de maldade, violência, injustiça e impiedade. Mas o cristão luta com uma certeza: Deus é fiel. Ele mantém os fiéis firmes e os guardará das forças do Mal. Deus não abandona seu povo, mas caminha com ele. “Paulo” termina expressando sua certeza também na fidelidade da comunidade às suas orientações. O desejo final é que o Senhor dirija o coração de todos para o amor a Deus e a perseverança de Cristo. Esta expressão num contexto de perseguição quer, naturalmente, invocar a coragem e a resistência de Cristo, que enfrentou de cabeça erguida a perseguição, o sofrimento e o martírio (ver também o exemplo dos irmãos Macabeus).
A palavra “testemunho” é sinônimo de martírio. Você tem o costume de suportar sofrimentos para manter a autenticidade do seu testemunho no seu trabalho evangelizador?
EVANGELHO – Lc 20,27-38
Os saduceus questionam Jesus
Em Jerusalém Jesus vai enfrentar diversos conflitos com os donos do poder e os donos do saber: chefes dos sacerdotes, doutores da Lei e anciãos (20,1.19-20). O conflito registrado no texto de hoje é com os saduceus, que representavam a aristocracia conservadora. Este partido era composto pelos chefes dos sacerdotes, nobreza sacerdotal e leiga e latifundiários, ou seja, os anciãos. Eles não acreditavam na ressurreição (v. 27). Apresentam para Jesus uma questão a propósito da lei do levirato de Dt 25,5-10. Se seu irmão casado morresse sem filhos, você teria obrigação de desposar a viúva, para suscitar descendência para o seu irmão. Morrer sem descendência era considerado um castigo de Deus. A lei do levirato visava também proteger o patrimônio da viúva. A pergunta dos saduceus revela a falta de fé na ressurreição. Uma mulher casou, por causa da lei do levirato, com sete irmãos, sucessivamente, após a morte de cada um deles. Depois ela também morreu. Na ressurreição, de quem ela será esposa?
A resposta de Jesus
1° momento – Jesus, primeiramente, afirma que o mundo dos ressuscitados é diferente do mundo presente. Aqui homens e mulheres se casam, lá não. A expressão de Jesus “os que Deus julgar dignos da ressurreição” lembra o aspecto de recompensa pela luta em favor de um mundo mais digno, mais justo e mais fraterno. Esta preocupação social estava bem longe dos pensamentos e atitudes dos saduceus, que se identificavam com aqueles que comandavam e oprimiam. No v. 36 Jesus diz que os ressuscitados serão como anjos, para mostrar a impossibilidade de se descrever a vida em plenitude. Quer dizer, lá não teremos os problemas, angústias e vicissitudes da vida presente.
2° momento – Jesus referindo a Ex 6,6 afirma que a esperança da ressurreição se baseia na revelação do Deus da vida, do Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Se eles não estão vivos em Deus, Deus estaria negando a si próprio, enquanto Deus da vida. “Deus, portanto, conclui Jesus, não é Deus de mortos, mas de vivos, pois todos vivem para ele”.
Pode alguém realmente acreditar em Jesus sem acreditar na ressurreição?
33° DOMINGO DO TEMPO COMUM
18/11/2007
I° LEITURA – Ml 3,19-20a
Deus envia seu mensageiro
O povo ao voltar do exílio babilônico sonhava com um novo tipo de sociedade fundamentada na justiça, solidariedade e fraternidade. Mas o sonho do povo demorava a tornar-se realidade. Pelo contrário, havia injustiças e opressão por parte dos de dentro e dos de fora, que ainda exerciam o domínio sobre Judá, ou seja, o Império Persa. O povo começava a duvidar, se Deus realmente estava a par dos acontecimentos, se a sua paciência não tinha fim. É nessa época, por volta do séc. V a.C., que Deus envia o seu mensageiro, o profeta Malaquias (= meu mensageiro cf. 3,1). Ele vem relembrar o respeito, o amor, uma liturgia não estéril, mas cheia de vida, uma vida matrimonial responsável, maior solidariedade e justiça, um dízimo à altura da prodigalidade e bondade de Deus e, no texto de hoje, o Dia de Javé. Os versos finais do capítulo 3º são um acréscimo posterior que fala sobre o retorno de Elias, que Jesus vai identificar com a presença de João Batista.
O dia de Javé está para chegar
A tolerância de Javé chegou ao fim. A impunidade não terá mais lugar e a justiça vai triunfar.
O Dia de Javé é comparado como um fogo que vai consumir os soberbos e os injustos opressores como uma palha (v. 19). O Dia de Javé vai consumir os injustos e trazer triunfo e glória para os justos. Dos injustos comparados com uma árvore na sua arrogância não sobrará nem ramos, nem raízes. Mas, para os justos, os que temem a Javé brilhará o sol da justiça, que cura com seus raios.
II° LEITURA – 2Ts 3,7-12
Muitos não querem trabalhar
“Paulo” aborda, no texto de hoje, a questão do trabalho. O problema é que na comunidade de Tessalônica muitos estavam levando uma vida ociosa, talvez, por dois motivos. O primeiro é porque acham que Jesus vai chegar a qualquer momento. Se Jesus vai chegar logo para que trabalhar? O segundo motivo poderia ser também o fato do trabalho ser coisa para escravos e não para homens livres. Assim pensava toda aquela sociedade de mentalidade grega. O negócio, ou trabalho, era justamente a negação do ócio, do lazer, da tranquilidade. Esta turma além de incomodar ainda vivia às custas dos outros.
A resposta e o exemplo de “Paulo”
Paulo que de dia trabalhava para o próprio sustento e para não ser pesado para ninguém, e, de noite, trabalhava na pregação do Evangelho, tinha bastante autoridade para falar do assunto. Vejamos os vv. 7b-8. Aliás, no tempo da fundação da comunidade, ele já tinha deixado uma norma: “Quem não quer trabalhar, também não coma”. “Paulo”, como apóstolo do evangelho, não precisava trabalhar, pois Jesus disse que o operário (o evangelizador) tem direito ao seu alimento (cf. Mt 10,10). Entretanto, “Paulo” prefere trabalhar, também, para dar exemplo.
Um pequena reflexão sobre o trabalho
Hoje há muitos que vivem uma vida mais ou menos ociosa, ganhando muito através da exploração, do trabalho escravo, de juros altos. Por outro lado, a grande massa dos trabalhadores penaliza-se em trabalhos pesados e de muitas horas e não ganha o suficiente para levar uma vida digna. “Quem não trabalha, não coma”, é uma boa norma, mas quem trabalha precisa comer, vestir, viver. Como mudar esta situação? Como acabar com o trabalho escravo? Como melhorar a vida do trabalhador? Temos um outro problema também muito sério: como arranjar trabalho para quem quer?
EVANGELHO – Lc 21,5-19
O capítulo 21 de Lucas é chamado de discurso escatológico e é escrito em linguagem apocalíptica. Os apocalipses não pretendem, como muitos pensam, fazer previsões e profecias para o futuro. Eles pretendem revelar o que acontece na história e qual o posicionamento daquele que tem fé diante desses acontecimentos. O cristão, como Jesus, não pode concordar e se acomodar diante de uma sociedade atéia. No texto de hoje vemos o seguinte:
a) Jesus anuncia a destruição de Jerusalém (vv. 5-6)
Lucas descreve quase vinte anos depois da destruição do Templo, o que aconteceu no ano 70 dC. Os apocalipses costumam usar acontecimentos passados e apresentá-los como ainda não realizados, para animar a resistência dos cristãos e encorajá-los na luta. O povo achava que a invasão dos pagãos e a destruição do Templo eram sinais do fim do mundo. Na realidade, eram apenas sinais do fim do judaísmo, eram sinais do fim do sistema opressor representado pelo Sinédrio e simbolizado pelo Templo.
b) Exortação ao encorajamento e ao discernimento (vv. 7-11)
O povo não pode se deixar levar pelos charlatões e enganadores, hoje muito em voga, dentro e fora da Igreja. As perguntas dos apóstolos são as mesmas de hoje: quando? como? E aqui aparecem os falsos messias tapeando e assuntando o povo. Fiquem atentos, eles estão por aí com argumentos aparentemente convincentes. Os vv. 10 e 11 são comuns nos profetas para anunciar a chegada do fim. Aqui, como dissemos, eles anunciam o fim do mundo judaico. Qual deve ser a atitude cristã diante de tudo isso?
c) O testemunho e a perseverança até o fim (vv. 12-19)
Diante de tudo isso, o cristão deve reativar seu testemunho e reanimar sua esperança diante de dias melhores, na certeza de que as crises apontam para o novo, para o melhor; por isso o importante é perseverar até o fim, apesar das tribulações, perseguições, prisões, mortes. Tudo isso Lucas já viu acontecer na comunidade (morte de Estevão e de Tiago, lutas e sofrimentos de Paulo, etc.). Aconteceu com o Mestre, por que não acontecer com o discípulo? Tudo isso, aliás, é sinal de que o Reino está chegando. É só assim que o cristão entra na glória. O cristão não deve temer, mas resistir. Sua resistência deve ser inteligente, solidária, realista e esperançosa, pois: “é permanecendo firmes que vocês irão ganhar a vida”.
34° DOMINGO DO TEMPO COMUM - NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO
25/11/2007
I° LEITURA – 2Sm 5,1-3
A liturgia de hoje escolhe este texto, onde Davi é aclamado rei de todo Israel, para simbolizar a universalidade do reinado de Jesus. Como Davi chegou a reinar sobre todo povo? Ele era um chefe guerreiro (1Sm 18,5), tornando-se depois líder dos marginalizados. Durante o reinado de Saul teve que fugir acabando no meio dos inimigos do rei – os filisteus. Ele chegou até a administrar uma cidade. Com a morte de Saul, ele é ungido rei (2Sm 2,4.7) e reina sobre Judá durante sete anos e meio. E depois é eleito rei sobre as tribos do Norte (2Sm 5,3) e reina sobre todo o Israel durante trinta e três anos, unificando todas as tribos (1Rs 2,11). Por quais motivos Davi foi escolhido rei também das tribos do Norte? Por causa da fraternidade de raça (v. 1) sua experiência militar e as bênçãos de Deus (v. 2).
Vemos assim em 2Sm 5,1-5 o perfil da autoridade em três traços principais: a) a verdadeira autoridade exerce a liderança pela liberdade e justiça (v. 2a). b) A consciência de que o povo pertence a Deus (v. 2b). O líder não é quem domina, manipula e explora, mas um pastor que dá segurança e vida para o povo. c) A autoridade autêntica sabe conviver com as lideranças populares (os anciãos de Israel (v. 3a), partilhando o poder.
Davi torna-se assim o unificador do povo de Deus e símbolo do rei ideal. Após o exílio o povo sonha com um novo Davi. Sua importância cresceu por ser ele o antepassado profético de Jesus, o Messias, chamado filho de Davi. Por todas as qualidades de líder e de unificador das tribos, tornou-se figura do Messias, que iria governar todo o universo (cf. 2a leitura).
II° LEITURA – Cl 1,12-20
Na comunidade de Colossos havia uma mistura de elementos judaicos e cristãos e até mesmo pagãos. A soberania de Jesus estava sendo posta em dúvida diante de poderes angélicos, outras forças cósmicas e outros seres intermediários. Eles estavam considerando certas mediações entre Deus e os homens no mesmo plano do único mediador Jesus Cristo. Além disso, buscavam uma série de observâncias religiosas (2,16.21.23). Então o autor, um discípulo de Paulo (que chamaremos de “Paulo”, para simplificar) procura corrigir a comunidade e no livro de hoje ele salienta:
a) A origem divina da iniciativa da salvação (vv. 12-14)
Foi o Pai que nos permitiu participar da herança dos cristãos na luz, como pagãos vivíamos nas trevas. Por isso com alegria devemos agradecer ao Pai (v. 12).
Arrancando-nos do poder das trevas (reino do mal), o Pai nos transportou para o Reino de seu Filho amado. É nele que temos a redenção, o perdão dos pecados. Agora, longe das trevas, vivemos numa comunidade, onde Jesus é nossa luz.
b) Jesus é o Rei de todo o universo (18-20)
Aqui temos um hino batismal, onde aprendemos quem é Jesus. Ele é nosso Salvador, ele é a plenitude do humano e do divino. Ele reina sobre o universo inteiro.
vv. 15-17 – Nestes três versículos vemos Jesus como raiz, centro e ponto de unidade de toda a criação, pois Deus criou tudo em Jesus (as coisas da terra e as coisas do céu, as coisas visíveis e as invisíveis). Tudo foi criado por meio de Jesus e para Jesus. Poderes angélicos, forças cósmicas e outros seres intermediários, que estavam sendo vistos como indispensáveis e estavam no mesmo nível de Jesus, são todos criaturas e secundários. Tudo depende dele, pois ele está acima de tudo. “O Deus invisível e inatingível se torna visível e acessível em Jesus”. Como imagem perfeita de Deus ele se torna o Novo Adão, o homem verdadeiro (cf. Gn 1,26-27).
vv. 18-20 – Em Jesus, Deus recriou a humanidade e fez dele a cabeça daquele corpo que é Igreja. Por sua ressurreição ele se torna o primogênito dentre todos os que ressuscitam, e o princípio vital da vida nova, pois ele é vida de Deus e é por meio dele, por meio de seu sangue, que Deus reconcilia todas as coisas consigo estabelecendo a paz. Salvação e vida não dependem de intermediário, mas única e extremamente da fé em Jesus nosso Soberano e Senhor.
Que lugar Jesus ocupa na sua vida? Jesus conseguiu seu reinado aliando-se aos poderosos ou aos marginalizados e excluídos?
EVANGELHO – Lc 23,35-43
Narração da paixão – testemunho e fé sobre Jesus
Muitos gostariam de ver os evangelhos como uma reportagem televisiva, ou pelo menos lê-los como uma crônica, com seus pormenores históricos. Se tivéssemos uma fita de vídeo, feita por um inimaginável ET com todos os detalhes da paixão e morte de Jesus, seria interessante, curioso, mas menos importante de que o que temos nos evangelhos. Aos evangelistas não interessa tanto a crônica, a história em si, mas o TESTEMUNHO DE FÉ da comunidade, ou o testemunho de uma comunidade de fé. O que nos interessa nesta narração da paixão é o significado da pessoa de Jesus e do seu gesto de amor: Jesus é o servo escolhido por Deus, que assumiu até às últimas conseqüências sua messianidade; ele veio salvar a humanidade, trazer vida para os marginalizados e assumir um reinado somente reconhecido pelos pequenos e excluídos. O patíbulo da cruz é seu trono de glória. Tudo isso é algo que ultrapassa a nossa lógica, é algo fora do “bom senso”, por isso enquanto aqueles que vivem fora da lógica dos grandes o aceitam, os letrados e donos do mundo o rejeitam.
a) vv. 35-39 – Aqueles que rejeitam a realeza de Jesus
Os chefes (v. 35), os soldados (v. 36), manipulados pela mesma lógica dos que mandam, e até mesmo criminosos (v. 39), que indignados com a opressão de uma sociedade exploradora e injusta não descobriram o verdadeiro caminho e contra-atacam com os mesmos métodos da violência social da qual são vítimas. Todos zombam de Jesus. A lógica é a mesma. Reconhecem a força salvadora de Jesus que salva pobres e marginalizados, mas a eles não importa a caridade, o amor aos outros, importa-lhes o amor a si mesmo, o egoísmo, a eles importa o triunfalismo, e o poder usado em benefício de si mesmo: “A outros salvou, que salve a si mesmo, se é de fato o Messias, o Escolhido (...)”; “Salva a ti mesmo e a nós também”. O letreiro é também um deboche dos letrados. Mas tanto os chefes como os soldados, o criminoso, como o letreiro não conseguem esconder a verdade. Jesus é realmente o Messias, o Salvador, o Rei não apenas dos pobres, mas do universo inteiro.
b) vv. 40-42 – O bom ladrão e os fiéis de todos os tempos
A atitude do bom ladrão simboliza e sintetiza a caminhada de fé de todos os que crêem e aceitam Jesus como seu Rei e Salvador. Os outros evangelistas não narram este diálogo. Quais são os passos da caminhada de fé para Lucas?
Primeiro: O reconhecimento do nosso pecado. Todos somos pecadores e merecemos a condenação. Enquanto reconhecemos o nosso pecado, confessamos a inocência de Jesus.
Segundo: A profissão de fé na realeza de Jesus. Jesus é rei, apesar de não estarmos percebendo isto claramente aqui e agora.
Terceiro: A súplica pela salvação: Lembra-te de mim quando vieres em teu reino” (v. 42).
v. 43 – A resposta de Jesus
É uma garantia digna de fé: “Eu lhe garanto: Hoje mesmo você estará comigo no paraíso”. O Reino de Deus começa aqui e agora para quem tem fé. O início do Reino de Deus começa com o movimento de conversão e reconhecimento do próprio pecado. Quem começa a sair das gargantas destruidoras desta estrutura de pecado e morte começa a entrar no Reino, começa a refazer o paraíso perdido. Só os excluídos têm facilidade de dar esse passo de vida, pois eles não estão agarrados a esta estrutura de morte.