2007-06-27 CNBB - REGIONAL LESTE II

Institucional

   

18º DOMINGO DO TEMPO COMUM - 27/06/2007


Dom Emanuel Messias de Oliveira - Diocese de Guanhães


18º DOMINGO DO TEMPO COMUM
05/08/2007

Iª LEITURA – Ecl 1,2;2,21-23

1,2 - Tudo é vaidade
“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Esta frase já é conhecida e parece estranha, pessimista. Na verdade, o livro do Eclesiastes ou Qoélet caminha nesta linha aparentemente pessimista. Estudando, porém, o contexto histórico da Palestina do séc. III, tempo do autor, a gente vai entendendo melhor. Na verdade, a Palestina vivia dominada e explorada pelo império grego e o povo era obrigado a pagar pesados impostos. Quer dizer, usufruía pouco do fruto do seu trabalho. O autor faz uma análise crítica e realista desta situação opressora, que parece destruir o futuro do povo. A vida do povo, na realidade, estava insuportável, por isso o autor acha que tudo é “vaidade”. Aliás, esta palavra “vaidade” não traduz tudo o que o termo hebraico “hebel” pode significar. Significa vaidade, fugacidade, ilusão, mais precisamente, sopro, hálito, fumaça. Quando ele diz que tudo é “hebel”, ele quer dizer que tudo é como uma bolha de sabão. É bonita, reluzente, mas não dura nada, não serve para nada. Assim é a vida do povo, quando é explorado na sua força de trabalho. O v. 1 diz que tudo é vaidade (“hebel”). O v. 2 questiona a validade e o benefício do trabalho humano. Estes dois versículos iniciais sintetizam todo o livro. E se o povo vive trabalhando e não pode usufruir do fruto do seu trabalho, que valor, que consistência, que proveito tem seu trabalho? A única conclusão é que tudo é frágil, tudo é passageiro como uma bolha de sabão.

2,21-23 – Um trabalho decepcionante
A palavra “hebel”, que comparamos com uma bolha de sabão, aparece 37 vezes neste livro. Só no nosso texto de hoje aparece cinco vezes. Revela a decepção do autor diante de um trabalho humano, que não é valorizado, mas explorado pelo sistema. “Há quem pense que o muito trabalho poderá assegurar felicidade e realização. Porém, de que vale fatigar-se para acumular coisas, que a própria pessoa não conseguirá desfrutar?” (v. 21). O autor acha que isso é “hebel” e até mesmo um grande mal, pois no fim é outro que vai curtir o fruto do seu trabalho através da exploração, opressão e roubo. Na verdade, um trabalhador, que se vê assim explorado vai perder o gosto pelo trabalho, sentir seus dias dolorosos, sua tarefa penosa e perder o sono da noite (vv. 22-23). Por isso o autor acha que tudo é “hebel”. Mas, diante desta análise realista de uma vida explorada, o autor nos deixa uma mensagem: a felicidade neste mundo é poder usufruir plenamente dos frutos do trabalho, pois esse é o dom que Deus dá para todos (cf. vv. 24ss). O Novo Testamento dá um passo à frente não colocando a felicidade do homem neste mundo. Convida-nos à partilha e a sermos ricos para Deus (cf. Evangelho).

IIa LEITURA – Cl 3,1-5.9-11

O autor da carta aos Colossenses procura combater doutrinas estranhas que apareceram na comunidade. Assim ele desenvolve uma parte doutrinal (1,15-3,11) e faz umas exortações morais (3,12-4,18).
O forte da doutrina, além do hino cristológico em 1,15-20, está no capítulo segundo nos versículos 2-3 e 9-12 e também nos primeiros versículos do texto de hoje (Cl 3,1-4).
O nosso texto conclui a parte doutrinal e já vai antecipando a parte exortativa.

3,1-4 – Conclusão da parte doutrinal

O autor considera o cristão como um homem já ressuscitado. Todo aquele que foi batizado recebe a circuncisão de Cristo, que consiste em ser sepultado com ele no batismo e em ressuscitar com ele pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou da morte (cf. 2,12). Assim pelo batismo já fomos ressuscitados com Cristo. E Cristo ressuscitado está onde? No céu, “sentado à direita de Deus” (cf. Sl 110,1 (109)). O cristão é aquele que já morreu (v. 3) para os elementos do mundo (cf. 2,20). Então, neste mundo, ele deve aspirar, desejar e procurar as coisas do alto, não as da terra (v. 1). As coisas do alto são todas as coisas que se relacionam com Cristo e seu evangelho. As coisas da terra são os pecados e os vícios. Cristo é a cabeça da Igreja, que é seu corpo. Enquanto o corpo (os cristãos) ainda lutam neste mundo pela justiça, pela paz, contra os vícios, contra o pecado, a cabeça (o Cristo) já está no céu. Assim a vida do cristão está escondida em Cristo com Deus (v. 3). Quando é que a vida do cristão vai aparecer? A vida do cristão é Cristo. É só quando Cristo se manifestar na parusia que a vida do cristão vai aparecer junto com Cristo na glória (v. 4). Nós somos na terra como a semente, já temos tudo, mas só nos será revelada toda a beleza da novidade cristã, com toda a riqueza da ressurreição e da glória, quando do encontro com Cristo, quando Cristo se manifestar totalmente em nós e no mundo.

3,5.9-11 – Antecipação das exortações morais
Diante de tudo o que foi dito, o autor começa a tirar as conclusões para a prática da vida cristã. O cristão é um homem novo, enquanto ele vive com Cristo, ou deixa Cristo viver nele: “já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Quando fomos batizados morreu em nós o homem velho com seus membros terrenos. Membros terrenos são os vícios e tudo o que pertence à terra: fornicação, impureza, paixão, concupiscência e avareza, que é uma espécie de idolatria (v. 5). O v. 8 continua a enumeração dos vícios, que o homem novo deve abandonar: ira, raiva, maldade, maledicência e palavras obscenas. O v. 9 salienta a mentira. Os vv. 9 e 10 apresentam o contraste entre o que éramos: homem velho, a velha humanidade corrompida pelos vícios e pecados, e o que agora somos: homens novos, a nova humanidade, como que saída de novo das mãos de Deus “criada à sua imagem e semelhança”. O batismo é isso: uma nova criação, um novo nascimento. É por isso que no v. 11 não se admitem distinções antigas de raça, religião, cultura ou classe social: “todos são iguais e participam igualmente da vida de Cristo”


EVANGELHO – Lc 12, 13-21

Numa primeira leitura do texto de hoje percebemos uma correlação entre herança e ganância. Acredito que nem toda herança gera ganância, pois herança é um direito dos filhos, com a morte dos pais, inclusive assegura a continuidade da família. Talvez tenha razão aquele homem ao reclamar o que lhe é devido (cf. Gn 21,10; Jz 11,2). Ganância, entretanto já é um esforço indevido ou desmedido de acumular, um desejo desenfreado de aumentar os bens, de ter em abundância. É o caso do irmão que não queria repartir a herança. Se os irmãos são desleais, desonestos e injusto, a herança pode gerar ganância e mais ainda pode gerar briga e até mesmo morte.
Jesus não quer ser árbitro da partilha de bens entre irmãos (v. 14). No v. 15 Jesus deixa entrever que realmente o pedido do v. 14: “Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança”, supõe um caso de ganância, de egoísmo, de apropriação indevida dos bens do pai por parte de um irmão em detrimento do outro. De fato no v. 15 Jesus fala de ganância, de cupidez, de abundância e aproveita para exortar a uma precaução cuidadosa sobre os bens materiais, pois isso não assegura a vida do homem. Além disso, Jesus explica sua posição através de uma parábola sobre o fim inesperado de um rico ganancioso e egoísta, que só pensava em acumular para si. O v. 21 vai arrematar tudo dizendo que quem ajunta tesouros para si, e não é rico para Deus, tem a trágica sorte desse rico ganancioso e seus bens ficam para outrem.

O que está por trás do texto? Uma idéia do que está por trás do texto ajuda a entender a posição de Jesus. No tempo de Jesus havia duas propostas de sociedade, ou dois modelos econômicos. O do campo e o da cidade. O do campo se fundamentava na partilha, através da solidariedade, da troca de produtos, etc. Isso impedia que os individados caíssem na desgraça e que tivessem que emigrar para a cidade, tornando-se mendigos ou bandidos. O modelo econômico da cidade, ao contrário, é fundamentado na ganância, no acúmulo, na lei do mais forte. Isso naturalmente é fonte de exclusão e marginalidade. Isso gera mendicância, violência, roubo, etc. Sem dúvida o texto de hoje reflete uma situação do modelo econômico da cidade e não do campo, reflete a ganância e a exploração, não a partilha. Jesus toma posição em favor da partilha, não da cobiça, mas sem se colocar como árbitro entre os contendentes.

A posição de Jesus
A posição de Jesus está clara na sua exortação (v. 15) e na parábola que contou (vv. 16-21). Jesus é contra qualquer cobiça, pois a cobiça não garante a vida de ninguém. A parábola é um monólogo de um homem rico, ganancioso e egoísta, cujo ideal de vida é apenas comer, beber e desfrutar (v. 19; cf. Ecl 2,24; 3,13; 8,15). Este homem não pensa nos seus empregados, não pensa nos pobres; é profundamente ganancioso e egoísta. Jesus chama-o de insensato, e afirma sua morte naquela mesma noite. Isso significa que acumular bens não garante a vida. O importante é ser rico para Deus, através da justiça, da partilha e solidariedade para com o próximo, pois “quem se compadece do pobre empresta a Deus” (Pr 19,17; Eclo 29,8-13). Eclo 29,12 diz expressamente: “Dê esmola daquilo que você tem nos celeiros, e ela o livrará de qualquer desgraça”.




19o DOMINGO DO TEMPO COMUM
12/08/2007

Ia LEITURA – Sb 18,3.6-9

A preocupação básica do livro da Sabedoria

O livro da Sabedoria foi escrito em Alexandria no Egito por volta do ano 50a.C. É, portanto, o livro mais recente do Antigo Testamento. A colônia judaica, em Alexandria, chegava perto de 100.000 pessoas. A preocupação básica do autor é salvar a identidade cultural e religiosa do seu povo ameaçado pela civilização grega com seu culto ao corpo e à inteligência. O autor “procura reforçar a fé e ativar a esperança do povo, relembrando o patrimônio histórico e religioso dos seus antepassados. Ele ensinava a verdadeira sabedoria que conduz a uma vida justa e à felicidade. À sabedoria humana dos gregos, nosso autor contrapõe a sabedoria que vem de Deus, sabedoria que é praticamente identificada com a justiça. Nosso trecho pertence ao conjunto dos capítulos de 10 a 19 que enfatizam a ação da sabedoria na história do povo de Deus, cujo episódio central é a libertação da opressão egípcia. Nos capítulos finais o autor apresenta alguns paralelismos antitéticos entre a sorte dos opressores egípcios e a sorte do povo de Deus.

A sorte dos egípcios e a sorte do povo de Deus
É assim que no capítulo 18 temos trevas para os egípcios e luz para os hebreus, morte dos primogênitos dos egípcios e libertação e vida para os hebreus. O pecado egípcio é tratado com severidade, o pecado dos filhos de Israel é tratado com bondade. No nosso trecho, vemos que a morte dos primogênitos é o castigo mais cruel que Deus aplica aos egípcios, quanto aos israelitas é a prova mais decisiva em favor de sua libertação. A expressão “aquela noite” tornou-se clássica e já lembrava para todos o grande milagre da Páscoa hebraica, quando os hebreus foram libertados e os egípcios punidos. A antítese continua nos versos 7 e 8 como realização das promessas feitas aos antepassados, os patriarcas de Israel: salvação dos israelitas, povo eleito e punição para os egípcios, povo rejeitado. O v. 9 é uma referência à ceia pascal que era celebrada no segredo do lar, tendo como sacerdote o pai da família. A ceia pascal era um memorial que unia todos os israelitas, que se tornavam solidários nos bens da promessa como também nos riscos dos perigos. Os cânticos dos antepassados são um referência aos Salmos 112 (113) a 117 (118) – hinos de louvor e agradecimento pelas maravilhas de Deus, usados no ritual da ceia pascal.


IIa LEITURA – Hb 11,1-2.8-19

Nossos antepassados são modelo de fé
Este capítulo 11 apresenta um elenco de modelos de fé, tirado da história do povo eleito. Eles são vistos como santos, como luz na caminhada do povo de Deus. Nos momentos difíceis nos lembramos deles e nos reanimamos na nossa caminhada, pois se eles foram firmes e perseverantes nas provações através da fé, por que também nós não o podemos ser? Eles são, portanto, os santos que nos precederam na mesma caminhada, são nossos modelos e heróis na fé. O capítulo 11 nos apresenta Abel, Henoc, Noé, Abraão e Sara, Isaac, Jacó, José, Moisés, etc. Todos foram aprovados pela fé (vv. 2 e 39).

O que é a fé?
Nosso texto começa dizendo o que é a fé: “é um modo de já se possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se vêem” (v.1). Isto significa que a pessoa que tem fé já possui, já conhece, já vive, de certo modo, aquilo que ela espera. Nós, através dos sacramentos e da nossa vivência de fraternidade, justiça e amor, já vivemos a presença misericordiosa e amorosa de Deus em nosso meio, já começamos a antecipar o futuro.

Abraão e Sara – modelos de fé
O texto de hoje, depois de definir a fé, focaliza Abraão e Sara como modelos (vv.8.9). Chamados, eles obedecem prontamente e partem para um lugar desconhecido. Deus lhes promete uma terra e eles confiam cegamente nesta promessa. Eles foram, primeiramente, morar como estrangeiros, como peregrinos na terra prometida, a terra de Canaã. Sua residência final como cidadãos de plenos direitos, o que era objeto de sua esperança, era a “cidade bem alicerçada, cujo arquiteto e construtor é o próprio Deus” (v. 10). Também Sara, velha e estéril, que, a princípio, vacilou, acabou acreditando plenamente, por isso Deus lhe recobrou o vigor e dela fez nascer uma descendência tão numerosa como as estrelas do céu e os grãos de areia da praia do mar (v. 12).

Somos peregrinos deste mundo
Os versos 13 a 16 retomam a reflexão geral sobre a fé dos patriarcas, mostrando que Deus adiou a realização plena das promessas. Eles morreram na fé, sem perder a esperança. Eles não viram o Prometido de perto, mas o viram e saudaram de longe. É isso que afirma São João, quando diz: “Abraão, o pai de vocês, alegrou-se, porque viu o meu dia. Ele viu e encheu-se de alegria (Jo 8,56). Todos eles “confessaram que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra”. Todos estavam em busca da pátria celeste, a pátria definitiva, a cidade preparada pelo próprio Deus, da qual Canaã era apenas uma prefiguração.

A prova mais dura – o sacrifício de Isaac
Os versos 17-19 apresentam a prova mais dura e, por isso mesmo, a expressão mais genuína da fé de Abraão: o sacrifício do seu único filho, herdeiro das promessas. Abraão não hesitou um minuto. Ele acreditava “que Deus era capaz de ressuscitar os mortos, por isso ele recuperou seu filho. E isso se tornou um símbolo”. Podemos dizer que Abraão é o símbolo da fé e Isaac símbolo de Cristo.

EVANGELHO – Lc 12,32-48

Advertência geral: desapegos e partilha.
Os vv. 32-34 estão ligados ao que já foi dito sobre o abandono nas mãos do Pai e sobre a busca fundamental, ou seja, a busca do Reino de Deus. O pequeno rebanho não deve se intimidar diante dos conflitos e perseguições dessa sociedade gananciosa interesseira e egoísta. Afinal, o Reino é um dom gratuito do Pai e ele no-lo dá com prazer e alegria. Entesoura para o céu quem se esvazia aqui na terra. As coisas da terra se corrompem e podem ser roubadas. As coisas do céu são incorruptíveis. Quem coloca seu tesouro no céu, coloca lá também seu coração. O importante aqui é libertar-se do espírito de posse e abrir o coração para a partilha.

Rins cingidos e lâmpadas acesas
Rins cingidos significa atitude de alerta e prontidão para o trabalho. A túnica longa atrapalhava os movimentos, então, era preciso levantá-la e amarrá-la na altura dos rins. “Lâmpadas acesas” é uma expressão de igual significado, pois, na emergência, não há tempo para correr e providenciar pavio, óleo, acender a lâmpada, etc.
O resto do texto é uma ilustração sobre a vigilância e pode ser dividida em três parábolas.

a) A parábola do servo que esperava a volta do seu patrão (vv. 36-38)
Este patrão é diferente, pode chegar a qualquer momento e bater à porta. O servo tem que estar atento e preparado; só assim ele será feliz. Este patrão, que chega e serve ao invés de ser servido, só pode ser Jesus.

b) Em que hora da noite vai chegar o ladrão? (vv. 39-41)
Ninguém sabe. Jesus vai chegar como o ladrão, ou seja, sem avisar. Por isso o cristão deve estar sempre preparado e vigilante.
À pergunta de Pedro, se a parábola é para eles, os dirigentes, ou para todos, Jesus responde com uma terceira parábola

c) Parábola do servo fiel e prudente (vv. 42-44)
O patrão viajou e deixou um servo para tomar conta de tudo, se ele foi fiel, sóbrio e vigilante e não abusar da confiança, será recompensado, do contrário será punido. O patrão é um só e cada um de nós recebe um dever de servir e não direitos e poderes. Deus vai exigir mais do que tem mais consciência de seu serviço, ou seja, daquele a quem foi dado mais.


ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA
19/08/2007

Ia LEITURA – Ap 11,19a.; 12,1-6a.10ab

Diante das perseguições sofridas pelas comunidades cristãs, o livro do Apocalipse procura dar um resposta, um consolo, um incentivo à luta e à esperança. A linguagem é simbólica, apenas compreensível aos cristãos.
Nosso trecho traz praticamente 4 imagens simbólicas principais:

a) Arca da Aliança
O Templo, a arca, a aliança, os sinais cósmicos indicam que Deus vai falar, vai comunicar-se com os homens. A Arca, no Antigo Testamento, trazia as tábuas da Lei, expressão de Deus para o povo. A arca, aqui, pode simbolizar aquela que traz em seu seio a própria Palavra de Deus. Ela pode ter o mesmo significado da mulher do capítulo 12.

b) A mulher
Ela estava vestida de glória e protegida por Deus (vestida como o sol), tem traços da eternidade divina (lua sob os pés) e na cabeça uma coroa de 12 estrelas. Ela representa a vitória da comunidade dos filhos de Deus do Antigo e Novo Testamento (12 tribos e 12 apóstolos). A mulher é uma imagem polivalente: É Eva, a mãe da humanidade, que vai dar à luz um descendente capaz de esmagar o mal (Gn 3,14-15); é o povo de Deus do Antigo Testamento (12 estrelas); é Sião-Jerusalém, que dará à luz o Messias; é Maria mãe de Jesus; é a comunidade-Igreja, mãe dos cristãos. A fuga da mulher para o deserto indica a vida da Igreja até fim da história (= 1260 dias – tempo relativo) em meio às perseguições e na intimidade com Deus. A tradição da Igreja sempre aplicou Ap 12 a Maria que é a Nova Eva, figura da humanidade, figura da Igreja geradora de cristãos. Assunta ao céu, ela antecipa na glória de Jesus o futuro vitorioso de cada cristão.

c) O dragão
É a personificação do mal, a auto-suficiência; é o poder totalitário dos impérios perseguidores da Igreja. No tempo de João, era o Império Romano que perseguia os cristãos. É sanguinário (vermelho), poderoso (sete cabeças, duas coroas), mas seu poder não é absoluto nem perfeito (10 chifres). Pretende lutar contra Deus (estrelas do céu) e quer devorar o Filho da Mulher, o Messias que veio para destruí-lo.

d) O Filho
É Jesus, o vencedor do dragão, do pecado, do mal e da morte com sua ressurreição (foi levado para junto de Deus e do seu trono). O v. 10 apresenta “a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo”

IIa LEITURA – 1Cor 15,20-27

A 1Cor é uma resposta a diversos problemas e questionamentos da comunidade. O capítulo 15 é todo dedicado ao problema da ressurreição, que alguns estavam negando. Primeiro, ele recorda o anúncio fundamental: Cristo morreu e ressuscitou. Essa certeza da nossa fé é testemunhada por muitos que viram o Cristo ressuscitado. Se, como alguns estão afirmando, os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou e, então, é vã a nossa fé. Mas isso não é verdade. No trecho de hoje, Paulo apresenta dois argumentos.

a) Jesus é o Novo Adão (vv. 20-23)
Adão morreu e na sua morte todos morreram. Jesus é o novo Adão ressuscitado. Ele é o primeiro fruto de uma nova colheita (= primícias). Os primeiros frutos garantem a qualidade da colheita. Isto significa que se Cristo ressuscitou como primícias, todos nós ressuscitaremos depois dele. Em Adão a morte, em Cristo a vida.

b) A vitória de Cristo sobre o mal e a morte
Jesus vence todas as forças e estruturas injustas e inimigas da vida. Todos esses inimigos ele os colocará debaixo dos seus pés. Só depois que isso tiver acontecido é que ele entregará o Reino a Deus Pai. Aí será o fim. Mas qual será o maior inimigo da vida? É a própria morte. Este é o último inimigo a ser destruído. Cristo já o destruiu em seu próprio corpo, mas a vitória só será completa quando ele a destruir em cada um de nós. Aí sim. Aí ele entregará o Reino a seu Pai para que Deus seja tudo em todos. É bom lembrar que nesta luta de destruição de tudo que gera a morte cada cristão deve estar profundamente empenhado.

EVANGELHO – Lc 1,39-56

Aqui temos dois encontros: o encontro de duas futuras mães e o encontro de duas crianças!

a) Maria se encontra com Isabel
Quem é Maria? Quem é Isabel? Duas pessoas pobres, mas agradecidas pelo dom de fecundidade. Isabel era estéril e Maria não teve relações com nenhum homem. Deus se manifesta nos pobres trazendo-lhes a riqueza da vida. As palavras de Isabel são inspiradas em textos do Antigo Testamento.

Jz 5,24 – “Bendita seja Jael entre as mulheres”.

Jt 13,18 – “Ó filha, bendita sejas para Deus altíssimo mais que todas as mulheres da terra”.

Dt 28,1.4 – “Bendito seja o fruto de teu ventre”.

2Sm 6,9 – “Como virá a Arca de Javé para ficar na minha casa?”

Maria é vista aqui como a Arca da Aliança, pois ela traz em seu seio a salvação de Deus e Isabel reconhece o Salvador, que irá nascer do ventre de Maria (v. 43).
As palavras inspiradas de Isabel são repetidas, há dois mil anos, por milhões de lábios devotos todos os dias ao rezarem a Ave Maria (cf. v. 48). Maria é bem-aventurada, porque acreditou nas promessas do Senhor. Sua grandeza provém sobretudo de sua fé assumida.

b) Jesus se encontra com João Batista
À saudação de Maria, João Batista se agita no seio de Isabel saltando de alegria, e ela se enche do Espírito Santo. É claro que Lucas quer mostrar a presença da Boa Nova no seio de Maria. A presença do Salvador já alegra o coração do precursor.

2) O cântico de Maria
O cântico é apresentado como resposta de Maria à saudação de Isabel. Lucas o compõe também com palavras do Antigo Testamento, principalmente inspirado no cântico de Ana em 1Sm 2,1-10, como expressão da gratidão dos pobres – resto de Israel – que aguardavam a libertação. O núcleo do cântico nos mostra uma espécie de inversão de valores. Na dimensão religiosa Deus destrói a auto-suficiência humana (dispensa os soberbos de coração). Na dimensão política, Deus derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes, refazendo as relações de opressão em relações de fraternidade. Na dimensão social, Deus despede os ricos de mãos vazias e enche de bens os famintos, transformando as relações de exploração em relações de partilha. É a misericórdia de Deus chegando na vida de todos os descendentes de Abraão, que conservaram seu temor ao Deus sempre fiel às sua promessas salvíficas.


21o DOMINGO DO TEMPO COMUM
26/08/2007

Ia LEITURA – Is 66,18-21

O Deutero-Isaías (Is 40-50) com sua promessa de retorno do Exílio Babilônico e reconstrução fácil e rápida do país, trazendo de novo a glória perdida, não se realizou a contento. Os repatriados ainda estão vivendo tempos difíceis de um modo geral, a comunidade está em decadência. A função do Trito-Isaías (55-66) é exatamente levantar o moral do povo, reativando a esperança de uma reconstrução nacional. Nosso texto rompe as fronteiras de um nacionalismo mesquinho e sua esperança alcança dimensões universais.
O estilo é apocalíptico e o anúncio é messiânico com perspectivas escatológicas. Nesse tempo, Deus mesmo virá reunindo todos os povos e línguas. Todos virão para admirar a glória de Deus, ou seja, a salvação que ele traz. Este encontro universal para contemplar a glória de Javé começará com um sinal. É possível que este sinal se refira a uma catástrofe histórica, pois o texto fala de sobreviventes. Todos os sobreviventes se tornarão missionários e serão enviados a todas as nações do mundo, que nunca viram a glória de Javé. A enumeração das nações no v. 19 relembra Gn 10 com a lista dos povos após o dilúvio. As barreiras nacionalistas são sempre superadas. Acontecerá o inverso da torre de Babel, quando os povos foram dispersos. Agora todos se reunirão na montanha santa de Jerusalém. Está clara a abolição de um povo (o povo judeu) como preferido, e mais ainda, parece também claro, através do v. 21, que sacerdotes e levitas serão agora escolhidos não apenas de entre o povo eleito, mas no meio de todos os povos e nações. Com Jeremias, aliás, poderemos ir mais além: todas as mediações, mesmo religiosas serão abolidas, através da nova aliança, onde “ninguém mais precisará ensinar seu próximo ou seu irmão..., porque todos, grandes e pequenos, me conhecerão” (cf. Jr 31,31-34).

IIa LEITURA – Hb 12,5-7.11-13

A comunidade está enfrentando dificuldades, desânimos, sofrimentos. Testemunhar Jesus significa subir o calvário com ele. No capítulo 11 o autor enumerou uma longa lista dos que perseveraram e foram aprovados através da sua fé. O autor no nosso trecho vai dar duas explicações para o sofrimento cristão. Um pouco antes, ele já explicava o sofrimento à luz da cruz de Cristo (vv. 2-3).

Deus educa através do sofrimento
A primeira explicação, agora, vem com uma pedagogia que o pai aplica ao filho. O filho não entende na hora, mas o sofrimento-correção produz depois seus efeitos (v. 11). É assim que Deus faz; ele não quer que desanimemos, quando formos repreendidos pela repressão-sofrimento (v. 5), pois o Senhor corrige a quem ele ama e castiga (educa) a quem ele aceita como filho. Em vista da educação é que vocês sofrem. Deus trata-os como filhos. E qual é o filho que não é corrigido pelo pai?
Podemos ver uma segunda explicação nos vv. 12-13, enfocando-os na linha da solidariedade cristã. Aliás, não é esta a explicação do sofrimento tirada da cruz de Cristo? Ele sofreu e morreu em nosso lugar. “Mãos cansadas e joelhos enfraquecidos” lembram a situação de prostração da comunidade. O revigoramento dos cristãos, apesar do sofrimento-solidariedade, vai reforçar aqueles que vacilam na ação (mãos cansadas), na estabilidade (joelhos enfraquecidos) e na caminhada da fé (pés). A solidariedade cristã é uma ótima explicação do sofrimento e um meio eficaz de cura para os aleijados na caminhada da fé.
Você tem suportado o sofrimento à luz da fé?

EVANGELHO – Lc 13,22-30

Antes da pergunta do v. 23 temos dois dados importantes no v. 22. O primeiro é a indicação de Lucas que Jesus atravessa cidades e povoados ensinando. Isto já é uma afirmação da universalidade da salvação. A salvação de Jesus não pertence de direito a um povo. O segundo dado é que Jesus prosseguia seu caminho para Jerusalém (cf. 9,51; 17,11; 19,28). Em Jerusalém Jesus encontrará oposições, dificuldades, violência e morte. É a porta estreita dos que vão entrar no Reino. Porta do enfrentamento com os poderes opressores e contrários à vida, porta da luta pela fraternidade e justiça.

“São poucos os que se salvam?” (v. 23)
A esta pergunta teórica e inútil Jesus dá uma resposta prática e fundamental. A porta da salvação é estreita, muitos vão tentar, mas não vão conseguir entrar. O importante não é fazer todo o esforço possível para entrar. Aqui temos claramente afirmado que a salvação não é apenas dom de Deus, mas também esforço nosso. Em que consiste o nosso esforço? A resposta aparece no v. 27, mas antes Jesus esclarece contando a parábola da porta fechada.

Cuidado para não chegarem tarde demais (vv. 25-27)
Esta parábola vai esclarecer a tentativa frustrada de todos aqueles que não conseguiram entrar. Trata-se da porta do banquete messiânico.
Depois de um certo tempo da chegada dos convidados, o anfitrião se levanta e fecha a porta. Todos os que chegarem atrasados baterão à porta, mas serão ignorados. E aqui se desfilarão os arrazoados daqueles que hoje tranquilizam suas consciências com narcóticos de uma pseudo-religião de ritos vazios e estéreis, sem compromisso com a solidariedade a justiça. Não bastam o legalismo farisaico, o ritualismo cristão, missas, retiros, orações, movimentos religiosos. Tudo isso só tem sentido se for acompanhado do esforço da prática da justiça (v. 22), aqui e agora, enquanto é tempo.

Os esclarecimentos finais (vv. 28-30)
Pouco adianta aos judeus serem filhos de Abraão, se não querem comprometer-se com Jesus a caminho de Jerusalém. O mesmo se pode dizer de nós cristãos se nossas práticas religiosas são estéreis, sem o engajamento prático na luta pela justiça (porta estreita). A mesa do banquete será ocupada por aqueles que nunca ouviram falar de Deus, mas vivem praticando a justiça. O v. 30 pode ser assim entendido: os pagãos considerados os últimos serão ao primeiros; os judeus considerados os primeiros serão os últimos. Os cristãos só de missa serão considerados os últimos; os de fora da comunidade, mas que praticam a justiça, serão considerados os primeiros. Talvez coubesse aqui uma pergunta final: Em que está consistindo nossa vivência cristã?


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