2010-07-02
FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO
04/07/2010
Iª LEITURA – At 12,1-11
– Páscoa Judaica – Páscoa de Jesus – Páscoa de Pedro
O livro dos Atos dos Apóstolos poderia muito bem ser chamado de livro dos Atos de Pedro e Paulo, pois estes dois apóstolos são as figuras principais do livro. Até o cap. 12, Lucas se preocupa com Pedro; e do capítulo 13 ao 28 o protagonista é Paulo. Lucas, o autor dos Atos, tem um esquema mental interessante. Ele pensa em três grandes tempos, onde a força de Deus (o Espírito Santo) está presente. O tempo da promessa (= Primeiro Testamento), o tempo da realização (= tempo de Jesus = evangelho) e o tempo da Igreja (= Atos dos Apóstolos). O Espírito Santo que atuou nos profetas é o mesmo que age em Jesus e na Igreja. Como a Igreja é o prolongamento das ações de Jesus, ele mostra esquematicamente que o que aconteceu com Jesus também aconteceu com a Igreja, simbolicamente representado por Pedro e Paulo. Igualmente os mesmos prodígios que Jesus faz, Pedro e Paulo também os fazem.
O texto de hoje tem dois paralelos. Lucas pensa na Páscoa judaica, reproduzindo o episódio do Êxodo e pensa também na Páscoa de Jesus. O capítulo 12 pode ser chamado de Páscoa de Pedro. Israel oprimiu o seu povo como o Egito oprimia os hebreus. O faraó opressor é reproduzido na pessoa de Herodes Agripa I (vv. 1ss). Na mente de Lucas estão presentes também Pilatos e Herodes Antipas, os opressores do tempo de Jesus. As datas relembram o Êxodo e a Páscoa de Jesus: prisão nos dias da festa do pão sem fermento, a libertação na última noite das solenidades pascais. Temos o mesmo instrumento de libertação: “O anjo do Senhor”, que é a forma típica de expressar a ação de Deus (Nm 20,16). Assim como Deus libertou seu povo da escravidão egípcia, liberta Jesus e Pedro e os devolve à comunidade (vv. 12ss). Quem quiser ver mais de perto o paralelo entre a Páscoa de Pedro e a de Jesus deve ler atentamente Lc 22-24. O grande aparato repressivo pode ser visto também nas tropas do faraó e na prisão de Jesus. Lucas salienta também a força poderosa de Deus libertador para quem as cadeias do opressor nada representam. Pedro estava tão amarrado que ele pensava que sua libertação não passava de um sonho. Só depois que o anjo o deixou é que ele caiu em si. Mas o v. 5 já antecipa o que motivou a intervenção miraculosa de Deus: a oração fervorosa da comunidade.
2ª LEITURA – 2Tm 4,6-8.17-18
O texto de hoje é tirado da segunda carta a Timóteo capítulo quarto, versículos de seis a oito e dezessete a dezoito. Trata-se do “Testamento de Paulo”, mesmo sabendo que as pastorais (1 e 2 a Tm e Tt) não são de Paulo, mas apenas atribuídas a ele.
Primeiro, Paulo relembra o passado e projeta o futuro.
Ele está para morrer e faz uma revisão de sua vida. O passado é motivo de orgulho para ele, pois agiu como um bom e corajoso soldado ou como um atleta vitorioso, guardou a fé, entregou sua vida à evangelização. O futuro é para ele carregado de esperança. Ele espera ganhar de Deus a coroa de justiça no dia da manifestação de Jesus. Esta coroa não é só para ele, é também para todos aqueles que como ele trabalharam na esperança, agiram na caridade. A coroa da justiça é símbolo da vitória sobre a morte.
Segundo, ele relata o que se passou no tribunal.
Aconteceu na paixão de Paulo o que aconteceu na paixão de Cristo. Ele é abandonado por todos, entretanto o Senhor não o deixou sozinho, mas o revestiu de força. Ali, ele dá testemunho de Jesus e “a mensagem foi plenamente proclamada e ouvida por todas as nações”. Paulo não foi imediatamente condenado; ele foi libertado por um pouco de tempo. “Boca de leão” é uma provável referência ao julgamento do imperador. Paulo, contudo não está mais preocupado com uma libertação física. Sua esperança é grande, mas o que espera é uma libertação definitiva para o Reino celeste. Nosso passado é motivo de glória ou de pesar? Nosso futuro é carregado de esperança?
EVANGELHO - Mt 16,13-19
Quem é Jesus
O episódio acontece na região mais distante do centro. Cesaréia de Filipe está no extremo norte, pode ser considerada periferia em relação a Jerusalém. É distante do poder opressor. Jesus quer saber a opinião das pessoas a respeito dele. Primeiro, a opinião dos seus ouvintes em geral e a resposta é bastante variada, mas todos apontando-o como precursor dos tempos messiânicos. É João Batista ressuscitado, é o grande e esperado Elias que viria antes da grande intervenção de Deus na história. É Jeremias, um profeta que encarna o sofrimento e a esperança, ou é, enfim, algum dos profetas. As respostas são bonitas, mas ainda fracas. Em seguida, Jesus pede a opinião dos discípulos. É Pedro que responde em nome de todos. Ele dá duas respostas: Jesus é o Messias, Pedro acertou. Só precisará mudar a sua idéia sobre o messianismo de Jesus. Quando afirma que Jesus é o Messias, ele ainda pensa em messianismo político, pensa em triunfo, revolução política, poder e glória. Jesus, entretanto, veio como o Messias Sofredor, como o Servo de Javé; é por isso que no v. 23 Jesus vai repreender severamente a Pedro. A segunda resposta é: Jesus é o Filho de Deus vivo. Ele é o Emanuel, Deus conosco, é o salvador. O nome “Jesus” significa Deus salva. No Primeiro Testamento o Deus vivo e Salvador se opõe aos ídolos mudos, opressores.
Quem é Pedro?
Jesus faz um grande elogio a Simão Pedro, dizendo que ele falou sob revelação do Pai: Jesus faz duas afirmações a Pedro. A primeira é que ele é “Kefa”. O que significa Kefa? Se Kefa significa apenas rocha, Jesus quer dizer que sua Igreja será edificada sobre a rocha de Pedro, dos apóstolos, sobre sua fé e testemunho. Pedro é o líder do grupo e isso a gente vê nos evangelhos e nos Atos. Só que uma outra tradução também é possível. Kefa significa também caverna rochosa e “construir” é tradução para a palavra hebraica “banah”, que significa construir, mas também gerar filhos, fundar uma família. Considerando que a Igreja é uma comunidade de pessoas mais que um edifício, poderíamos adotar uma outra tradução do pensamento de Jesus: Tu és Kefa, uma caverna escavada na rocha. É aí dentro que eu vou criar a minha família. O papel de Pedro continua de amparo, de proteção e desta vez com características maternas, geradoras de vida. Contra a Igreja de Cristo a morte não tem poder.
A segunda afirmação de Jesus é o poder das chaves entregues a Pedro e sua comunidade. A chave para nós no Ocidente serve mais para fechar. Mas para os orientais serve mais para abrir. O poder das chaves dado a Pedro (e em Mt 18,18 dado a toda a comunidade) significa que a Igreja tem o poder de abrir suas portas para acolher pecadores e marginalizados (desligar das cadeias do mal) como também para rejeitar o poder opressor (ligar ao mal, condenar) que destrói as relações justas e fraternas da nova família de Jesus. É claro, que tudo que é mal deve ser desligado, condenado, excluído. Mas não devemos esquecer que a força da palavra chave em hebraico está na abertura e liberdade, no ato de abrir e não de fechar. A vida da Igreja é caracterizada pela liberdade e não pela escravidão.
14º DOMINGO DO TEMPO COMUM
04/07/2010
Iª LEITURA – Is 66,10-14c
O texto da liturgia de hoje pertence ao 3o Isaías ou 3a parte do livro do profeta Isaías (I Isaías = 1-39; II Isaías = 40-55; III Isaías = 56-66). O 3o Isaías é o profeta da esperança e da reconstrução. O povo já voltou do exílio babilônico, voltou com muita esperança de reconstruir Jerusalém o mais rápido possível. Mas Jerusalém tinha sido toda destruída. O povo encontrou só escombros, miséria e fome. Começaram o trabalho, mas o tempo foi passando e as dificuldades aumentando. Todos nós, diante dos problemas, somos vítimas do imediatismo. Queremos sarar de um dia para o outro, queremos resolver tudo hoje; começou então a haver um desânimo e até dúvida sobre o poder de Deus. É aqui que entra o profeta da esperança lembrando a força restauradora e o carinho materno do Deus libertador. O profeta não olha para baixo partilhando o pessimismo do povo, mas olha para o alto enxergando longe e vislumbrando uma perspectiva de transformação e glória. Ele levanta o moral do povo abatido, convidando a todos para uma festa, partilhando a alegria de uma Jerusalém reconstruída (v. 10). Jerusalém é comparada com uma mãe cheia de vigor amamentando seus filhinhos. Assim como uma criança só tem alegria no colo da mãe, assim todos os filhos de Sião devem regozijar-se (vv. 11-13). Esta metáfora da mãe, onde o coração materno de Deus é transferido para Jerusalém, quer mostrar a transformação que Deus fará da cidade, trazendo para ela o bem estar e as riquezas das nações (v. 12). Deus quer trazer vida e consolo para seu povo, como uma mãe que amamenta e tranquiliza seu filho (v. 13). Jerusalém vai-se transformando na cidade como símbolo da ternura e da justiça de Deus. Diante de tudo isso por que a tristeza? O importante é arregaçar as mangas e mãos à obra! O Segundo Testamento vê em Jesus Cristo a realização das promessas de Deus e o alicerce da nova Jerusalém (Ap 21,1-22,5).
2ª LEITURA – Gl 6,14-18
Entre os gálatas infiltraram-se os judaizantes, aqueles que são apegados à Lei judaica, para destruir o evangelho de Paulo. Paulo prega a salvação através da cruz de Cristo. Os judaizantes pregam uma salvação através do rigor da Lei e da necessidade da circuncisão. Paulo deixa claro que os judaizantes buscam seus próprios interesses e querem separá-lo dos gálatas. Eles fogem da perseguição que sofre quem aceita a cruz de Cristo e buscam gloriar-se na carne, ou seja, na circuncisão dos gálatas. A preocupação deles é aparecer.
O trecho de hoje é o final da carta, a mais brava que Paulo escreveu, pois ele percebe o perigo da destruição de todos os seus esforços e trabalhos de evangelizador. Podemos destacar nestes versos finais três temas: a inutilidade da circuncisão, o valor salvífico da cruz de Cristo e o renascimento cristão como nova criatura. A inutilidade salvífica da circuncisão e de toda a Lei fica bem clara na carta. Aderir à Lei é inutilizar a cruz de Cristo. A Lei não é capaz de gerar vida. Ela teve sua função até a chegada de Jesus (cf. 3,21-25). A única glória do cristão não está nele, mas na cruz de Cristo. A cruz deve ser vista sob dois aspectos: o da morte e o da vida. Paulo diz que na cruz de Cristo o mundo da injustiça, da vaidade e do pecado morreu para ele e ele para o mundo. Na cruz, Cristo destrói o anti-valor mal, pecado, morte. Da cruz, Cristo faz brotar a vida, a ressurreição, a nova criatura. A cruz não é escravidão (como a Lei que nos torna cativos de normas e preceitos, que não somos capazes de cumprir), mas é libertação para a vida. Quem adere à cruz de Cristo encontra a paz e a misericórdia, o perdão dos seus pecados para viver como nova criatura reerguida pela graça de Deus e não abatidos pelo peso da Lei. A prova da honestidade, fidelidade e verdade do evangelho de Paulo está nas cicatrizes do seu corpo, maltratado e torturado por causa de Cristo (v. 17). O caminho do verdadeiro missionário é o mesmo caminho de Cristo; primeiro a cruz depois a ressurreição.
EVANGELHO – Lc 10,1-12.17-20
Estamos no contexto da grande viagem para Jerusalém que em Lucas ocupa uma parte considerável do evangelho. Vai de 9,51 até 19,27. Lá, em Jerusalém, Jesus vai enfrentar a cruz da libertação. Ele vai morrer para trazer a vida para todos.
a) Todos devem participar
O número 72 é simbólico para lembrar que todos são chamados (não apenas os 12 apóstolos) a trabalhar para o Reino. A missão não é privilégio da cúpula, pois toda a Igreja é missionária. Para os antigos o número 72 representa todas as nações do mundo. Quer dizer, a salvação é para todos e todos devem se empenhar.
b) Quem são os discípulos e como devem agir
São pessoas de oração (rogai ao dono das plantações para mandar operários). Quem reza acredita na gratuidade do amor de Deus, quer dizer que quem cuida da colheita é Deus, a missão é um dom do seu amor. Eles lançam a semente da palavra em meio aos conflitos da sociedade (cordeiros no meio de lobos). Seus métodos se distinguem do método violento dos opressores – os lobos. Uma condição essencial do missionário é o desprendimento (não deve levar nada). A missão é caracterizada pela urgência (não devem parar), pelo anúncio da paz e da proximidade do Reino, transformando as estruturas, curando e reintegrando as pessoas. A paz significa plenitude dos bens messiânicos, condição favorável à vida de todos. Eles não devem agir visando lucro, mas devem se contentar com o necessário (vv. 7ss). Eles não devem fazer média com os poderosos que não querem acolher a mensagem, por isso, ao saírem, devem sacudir a poeira dos pés como gesto de ruptura. O julgamento fica para Deus (vv. 10-12).
c) O retorno dos 72 discípulos
Trata-se de um contínuo retorno às fontes da evangelização. Nossos trabalhos devem sempre ser avaliados à luz do evangelho. Nada de triunfalismo, nada de vaidade. A glória compete a Cristo, cujo anúncio do Reino espanta os demônios e é superior a todas as manifestações da morte (poder de pisar em serpentes e escorpiões). A alegria dos discípulos reside no fato de os nomes deles estarem escritos no céu.
15º DOMINGO DO TEMPO COMUM
11/07/2010
Iª LEITURA – Dt 30,10-14
Os homens têm belos projetos, mas são egoístas. Seus projetos acabam em privilégios para uns poucos e opressão para a maioria. O projeto de Deus, ao contrário, pretende trazer vida para todos. O coração de Deus só experimentará alegria, quando todos os homens viverem na solidariedade, justiça e paz. É isto que nos fala o Deuteronômio. Qual é a condição para isto? Conversão total a Deus e obediência aos mandamentos e estatutos escritos no livro do Deuteronômio (v. 10). Estes mandamentos e estatutos não são normas frias, mas a síntese de experiências vitais. Portanto, seguir a lei para o Deuteronômio é buscar a vida. Os vv. 11 a 14 querem mostrar a facilidade e a proximidade da Lei. É difícil subir aos céus, é difícil atravessar o mar, mas a Lei não está lá em cima no céu, nem do outro lado do mar. Ela está bem perto do homem, está dentro do próprio coração, ou seja, lá dentro da própria consciência. Coração para o semita é a sede da consciência. Quem quiser colocá-la em prática, portanto, não tem desculpas, pois obedecer à lei é obedecer ao que há de mais profundo no coração humano – seu anseio de justiça, sua busca de vida para todos: Sim, esta palavra “está na sua boca e no seu coração, para que você a coloque em prática”.
2ª LEITURA – Cl 1,15-20
Diante de tantos mediadores impostos pelos cultos pagãos e outros, como seres angélicos, tronos, soberanias, principados, autoridades e outras forças cósmicas, o autor apresenta o único mediador entre Deus e os homens: Jesus – o Filho amado. Estamos diante de um dos belíssimos hinos registrados nas cartas de Paulo ou atribuídas a ele. É uma exaltação à soberania de Cristo sobre tudo e sobre todos. Cristo é apresentado como a plenitude do humano e do divino.
Cristo origem e fim de todas as coisas - vv. 15-17
O Gênesis já dizia que o homem é imagem e semelhança de Deus. Aqui podemos perceber que esta imagem chega à perfeição em Jesus Cristo. Ele é a visibilidade do próprio Deus no meio dos homens. Ele é o primogênito, o Filho anterior a tudo. Nele tudo foi criado, tudo que existe no céu e na terra, inclusive estas criaturas que os cultos pagãos estavam querendo apresentar como mediações. O mais interessante ainda é que tudo foi criado por meio do Filho e para o Filho. Ele é assim a origem e a finalidade de todas as criaturas.
Cristo é a cabeça do Corpo que é a Igreja - vv. 18-20
Ele é o princípio da humanidade nova. O projeto de Deus falido em Adão alcança plena realização em Jesus Cristo, que, através da sua morte e ressurreição, funda uma humanidade nova. Ele tem a primazia em tudo, porque Deus, a plenitude total, quis nele habitar. Jesus é, portanto, a plenitude de Deus no meio dos homens; ele é o projeto acabado que Deus tinha para o homem. Por meio de Jesus através do seu sangue na cruz Deus se reconcilia com os homens estabelecendo a paz. A humanidade reconciliada, esta humanidade nova, recriada em Cristo, é a Igreja da qual Cristo é a cabeça.
EVANGELHO – Lc 10,25-37
a) A atitude do especialista em leis e a resposta de Jesus
Ele é mal intencionado. Sua pergunta é para tentar Jesus, além de ser uma pergunta egoísta. Sua ação visa seu próprio benefício: “Mestre, o que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” Como ele é um especialista em leis, Jesus pergunta o que diz a Lei. Ele responde direitinho, amar a Deus e ao próximo. Jesus aprova sua resposta e diz categoricamente: “Faça isso e viverá”. Para possuir a vida eterna não é preciso possuir muita teoria nem ser especialista em nada: a única especialidade que a lei exige e que Jesus insiste é a prática do amor. Como o especialista não quer saber da prática, ele teoriza mais uma vez com a pergunta: Quem é o meu próximo? Jesus responde indiretamente com uma parábola. E nesta parábola do Bom Samaritano ele transforma a pergunta egoísta e teórica do especialista numa pergunta altruísta e prática, onde o importante é o outro a quem eu devo amar e servir e não eu mesmo. Então a pergunta fica assim: Que tipo de atitude prática me torna próximo da pessoa que encontro?
b) Atitude do ladrão
Uma atitude desrespeitosa, desonesta, gananciosa e usurpadora. Os ladrões de ontem e de hoje, ladrões de cor, ou de colarinho branco, ladrões que compram ou que vendem comportam-se como o funil ganancioso e o seu lema é: “o que é teu é meu”.
c) Atitude dos encarregados do Templo (sacerdotes e levitas)
Eles também são especialistas não em leis, mas em religião, em ritos. Sua preocupação não é com o outro, a pessoa, a vida, mas com a religião, o Templo, os ritos, o culto, a pureza ritual. Eles concentram sua atenção em torno dos Templos e dos cultos sem vida e a parábola lhe mostra que Deus não está mais no Templo, mas na pessoa dos excluídos e dos marginalizados. Eles possuem valores aparentes e querem defendê-los mesmo em detrimento da vida. Seu lema é: “o que é meu é meu”.
d) Atitude do Samaritano
Ele não é especialista em nada. Não carrega perguntas teóricas como quem é o próximo; mas procura na prática estar mais próximo de quem precisa. A parábola insinua que o assaltado e moribundo era um judeu (judeu era inimigo de samaritano). Mas o samaritano está preocupado com a vida em perigo e não com rixas e picuinhas. Sua atitude é de compaixão, atitude divina que no evangelho de Lucas é reservada apenas ao Pai (cf. 15,20) e a Jesus (cf. 7,13). A parábola ocupa um grande espaço para enumerar as diversas atitudes práticas do samaritano. Ele é o homem da solidariedade e partilha. Seu lema é: “o que é meu é teu”. Jesus não quer sacrifícios, mas misericórdia.
16º DOMINGO DO TEMPO COMUM
18/07/2010
Iª LEITURA – Gn 18,1-10a
É importante acolher bem as pessoas
A primeira coisa que chama a atenção no texto é quem aparece a Abraão. É o próprio Deus (18,1), três homens (18,2) ou anjos (19,1)? Com quem Abraão está falando, com três pessoas (vv. 4.5.9), com uma só (vv. 3.10) ou com o próprio Deus (v. 13)? Observe o texto atentamente e veja como ele é ambíguo. Ora é uma pessoa, ou são três homens, ora são anjos, ora é o próprio Deus. O que o autor quer ensinar através desta ambiguidade textual? Ele quer ensinar que “quem acolhe pessoas está acolhendo a Deus que dá vida e que os anjos são mensageiros de Deus, ou expressão do próprio Deus. Abraão, símbolo da fé, sabia muito bem que acolher as pessoas é acolher o próprio Deus, aliás, faz parte da mística semita a boa hospitalidade. Veja a visita dos anjos a Ló em 19,1-8.
Vigilância e disponibilidade diante das imprevisíveis visitas de Deus (vv. 2-8)
Abraão significa pai (= ab) do útero (= raham), ou seja, pai de uma prosperidade numerosa, pai da fertilidade, entretanto esta promessa de Deus de uma grande prosperidade parece ter ficado no esquecimento, pois Abraão e Sara já ficaram velhos. Será que Abraão perdeu a esperança, desanimou, desistiu? O texto de hoje mostra que não. O texto sublinha a vigilância e a disponibilidade de Abraão. Ao invés de estar deitado, acomodado, cochilando à sombra, Abraão está sentado atento aos acontecimentos. Não é hora de visitas, mas Deus não marca hora, nem aparece vestido de glória. Abraão é profundamente cordial e acolhedor. Ele consegue logo perceber que aquela visita era de Deus. Chama os três de Senhor e se coloca como seu servo. Apesar do intenso calor do sol ele corre para um lado, corre para o outro, movimenta a esposa e o criado e oferece o que há de melhor para os ilustres visitantes.
A promessa de Deus está para acontecer (vv. 9-10)
Aqueles visitantes eram mesmo diferentes. Perguntam pela esposa o que não era costume entre os beduínos. Sabe o nome da esposa de Abraão, sem Abraão ter falado. E, além disso, conhece sua condição de estéril. Mas nada para Deus é impossível. Deus promete que dentro de um ano ele retornará e Sara já terá um filho. Quem acolhe o outro acolhe o próprio Deus, quem acolhe Deus, acolhe a vida.
2ª LEITURA – Cl 1,24-28
Vamos destacar três temas nos textos de hoje.
1) Precisamos edificar a Igreja que é Corpo de Cristo
Em 1,18 vimos uma afirmação forte: Ele (Jesus Cristo) é também a cabeça do corpo, que é a Igreja. Aqui em 1,24 volta o mesmo tema. A Igreja é o Corpo de Cristo. Assim é preciso que cada cristão (não apenas os agentes de pastoral) assuma um compromisso particular com a comunidade-Igreja. Cristo fez tudo por nós e por isso tem o direito de pedir tudo de nós para a edificação do seu Corpo. Nossa alegria é alegria para Cristo, nossa tristeza é tristeza para Cristo. Nossas virtudes e trabalhos edificam o Corpo de Cristo, nossos vícios, pecados e omissões, destroem o corpo de Cristo. Para o autor, que fala em nome de Paulo, ele se sente alegre por sofrer pela comunidade. Precisaríamos chegar a essa consciência.
2) O apóstolo se torna ministro da Igreja
Isso aconteceu quando Deus confiou a Paulo a missão de anunciar o mistério da presença de Cristo na comunidade. Em 1,23 ele fala expressamente que se tornou ministro do Evangelho. Paulo é ministro da Igreja, do Evangelho, de Cristo, da Palavra. Estamos percebendo que há uma identificação destas realidades. O que deve fazer o ministro da Palavra? À imitação de Paulo ele deve alegrar-se no sofrimento em favor da Igreja, anunciar o Cristo, aconselhar, ensinar, trabalhar pela perfeição do irmão, acreditar profundamente na força de Cristo que age nele, não desanimar diante das dificuldades, mas investir na edificação do Corpo de Cristo que é a Igreja.
3) Qual é o mistério antes escondido?
Este mistério cheio da riqueza gloriosa de Cristo é exatamente a novidade da salvação, que agora não é mais restrita aos judeus, mas dirigida a todos os pagãos; por isso ele representa muito para os pagãos. Este mistério da salvação que é Jesus Cristo já está presente no meio da comunidade, abrindo fronteiras, através do exemplo de cada cristão e do anúncio da Palavra. O núcleo do mistério é este: Cristo é salvação e vida para todos.
EVANGELHO – Lc 10,38-42
Rezar ou trabalhar – o que é mais importante
Jo11,1 nos ajuda a situar este episódio, em Betânia, na casa de Lázaro. Lázaro está ausente, talvez Lucas queira salientar a importância da mulher na vida ativa (trabalho de Marta) e litúrgica (Maria atenta à palavra de Jesus) da Igreja. No tempo de Jesus as mulheres eram marginalizadas até pela religião: não podiam estudar a Lei, nem participar oficialmente do culto.
O texto nos mostra que Marta acolhe Jesus, mas não tem tempo de acolher o dom que ele traz, seu projeto de vida. Ela parece com Abraão que acolheu o Deus da vida (Gn 18,1-10a), mas o seu ativismo, suas preocupações exageradas a impediram de acolher e aprofundar o projeto de vida que Jesus trazia com sua vida. Abraão parece ter antecipado Marta e Maria; soube ouvir, servir, contemplar e agir e por isso recebeu o dom da vida na pessoa de seu filho. Maria, certamente era a companheira de Marta nos afazeres domésticos, senão ela não perderia tempo de insistir com Jesus para liberar Maria. Curioso! Quem ficaria com o hóspede? Não seria um desrespeito deixá-lo sozinho? Maria não chamou Marta, pois quem faria o trabalho? Egoísmo de Marta? Preguiça de Maria? Jesus valoriza a escolha de Maria e achou exagerado o pedido de Marta. Isto significa que precisamos rezar mais e trabalhar menos? Viver de contemplação e não de serviço? Poderíamos viver sem o trabalho? Poderíamos viver só de reza? Não é o próprio Jesus que insiste tanto em dar o exemplo de servir? “Eu não vim para ser servido, mas para servir”. A parábola anterior ao nosso texto não frisa a prática da misericórdia? Veja 10,28: “faze isso e viverás”, v. 37: “vai e faze tu a mesma coisa”.
O ensinamento do texto
Creio que o contexto nos quer ensinar a importância da contemplação e da ação, do rezar e do trabalhar. Lucas distingue entre Marta e Maria o que deve estar unido e dosado em cada cristão, como esteve na atitude de Abraão. Devemos ouvir a Palavra e a colocar em prática. Não é isto que lemos logo à frente em Lc 11,28? “Felizes, sobretudo, são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”. As duas atitudes devem andar juntas em cada cristão. Aqueles que se dedicam demais ao trabalho pastoral ou não, estes devem parar no dia do Senhor (Domingo) para, sentados aos pés de Jesus louvar e agradecer, avaliar e se abastecer de novo. Aqueles que rezam muito não devem tardar em colocar em prática o projeto de Jesus. Jesus não parou para ser servido, ele veio até nós para entregar o dom da vida. De fato, ele está a caminho de Jerusalém, onde seu projeto de vida para todos ia realizar-se através da cruz. Marta e Maria estão vivas dentro de você?
17º DOMINGO DO TEMPO COMUM
25/07/2010
Iª LEITURA – Gn 18,20-32
Abraão, modelo de fé, acolhimento e disponibilidade, é apresentado aqui como modelo de oração que brota de um relacionamento íntimo com Deus, relacionamento aberto, confiante, e ao mesmo tempo franco, sincero como também profundamente humilde. Abraão reconhece a grandeza do ser de Deus, o tamanho do seu coração justo e misericordioso, como também, da sua parte, reconhece a pequenez do seu ser; ele tem consciência de que é pó e cinza (v. 27). O assunto desse impressionante diálogo é Sodoma e Gomorra. O v. 20 insinua que o pecado deles é a injustiça. Em 19,5 percebemos que a injustiça no campo social destrói e perverte o relacionamento entre as pessoas, conduzindo-as às aberrações de todos os tipos.
A primeira preocupação de Abraão e sua descoberta
Deus está disposto a destruir as cidades de Sodoma e Gomorra. Abraão intercede questionando a justiça de Deus. Deus vai destruir o justo juntamente com o injusto? A primeira descoberta é que Deus não vai destruir o justo com o injusto e mais ainda que Deus é capaz de salvar a cidade toda por causa de alguns justos.
A segunda preocupação de Abraão
Quantos justos são necessários para salvar a cidade inteira? E aqui percebemos a beleza do diálogo, onde se entrelaçam intimamente, ousadia, atrevimento, delicadeza e humildade. Ousadamente, mas com uma delicadeza e respeitos profundos, Abraão conseguiria obter de Deus a salvação da cidade através de apenas 10 justos. Abraão na sua oração de intercessão conseguiu do coração misericordioso de Deus abaixar o número de 50 para 10. Mas por que parou? Parou por quê?
A misericórdia de Deus é infinita
Abraão quis descobrir o tamanho da misericórdia de Deus. Ele caminhou certo, mas pôs limites à misericórdia do Onipotente. Ele descobriu segredos importantes no mistério do amor divino; de fato Deus não destrói o justo com o injusto, pelo contrário, ele valoriza a intercessão do justo. Depois, pelos profetas e pelo Segundo Testamento, ficamos sabendo que Deus não quer a morte do pecador, mas que ele viva (Ez 33,22). Abraão descobriu alguns segredos da misericórdia, mas ele não sabia que Deus andava procurando por um único justo para justificar a salvação da cidade dos homens. Isto os profetas vão intuir (cf. Jr 5,1; Ez 22,30). Mas só um homem vai conseguir reunir a justiça e agradar o coração misericordioso de Deus. E este homem é seu Filho Jesus Cristo (Jo 3,16-17). Através desse único justo Deus salva a humanidade inteira.
2ª LEITURA – Cl 2,12-14
Lembramos mais uma vez o pano de fundo da carta. Do lado de fora, muita influência de vãs filosofias pagãs, atribuindo a forças intermediárias o mesmo valor de Jesus Cristo, como se Jesus fosse um entre tantos mediadores entre Deus e os homens. Do lado de dentro, a imposição da Lei por parte dos cristãos judaizantes como se a Lei tivesse poder salvífico. No fundo, os colossenses estavam começando a confundir tudo, estavam querendo como os pagãos acalmar a divindade através de rituais e submissões a detalhes de leis e prescrições. A porta para a submissão aos detalhes da Lei era a circuncisão. Por outro lado, a porta de entrada para a religião da liberdade é o batismo. A religião é fundamentada não na Lei, mas na graça, no amor de Cristo. O batismo cristão é morte para o pecado e ressurreição para uma vida nova. Nós estamos mortos pelo pecado, mas Deus nos concedeu a vida juntamente com Cristo.
O que Cristo fez por nós?
O texto de hoje quer mostrar exatamente isso. Jesus fez o que a Lei não tinha capacidade de fazer. A Lei apenas apontava transgressões. Jesus, ao contrário, perdoou as nossas faltas. Contra nós havia um título de dívida. Jesus anulou esta dívida, ele pregou este título na cruz, fazendo-o desaparecer. Tudo que devíamos a Deus foi pago por Jesus Cristo, e a Lei que nos fazia endividar perdeu o sentido. Vivemos agora não uma religião de méritos, mas a gratuidade do amor de Deus em Cristo. Entramos nessa novidade de vida através do batismo.
EVANGELHO – Lc 11,1-13
Estamos, sem dúvida, diante de uma catequese sobre a oração. Lucas quer ensinar a oração ao povo convertido do paganismo, que não estava habituado a rezar ao Pai misericordioso. Ele usa os ensinamentos de Jesus de um modo adequado à sua comunidade, por isso sua catequese sobre a oração é diferente da de Mateus. Jesus não pretende nos ensinar uma oração, mas, sobretudo, um novo modo de rezar. Os mestres daquele tempo (como João Batista) ensinavam seus discípulos uma oração como síntese dos seus ensinamentos. Jesus vai na mesma linha e mostra como síntese da vida cristã um relacionamento novo com o Pai e com os irmãos. Primeiro, Jesus mostra o relacionamento com o Pai: “Pai santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino.” O nome expressa a identidade da pessoa. Deus é para nós um Deus de amor, um Deus que é Pai, mais ainda, um Deus que é papai, paizinho, Pai querido. Jesus nos mostra um Deus íntimo de nós. Ele é santo e quer ser o Pai de uma família unida, fraterna e solidária. É neste Reino que Deus quer reinar. Em seguida, Jesus mostra como deve ser o relacionamento entre seus filhos. “Dá-nos a cada dia o pão cotidiano”. Este pão cotidiano é aquele dom de Deus, que preenche a vida do homem em todos os sentidos. A cada dia, quer salientar que os bens da criação pertencem a todos. Devemos ter confiança que este pão não vai faltar na mesa de ninguém, se soubermos partilhar a vida abundante que Deus deu para todos. O perdão que Deus nos dá está condicionado, de um modo muito claro, ao perdão que damos aos outros. O último pedido: “Não nos introduzas em tentação”. É muito mais sério do que parece. No fundo significa: não nos deixeis perder a fé. Essa é a grande e perigosa tentação para a comunidade cristã que vive num mundo pagão e estruturalmente injusto, mais voltado para os ídolos e caricaturas de Deus do que para o verdadeiro Deus.
Os vv. 5-13 querem fundamentar a confiança na oração. A confiança deve ser total. A gente deve rezar com a certeza de ser atendido e insistir sem achar que está amolando. Nem um amigo entre nós nega o que pedimos. Ainda temos uma novidade, o Pai do céu nos dá muito mais do que pedimos, ele nos dá o dom total, o Espírito Santo.
Dom Emanuel Messias de Oliveira
Diocese de Guanhães
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