2010-06-08 CNBB - REGIONAL LESTE II

Institucional

   

Comentário Homilético - Junho de 2010 - 08/06/2010


Dom Emanuel Messias de Oliveira - Bispo Diocesano de Guanhães


10º DOMINGO DO TEMPO COMUM
06/06/2010





Iª LEITURA – 1 Rs 17,17-24.


O grande profeta Elias se encontra em Sarepta na casa de uma pagã. Foi lá que Elias fez o milagre para a viúva, não deixando faltar farinha na vasilha, nem azeite na jarra. Mas, depois de um certo tempo, o filho dessa mulher adoeceu e morreu. O gênero literário deste trecho é chamado de “legenda profética”: as narrações se apóiam em fatos simples realizados por pessoas santas. Com o tempo esses fatos são engrandecidos pelo povo. Estas histórias têm um objetivo específico: querem mostrar a proximidade, o cuidado e a preocupação de Deus com seu povo. De fato, a personagem principal da narração é o próprio Deus, pois é ele que é invocado, é ele que realiza o milagre da restituição da vida ao garoto. O núcleo da narração carrega a mensagem de que Deus é o Deus da vida e não o Deus da morte como num primeiro momento a viúva estava pensando. Ela chama o profeta Elias duas vezes de “homem de Deus”. Mas na primeira vez ela atribui a morte do filho à presença do santo profeta, que lembrava as suas culpas, as quais provocaram a morte do filho. (vv. 17-18). É bom lembrar que o complexo de culpa é algo perigoso e destruidor! Mas, na segunda vez, ela reconhece que o profeta é aquele que anuncia a Palavra de Deus e é portador da vida (v. 24). O profeta usa um certo ritual para que Deus restitua a vida ao filho da viúva. Entretanto, a narrativa deixa bem claro que é Deus quem “ressuscita” o menino. O Deus de Israel é o Deus da vida e não da morte; ele mostra sua misericórdia para com os desvalidos e sua palavra anunciada pelo profeta é palavra de vida.
O problema da morte continua sendo um enigma para o homem. Realmente é um mistério. Mas o que o povo tem que tirar da cabeça é o complexo de culpa e a concepção de que coisas ruins que acontecem são castigo de Deus. Enquanto não trocarmos em nossa mente o Deus que fabricamos pelo Deus que Jesus Cristo revelou, vamos andar pessimistas, cheios de complexos, medo da doença e da morte e medo até mesmo do próprio Deus, que só quer nosso bem e a nossa felicidade, que, não quer a morte do pecador, mas que ele viva.




2ª LEITURA – Gl 1,11-19


A carta aos Gálatas, diferentemente das outras, é uma defesa de Paulo da autenticidade do seu evangelho e do seu ministério apostólico. Já em Gl 1,8 ele fala bravo: “Pois bem, mesmo que nós ou um anjo vindo do céu vos pregasse um evangelho diferente daquele que vos pregamos, seja excluído!”. No v. 9 ele repete a mesma frase. Ele quer também com esta carta reconduzir os gálatas ao evangelho pregado por ele, já que falsos evangelizadores estavam perturbando a fé da comunidade ou comunidades. Veja o que ele escreve no v. 6: “admiro-me de que tão depressa, abandonando aquele que vos chamou na graça de Cristo, tenhais passado a outro evangelho”.
No trecho de hoje, ele vai dizer que seu evangelho não é invenção humana. Ele o recebeu diretamente de Jesus Cristo e, portanto, não é diferente do evangelho pregado pelos apóstolos. Paulo recebe o seu evangelho por revelação divina e a essência de sua pregação é que a salvação nos é dada pela fé em Jesus Cristo e não pelo cumprimento das antigas prescrições da lei. Ele mostra como sinal de autenticidade do seu evangelho a reviravolta que Jesus fez na vida dele. Antes como fiel e zeloso fariseu, enquanto acreditava na salvação vinda da lei e não da graça, ele perseguia cruelmente os cristãos. Agora, apaixonado por Jesus Cristo, ele se entregou totalmente à evangelização e descobriu que Deus o escolheu para isso antes mesmo do seu nascimento. A certeza de sua vocação foi tamanha que ele não sentiu necessidade de ir a Jerusalém consultar os apóstolos. Ele só apareceu por lá três anos depois, quando ficou com Pedro quinze dias. E lá em Jerusalém o único apóstolo que ele viu foi Tiago, o irmão de Senhor. Paulo demonstra com esta carta sua absoluta consciência apostólica. Ele é apóstolo do mesmo jeito que os outros o são e seu evangelho é o mesmo pregado pelos doze apóstolos. Ninguém pode arrancar-lhe essa glória.



EVANGELHO – Lc 7,11-17


Estamos diante do milagre da ressurreição do jovem (v. 14) filho da viúva de Naim. Assim todos pensamos. Mas seria interessante jogar areia nesta convicção. O que quero dizer? Que não houve o milagre? Não. Quero dizer que o milagre é uma coisa e a narração do milagre é outra coisa. E as narrativas dos milagres obedecem a certos critérios literários até no mundo pagão. Nós não temos acesso a nenhum milagre de Jesus a não ser o da sua ressurreição que é o fundamento e o significado último de todos os milagres. O que temos são narrações escritas muito tempo depois do fato. São Lucas, por exemplo, escreve cerca de 50 anos depois dos acontecimentos. É verdade que antes da escrita dos evangelhos já havia narrações dos milagres de Jesus, narrações ainda não canônicas.
Observando de perto, percebemos a afinidade da narração deste milagre de Jesus com a narração do milagre que lemos na primeira leitura. É o filho de uma viúva que é necessitado. O filho da viúva de Sarepta era provavelmente uma criança, enquanto o filho da viúva de Naim era um jovem. Mas ambos filhos únicos. A viúva já sofria muito pela morte do marido e era marginalizada. O filho poderia ser a esperança de vida para a viúva. Enquanto Elias era chamado de homem de Deus, Jesus era chamado de profeta. Percebemos também umas diferenças muito claras. Elias faz todo um ritual para ressuscitar o garoto, enquanto Jesus, que é o Senhor da vida, dá apenas uma ordem, diz apenas uma palavra. Elias é um homem que está a serviço da palavra. Jesus é a própria Palavra viva. Fica clara a superioridade de Jesus sobre Elias.
No conjunto podemos perceber dois cortejos até à porta da cidade. O primeiro aparece no v. 11; Jesus está chegando para participar da vida da cidade. É uma caminhada bonita, alegre, festiva, com muita gente: além dos discípulos, numerosa multidão.
O outro cortejo está saindo da cidade, deixando a vida (v.12). Este é triste, fúnebre, doloroso. A viúva, que já tinha perdido seu marido, perde agora o seu filho jovem, que poderia ajudá-la na sua sobrevivência.
No primeiro cortejo Jesus vai à frente, ele é o Senhor da vida. No segundo o sustentáculo da vida da mãe, é carregado imóvel, morto, num caixão. Qual seria o futuro daquela mãe, sem o marido e sem o filho único?
Não seria possível perceber que o cortejo que entra representa a comunidade cristã, feliz, porque está acompanhada pelo Senhor da vida? No cortejo que sai vemos a humanidade, perdida, imobilizada, sem vida, porque ainda não encontrou o Cristo.
Mas o segundo cortejo encontra-se com o primeiro. A morte encontra-se com a vida. Jesus, rompendo os preconceitos judaicos, que massacravam as pessoas, toca no caixão e movido de compaixão pronuncia uma palavra de vida: “Jovem, eu te digo, levante-te”. A palavra de Jesus é transformadora, é palavra de vida. Tudo mudou. O choro foi substituído pela alegria, a morte deu lugar à vida. A multidão percebeu claramente a presença de Deus no meio do seu povo.

 



11º DOMINGO DO TEMPO COMUM
13/06/2010

 



Iª LEITURA – 2Sm 12, 7-10.13


A parábola e sua aplicação


Este trecho é o desfecho da parábola que Deus manda o profeta Natã falar a Davi. Havia um homem rico e um pobre. O rico tinha bois e ovelhas, mas roubou a única ovelhinha do pobre para servir a um visitante. Davi condena à morte o rico que fez esta barbaridade. No v. 7 o profeta conclui: “Esse homem és tu!”. Os vv. 7-9 apresentam os inúmeros favores de Deus a Davi, que procurou sempre corresponder com honestidade, retidão e justiça em relação ao povo. Deus lhe deu o reino de Israel e Judá, bens, mulheres e poderes. Entretanto Davi começa agora a usar o poder em próprio proveito desrespeitando Javé que o reprova (v. 9).


O erro de Davi


O abuso que Davi fez do poder é aqui centralizado no seu adultério e no crime. O texto é narrado no cap. 11. Trata-se do adultério de Davi com Betsabéia, mulher de Urias e da trama que Davi fez para que Urias morresse na guerra para ele poder ficar assim com sua mulher – a ovelhinha da parábola. Davi viola dois mandamentos de Deus: cobiça a mulher do próximo e comete assassinato (vv. 9-10)


Arrependimento e perdão


O v. 13 é o resultado final da Palavra de Deus iluminando os fatos da vida. À luz da Palavra o rei toma consciência do seu pecado. Nesse momento em que arrependido o homem conhece sua nudez, sua pequenez, seu pecado, Deus mostra a grandeza do seu perdão e o envolve com sua graça. É claro, o pecado tem consequências gravíssimas que muitas vezes recaem sobre o pecador. No v. 5 Davi, sem saber, sentencia sua própria morte por causa do seu grande pecado. Mas Deus perdoou Davi.
Você conhece casos de abuso de poder em benefício próprio, adultério e também conversão profunda a partir do perdão de Deus?

 



2ª LEITURA – Gl 2,16.19-21


A salvação vem pela fé


O v. 16 salienta todo o evangelho de Paulo. Paulo tomou uma consciência muito profunda da distinção entre Lei de Moisés e graça de Cristo. A Lei é a lei do mérito: se a observo, me salvo, se não a observo, me condeno. Assim pensavam os judeus, assim pensava Paulo antes de conhecer Jesus Cristo. Depois ele percebeu com clareza que o único caminho da salvação é a fé em Jesus Cristo crucificado pelo nosso pecado e para nossa salvação. O v. 16 afirma: A Lei não tem força de salvar ninguém: “porque pela prática da Lei ninguém será justificado” e o v. 21 acaba de esclarecer: “se a justiça vem pela Lei, então Cristo morreu por nada”. Isto significa que acreditar na salvação através dos próprios méritos do fiel cumpridor da Lei é elevar Moisés e eliminar Jesus; é retornar ao farisaísmo condenado por Jesus. É preciso que fique claro que o autor da nossa salvação é Cristo morto e ressuscitado. Nossas obras são apenas abertura do nosso coração para acolher a salvação viva já realizada na cruz de Cristo. Para isto é preciso fé, muita fé, uma fé viva, uma fé com obras, pois uma fé sem obras é morta. Fé não é apenas acreditar, mas comprometer-se com aquele que nos amou e se entregou por nós – Jesus Cristo. Com isso não queremos levar ninguém a ser um “fora da lei”. A lei é importante para a convivência humana. Mas não justifica nem salva ninguém!


Paulo totalmente transformado


Os vv. 19-21 mostram as obras da graça de Jesus Cristo na vida de Paulo. Jesus condenado pela Lei, aniquila na cruz a pretensão salvífica da Lei. O Paulo da Lei morreu com Cristo na cruz, morreu para a Lei, a fim de viver agora para Deus, não confiando mais em seus méritos, mas unicamente na graça de Cristo que o transformou interiormente de tal modo que Paulo sente que é o Cristo que vive nele, quer dizer, ele está profundamente comprometido com Jesus Cristo. Paulo não deixou de ser um homem frágil, mas na sua fraqueza ele experimentou a força de Cristo. Ele assumiu totalmente a luta de Cristo para a salvação de todos, assumiu também suas dores e até mesmo sua morte e pretende também assumir a ressurreição. Isto é o que ele chama de fé que salva. Você realmente tem fé?

 



EVANGELHO – Lc 7,36-8,3


Estamos num ambiente de refeição, sinal de comunhão de vida. O tema geral é a conversão e o perdão. Quer ilustrar a misericórdia de Jesus para com os pecadores (a prostituta), que arrependidos trazem sua fé em gestos de amor.
No tempo em que São Lucas escreve, ainda é forte a discriminação das mulheres. O evangelista apresenta o coração misericordioso de Jesus que não faz acepção de pessoas. Além disso, a acolhida que Jesus dá à pecadora é uma crítica refinada do evangelista na década de 80, do século I, contra a exclusão das mulheres. Aliás, os versículos finais 8,1-3 apresentam uma síntese da atividade de Jesus e a predileção de Lucas pelas mulheres que faziam parte da comitiva de Jesus. O texto mostra também a inutilidade de uma religião baseada nos méritos da Lei e no sistema de pureza ritual (Simão). Podemos destacar aqui três atitudes:


a) A atitude da mulher


Aparece uma mulher conhecida como prostituta e traz um frasco de alabastro com perfume. Com toda a humildade ela se coloca por trás de Jesus. E chorava. E com suas lágrimas de arrependimento e gratidão banhava os pés de Jesus e os enxugava com seus cabelos, cobria-os de beijos e os ungia com perfume. Os gestos da mulher eram símbolo da sua gratidão pelos muitos pecados que lhe tinham sido perdoados.


b) A atitude de Simão


Simão era fariseu e o evangelista faz questão de sublinhar isto, pois nos vv. 36-39 aparece a palavra “fariseu” quatro vezes. Isto reflete, provavelmente, a polêmica entre cristãos e fariseus no tempo de Lucas. Basta ver que Jesus respeitosamente chama o fariseu pelo seu nome: “Simão”. O fariseu Simão não difere de seus colegas. É arrogante, prepotente, preconceituoso contra Jesus e a mulher, desconfia maldosamente da atitude de Jesus e da mulher, não tem misericórdia para com a pecadora, pelo contrário a denuncia. Ele falha tremendamente na falta de acolhida como anfitrião. Tudo o que ele deixou de fazer a Jesus como obrigação, a mulher fez com o máximo de espontaneidade feminina e expressão de gratidão pela atitude salvífica de Jesus. Simão certamente partilhava da convicção de seus convidados que Jesus não tinha poder de perdoar pecados. Sua segurança está em seu sistema religioso ancorado na Lei. Para ele o fiel cumprimento da lei é que salva e, por isso, despreza a gratuidade da salvação que Jesus oferece aos pecadores. (cf vv. 47-50)


c) A atitude de Jesus


Jesus não tem preconceitos nem contra a mulher, nem contra os pecadores, nem mesmo contra o fariseu Simão, pois aceita o convite dele de jantar em sua casa. Jesus conta a parábola para Simão, a parábola dos dois devedores que não podiam pagar: um devia 500 moedas de prata, o outro apenas 50. O credor (o Pai do céu) perdoa a ambos. Aí Jesus pergunta: “Qual deles amará mais?” Simão responde certo: “Aquele ao qual perdoou mais”. Neste momento Jesus compara a mulher com Simão, mostrando a ausência de amor no coração de Simão que julgava que não tinha pecado, nem acreditava no perdão de Jesus. E por outro lado enaltece a delicadeza, carinho, a ótima acolhida da mulher que se reconhece pecadora, mas cujo coração está repleto de amor, de arrependimento e gratidão. O v. 37 deixa claro que a mulher já conhecia Jesus e já se tinha deixado transformar por ele, encantada, pela sua misericórdia. O desfecho da atitude de Jesus é linda. É o perdão, a paz e o reconhecimento da fé, concretizada no amor, que é o instrumento de salvação, não a Lei mosaica como pensava Simão. “Teus pecados estão perdoados” (...) “Tua fé te salvou. Vai em paz” (vv. 48-50).



12º DOMINGO DO TEMPO COMUM
20/06/2010

 



Iª LEITURA – Zc 12, 10-11;13,1


O livro do profeta Zacarias pode ser dividido em duas partes. A primeira dos capítulos 1-8, escritos por volta do ano 520 a.C., quando a comunidade recém-chegada do Exílio tenta reconstruir suas bases de fé e vida social. O profeta reanima a esperança do povo insistindo que Deus está presente na vida deles para realizar seu projeto.
A segunda parte do livro, chamada “Segundo Zacarias” ocupa os capítulos 9-14. Foi escrita numa linguagem apocalíptica uns 200 anos depois da primeira. É do tempo da dominação grega, depois de Alexandre Magno. Mostra o futuro do povo, apontando para o caminho de unidade e salvação. Como? Através da realeza de Javé e da destruição de todo tipo de idolatria. Isto vai acontecer através de uma profunda purificação. O texto de hoje aponta o roteiro para a purificação da idolatria.

a) O reconhecimento de que só Deus é absoluto (v.10a)
Derramando sobre o povo um “espírito de graça e súplica” Javé conseguirá do povo o reconhecimento de sua soberania (olharão para mim), através do arrependimento e conversão.

b) O reconhecimento do pecado de idolatria (v.10b)
Quem é o “transpassado” sobre o qual se chora como se fosse o filho único? Seria o próprio Deus que se sente transpassado na pessoa de seu primogênito? Poderia ser uma referência a um Messias sofredor, talvez ao rei Josias (apresentado aqui como símbolo do povo exilado), morto na batalha de Meguido em 622 a.C. Jo 19,37 aplica esta passagem a Jesus transpassado na cruz. Para outros estudiosos se trata do povo de Israel, que, lamentando sua idolatria que o destruía, se volta arrependido para Javé. O v. 11 faz referência a um rito de lamentação lembrando o que aconteceu por ocasião da morte do rei Josias (cf. 2 Rs 23,28ss).

c) A luta permanente (13,1)
A purificação não se faz com um só gesto, mas através de um processo contínuo. Por isso o texto fala simbolicamente que em Jerusalém haverá uma fonte para lavar o pecado e a impureza do povo.

 


2ªLEITURA – Gl 3,26-29



A salvação vem pela fé – fruto da promessa


Paulo vem mostrando que a salvação se dá pela fé e não pela Lei. A salvação é fruto de uma promessa de Deus a Abraão, por ocasião da Aliança. A Lei veio bem mais tarde com Moisés, de modo provisório, veio como pedagogo que nos conduziu a Cristo. O papel do pedagogo era, através de uma educação rigorosa, levar a criança à maturidade. Essa maturidade chegou com Jesus Cristo. Portanto a Lei já cumpriu seu papel com a chegada de Cristo. Ela não tem mais sentido. A promessa feita a Abraão se realizou em Jesus Cristo.


Temos uma nova identidade


Pela fé em Jesus Cristo e pelo batismo nos tornamos filhos de Deus (v. 26) e nos revestimos de Cristo (v. 27). A imagem da veste mostra nossa nova identidade: agora somos cristãos, isto é, identificados a Cristo – um só com ele (v. 28). Somos, portanto, uma família de irmãos, onde qualquer distinção e diferença perdeu sentido. Esta é a grande consequência da nossa nova identidade – a identidade cristã.


As discriminações do mundo antigo


Os judeus discriminavam os não-judeus. Os pagãos eram chamados de cães pelos judeus por causa da impureza. Entre os gálatas os pagãos convertidos estavam sendo considerados cristãos de segunda classe.
Os gregos distinguiam as classes sociais; as mulheres estavam num plano inferior e os escravos eram vistos como mercadorias.
Os romanos também consideravam os escravos como bens do patrão. Poderiam ser vendidos ou comprados.


Agora tudo mudou


Agora podemos perceber a força revolucionária do v. 28: não há mais diferença de raça, de classe ou sexo. Somos um só em Jesus Cristo. E, portanto, descendentes de Abraão e herdeiros conforme a promessa (v. 29). Antes eram só os judeus que se consideravam filhos de Abraão e herdeiros da promessa. O resto era considerado escravo sem herança. Agora tudo mudou. Somos filhos e herdeiros através do batismo que nos identifica com Cristo.


EVANGELHO – Lc 9,18-24



A Identidade e missão de Jesus

Jesus está no fim de sua atividade na Galiléia. Daqui a pouco iniciará sua caminhada para Jerusalém, onde realizará sua missão dando a vida por todos nós. Os momentos decisivos da vida de Jesus são sempre precedidos da profunda oração (v. 18). Jesus primeiro quer saber a opinião do povo sobre ele. São várias: João Batista, Elias, um profeta ressuscitado. Jesus está bem conceituado entre o povo. Mas isto não basta. Dos discípulos Jesus quer mais que uma opinião; quer uma opção definida e comprometida. Em nome dos discípulos Pedro define. Tu és o Messias de Deus. Jesus aceita esta definição, mas para levar os discípulos a uma opção de vida, ele vai primeiro proibir que eles divulguem essa verdade que para os discípulos ainda está carregada de messianismo político e triunfalista, ligado a uma vitória definitiva de Israel sobre os adversários dominadores. Em seguida Jesus esclarece sua identidade e missão. É o primeiro anúncio da paixão (v. 22): Jesus deve sofrer, ser rejeitado, ser morto e só depois deve ressuscitar glorioso. Jesus se identifica não com um Messias triunfalista, mas com o servo sofredor que se oporá aos donos do dinheiro (anciãos), aos donos do poder (os chefes dos sacerdotes) e os donos da verdade (os doutores da Lei ou escribas). Seu ensinamento e sua prática são contrários aos que dominam, discriminam, exploram e excluem. Por isso será perseguido e assassinado, mas Deus o ressuscitará.


A identidade e missão dos seguidores de Jesus


É diferente? Não. Os discípulos se identificam com o Mestre no ser e na missão. Jesus apresenta 3 condições para seus seguidores: Primeira: renunciar a si mesmo, ou seja, não ambicionar ser dono do dinheiro, do poder e da verdade. Segunda: tomar a sua cruz cada dia. Isto significa assumir a sua identidade e missão cristã à semelhança do mestre, sem medo da perseguição e da morte. A cruz simboliza dificuldades, desafios e sofrimentos de cada dia. Terceira: seguir a Jesus. Aqui temos a síntese da identidade e do compromisso cristão. A expressão seguir Jesus é sinônimo de ser discípulo. Implica em “caminhar para Jerusalém” enfrentando riscos, hostilidades, perseguições e morte. O v. 24 ganha sentido com a expressão “por causa de mim”. Morrer com Jesus significa também ressuscitar com ele.

 



13º DOMINGO DO TEMPO COMUM
27/06/2010

 


Iª LEITURA – 1Rs 19,16b.19-21


A vocação do profeta Eliseu acontece depois da experiência de Deus que Elias teve no monte Horeb (1Rs 19,8-18). Javé passou diante dele como uma brisa suave e lhe pede para voltar com uma missão política e profética. A política era ungir o rei da Síria e o rei de Damasco e a profética era ungir o seu sucessor o profeta Eliseu, para continuar a defender a fé em Javé como o fez Elias.
O texto de hoje não fala propriamente da unção com óleo, mas narra um gesto substitutivo que era a imposição do manto. Eliseu estava no trabalho, trabalhando com doze juntas de bois. Ele mesmo dirigia a última junta. “Ao passar perto de Eliseu, Elias lançou sobre ele o seu manto”. Não disse nada, mas Eliseu compreendeu que estava recebendo uma missão profética, a própria missão de Elias. A partir desse momento ele estava a serviço de Elias. No Oriente, o manto simbolizava a personalidade e os direitos do seu dono. O manto de Elias tinha poder sobrenatural e Eliseu vai conseguir realizar prodígios como Elias (cf. 2RS 2,8-14).
Qual foi a atitude de Eliseu depois que recebeu o manto de Elias? Eliseu pede licença a Elias para despedir-se da sua família. Elias deixa. Jesus no Evangelho de hoje é mais radical e não permite a seus seguidores que façam essa despedida (cf. Lc 9,61-62).
Eliseu faz com seus familiares uma grande festa de despedida, oferecendo em sacrifício a junta de bois com que trabalhava e aproveitando a madeira do arado para cozinhar a carne. A atitude de Eliseu parece uma simples festa de despedida, mas na realidade é uma atitude radical de ruptura com o seu passado, abandonando tudo para o seguimento do seu mestre, como vão fazer séculos depois os apóstolos de Jesus. Com Elias, Eliseu aprendeu a ser profeta. O primeiro livro dos Reis não fala mais de Eliseu. Seu nome aparece de novo em 2Rs 2, quando ele vai suceder o seu mestre em Gálgala.



2ª LEITURA – Gl 5, 1.13-18


Este texto nos apresenta duas contraposições. A primeira é entre a liberdade em Cristo e a escravidão da Lei (5, 1ss), retomada explicitamente no v. 13. A segunda é entre a carne e o espírito (vv. 16-26).


1ª contraposição: Liberdade x escravidão


Aqui no v. 1, ele conclui todo o capítulo 4º com as palavras: “É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão”. Afinal toda a mensagem doutrinal da carta está aqui sintetizada. Cristo nos libertou para a liberdade. Qual liberdade? É uma liberdade que se opõe ao jugo anterior da escravidão. Pelos versos seguintes percebe-se que se trata da escravidão da Lei com suas práticas. Aqui Paulo salienta mais a circuncisão. Em outras passagens, como em 4,9-10, ele menciona outras práticas como dias, meses, estações, anos. Esta liberdade da escravidão da Lei Cristo nos trouxe através da sua entrega total por nós na cruz (cf. 3,13; 4,1.5). No v. 13, Paulo relembra a vocação dos gálatas à liberdade. Mas não se pode confundir liberdade com libertinagem que são “os pretextos para a carne” (cf. 1Cor 6,12ss). É uma advertência muito a propósito para os gálatas, aliás, para o homem de hoje também, que muito facilmente faz uma separação entre a prática da religião, e o comportamento moral. Paulo fala da liberdade que se deixa conduzir pelo Espírito. É uma liberdade para o serviço mútuo fundamentado no amor. O amor é a expressão dessa liberdade, pois o amor ao próximo resume toda a Lei. O irônico v. 15 deve referir-se a algumas contendas específicas entre os gálatas, talvez provocadas pelos judaizantes. O certo é que é uma infração no mandamento do amor. Realmente, quem, achando-se na liberdade, serve às aspirações da carne, recai sob a escravidão da Lei e age contra a caridade, mordendo-se e devorando-se uns aos outros.


2ª contraposição: Espírito x carne


Os vv. 16-18 trazem a 2ª contraposição, isto é, entre o Espírito e a carne. O Espírito deve ser o princípio de vida para o cristão. O “Espírito” está ligado a Cristo e à liberdade. A “carne” está ligada à Lei e à escravidão. Se o cristão se deixar guiar pelo Espírito, ele não estará debaixo da Lei e, por conseguinte, não satisfará os desejos da carne, pois há uma oposição entre a carne e o Espírito e as aspirações deste são contrárias às aspirações daquela. Esta contraposição entre carne e Espírito continua nos versículos seguintes, onde Paulo vai catalogar as obras da carne e os frutos do Espírito. A carne aqui é símbolo do homem, que se opõe a Deus; representa os instintos que levam o homem ao pecado. O Espírito é “a parte racional iluminada e fortificada pelo Espírito Santo e que consegue enfrentar os desejos da carne”. Podemos concluir dizendo que guiados pela Lei interior do Espírito não sofreremos o jugo exterior da Lei, pois a vida no Espírito é capaz de nos fazer superar os desejos da carne.


EVANGELHO – Lc 9,51-62


Estamos com este trecho no início de uma longa caminhada de Jesus para Jerusalém, uma caminhada sem retorno. É uma seção própria do evangelista São Lucas. São dez capítulos, pois vai de 9,51 até 19,27. Aqui São Lucas constrói o seu pensamento sobre Jesus e o significado dele para a vida cristã. É uma viagem na qual as pessoas são chamadas a fazer sua opção a favor da vida seguindo Jesus, ou contra a vida rejeitando Jesus. De vez em quando o evangelista vai lembrando que Jesus está a caminho de Jerusalém (cf. 13,22; 17,11; 18,31; 19,11). Isto quer ressaltar o valor teológico que Lucas quer dar a esta viagem. Tanto que a tradução literal do início do v. 51 é: “Quando se completaram os dias de sua assunção...” Esta palavra assunção é sinônima de elevação, “arrebatamento”. Lembra o arrebatamento do profeta Elias aos céus. Por isso a decisão de Jesus de subir para Jerusalém é cheia de gravidade, é uma “decisão firme”.
Nosso texto pode ser dividido em duas partes.


Primeira parte 9,51-56 – A negação da hospedagem por parte dos samaritanos e a reação dos discípulos.


Jesus quer passar a noite num povoado de Samaritanos, mas eles não aceitam, pois Jesus dava a impressão de se dirigir para Jerusalém. Só este fato já é motivo para os Samaritanos tomarem posição contra Jesus. Samaritanos não se davam com judeus que os consideravam como semi-pagãos e estrangeiros. Eles não freqüentavam o Templo de Jerusalém, mas adoravam a Deus e ofereciam-lhe sacrifícios no monte Garizim, uma contraposição ao Monte Sião, onde se situava Jerusalém. Os discípulos Tiago e João reagem com uma intolerância religiosa muito grande, querendo vingar dos samaritanos e destruí-los, com fogo caído do céu a exemplo do que fez Elias com os enviados do rei Ocozias (cf. 2Rs 1,10-14). Mas Jesus ao invés de se irritar com os samaritanos repreende os dois discípulos. Sua atitude é de misericórdia, compreensão e respeito pelos diferentes.


Segunda parte 9,57-62 – Exigências de um autêntico seguimento.


O evangelista apresenta três casos de seguimento. O primeiro mostra uma grande boa vontade de seguir Jesus, mas Jesus lhe mostra as duras exigências do seguimento, a radicalidade do despojamento e da entrega total.
O segundo é vocacionado, chamado por Jesus, mas ele pede para enterrar seu pai primeiro, pois o pai dele tinha acabado de morrer. Jesus responde: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos”. É uma questão de prioridade. A prioridade de Jesus é o Reino da Vida, o Reino de Deus. A resposta de Jesus parece dura demais, pois sepultar o pai é um dever sagrado, mas aqui não é preciso interpretar a frase de Jesus ao pé da letra, pois Jesus faz um jogo de palavras: que os espiritualmente mortos enterrem os fisicamente mortos. Jesus quer mostrar também que o seu seguimento exige ruptura radical com o passado, até com os laços familiares.
O terceiro toma a iniciativa, mas também põe a condição de despedir-se primeiro dos seus familiares. Jesus responde: “Quem põe a mão no arado e olha pra trás, não está apto para o Reino de Deus”. Jesus relembra aqui a vocação de Eliseu (1ª leitura). Mas Jesus é mais exigente para os seus seguidores e a proposta do Reino. A urgência do Reino supõe despojamento total e decisão firme e pronta, livre de todas as preocupações.



 


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