2010-04-30
5 ºDOMINGO DA PÁSCOA
02/05/2010
Iª LEITURA – At 14,21b-27
Este trecho marca o final da Primeira Viagem Missionária de Paulo e Barnabé. Na ida eles foram evangelizando e fundando comunidades. Agora, na volta, eles vêm confirmando a fé dos discípulos, fazendo recomendações, exortações e organizando comunidades. As palavras de exortação a permanecerem na fé assustam um pouco: “É necessário passar por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus” (v. 22). Jesus fala de “porta estreita”. As comunidades eram perseguidas externamente por judeus e pagãos e internamente sofriam também o desejo de colocar em prática a novidade evangélica. Isto era difícil e penoso para quem estava acostumado com os costumes pagãos. O v. 23 faz alusão a um mínimo de organização na comunidade. Um dirigente é indispensável. A palavra presbítero significa mais velho; é alguém mais experiente que é colocado na frente. É importante salientar o ritual da constituição dos presbíteros. Tudo é feito com muita seriedade: com orações, jejuns, recomendações e com a imposição das mãos. O v. 27 salienta a prestação de contas que os missionários fazem à comunidade. Eles saíram encomendados à graça de Deus. É Deus que os acompanha e age através deles com sua força e gratuidade do seu amor. Agora eles contam o que Deus tinha feito com eles e através deles e como Deus tinha aberto a porta da fé aos pagãos. Lucas frisa que é Deus o agente principal na atividade apostólica e missionária.
Como encaramos as tribulações em nossa vida como agentes da Palavra? Temos consciência clara de que é Deus que trabalha em nós?
2ª LEITURA – Ap 21,1-5a
Aqui vemos a novidade de Deus para as comunidades perseguidas. Lágrimas, luto e morte já não existem mais. É a vitória total, mas vista como dom de Deus. Tudo é recriado, renovado. Uma nova Jerusalém desce do céu vestida de noiva. O v. 1 mostra a visão que João tem de um novo céu, uma nova terra. Desaparecem o primeiro céu e a primeira terra. O mar, como símbolo do mal, devorador de vidas, também desapareceu. Agora só existe o bem, o bonito, a vida. A nova geração baniu a maldição do pecado e da morte. O v. 2 parece uma cerimônia de casamento: a esposa, Jerusalém renovada e santa, desce do céu ao lado do esposo – o próprio Deus. Esta simbologia matrimonial é cara aos profetas e também ocorre no Segundo Testamento. No v. 3 a voz do trono é a grande voz do próprio Deus. Ele declara uma nova aliança sob a imagem da tenda. O namoro íntimo do tempo do deserto é refeito. A imagem da tenda aqui é ampliada para todo o povo de Deus e o próprio Deus habitará na mesma tenda, pois Deus se tornou íntimo do seu povo, numa nova aliança de amor. O v. 14 registra as características do carinho e da ternura de Deus abolindo toda espécie de mal: as lágrimas e o choro que representam a dor, a fadiga, talvez relembrando a maldição original; o luto símbolo da morte e até mesmo a própria morte; tudo que é mal será abolido. É o paraíso projetado por Deus que no início foi destruído pelo pecado. Agora ele terá lugar. Só haverá bênção, só haverá vida.
EVANGELHO – Jo 13,31-33a.34-35
O tema da glória
Os capítulos 13-17 de João são “discursos de despedida”, uma espécie de testamento de Jesus. Estamos, portanto, no início destes discursos. Os vv. 31 e 32 trazem o verbo glorificar quatro vezes. Quando Judas sai para entregar Jesus à morte, Jesus fala da glorificação. “Glorificar” para João está ligado a revelar. A glória de Deus e de Jesus é a revelação do seu projeto de vida para todos. Isto vai acontecendo através dos sinais de Jesus (a começar em Caná 2,11) e encontra sua plenitude no maior gesto de amor de Deus para com os homens que é a entrega total de seu Filho na cruz. Um outro termo que nos leva à cruz é o “agora”, pois este tem referência direta com a hora (cf. 13,1) de Jesus que se realiza na plenitude no alto do Calvário. O v. 32 faz referência à ressurreição de Jesus operada pelo Pai
O tema do amor
Os vv. 33-35 tratam do amor. A emoção parece levar Jesus a um carinho maior para com os seus discípulos chamando-os de “filhinhos”. O v. 33 é uma alusão ao caminho da cruz. É ali que a revelação do amor acontece plenamente. O novo preceito de Jesus é o preceito do amor. É novo porque está acima da Lei superando-a. É expresso através de uma ordem, mas Jesus quer que essa ordem brote do coração do discípulo do mesmo jeito que brotou no coração do Mestre. No fundo o mandamento é um jeito novo de viver que Jesus ensinou com sua própria vida. Jesus não pede amor para si, mas entre os discípulos o modelo é o amor do próprio Jesus, pois “ninguém tem maior amor do que quem dá a própria vida pelos amigos” (cf. 15,13). Não há outro modo de sermos reconhecidos como discípulos senão através do amor. Todas as práticas de piedade ficam foscas diante do brilho e do colorido do amor.
6º DOMINGO DA PÁSCOA
09/05/2010
Iª LEITURA – At 15,1-2.22-29
O texto de hoje não descreve o Concílio de Jerusalém (acontecido no ano 49 d.C.), mas apresenta a introdução com a temática do Concílio e o resultado prático através da carta ou decreto apostólico. Temos, portanto a introdução e a conclusão.
Introdução 15,1-2
Homens da Judéia sem autorização apostólica (cf. v. 24) ensinavam em Antioquia a necessidade da circuncisão para serem salvos. Isto para Paulo anulava o Evangelho de Jesus Cristo. Paulo ensinava que os pagãos pela fé são chamados a fazer parte do povo de Deus, e é pela fé, independentemente das obras da Lei, que eles são salvos. As normas da Lei de Moisés caducaram. Estes dois pontos de vista provocaram uma grande agitação e controvérsia entre eles. A solução foi apelar para os apóstolos e presbíteros de Jerusalém.
O decreto apostólico 15,22-29
A reunião conciliar foi bastante agitada (v.7). Nela tomaram a palavra Pedro, Paulo e Barnabé e depois Tiago. As conclusões foram redigidas numa carta e enviadas para Antioquia. Eis os pontos principais:
- Deixa claro que os homens da Judéia que ensinavam a circuncisão perturbando a comunidade não tinham autorização apostólica (v.24).
- Mostra a dignidade e a confiabilidade dos mediadores do conflito (vv. 25-27). Paulo e Barnabé recebem um grande elogio; são considerados “amados” e expuseram suas vidas pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Judas e Silas ficaram encarregados de relatar de viva voz.
Diante dos conflitos e novos desafios pastorais, o Espírito Santo está à frente para orientar as comunidades (v. 28).
- Os apóstolos só exigem o necessário. E fica claro que para se salvar não são necessárias a circuncisão nem a prática da Lei de Moisés. O v. 29 traz as chamadas cláusulas de Tiago que são recomendações transitórias para solucionar certas dificuldades em comunidades mistas de judeus e pagãos para não escandalizar os judeus: comer carnes imoladas aos ídolos, aproveitar o sangue, comer carnes sufocadas que retenham o sangue. Além disso, deveriam abster-se da prostituição ou relações sexuais ilícitas.
2ªLEITURA – Ap 21,10-14.22-23
“Um anjo leva João, em espírito, a um grande e alto monte”. Estar sobre uma montanha é estar mais próximo do céu. A montanha é o lugar onde se experimenta a presença de Deus. Dali ele mostrou para João a cidade Santa, a Jerusalém que descia do céu como um dom divino e vinha com a glória de Deus (vv. 10-11). Ela vinha como esposa, ornada para seu esposo que é o Cordeiro. Aqui o texto a apresenta como puro dom, como conquista do Cordeiro. Em outros lugares sabemos que a nova sociedade se funda a partir do anúncio evangélico e como resultado de sua vivência na luta pela justiça e liberdade. No fundo podemos ver que a cidade santa, chamada de esposa, parece ser a antiga prostituta que sobreviveria às custas do abuso do poder, da exploração, da violência e do derramamento de sangue (cf. cap. 17). De fato os cap. 21-22 descrevem a Jerusalém celeste com traços paralelos com a antiga Babilônia idolátrica: quadrada, atravessada por uma avenida ao longo de um rio com jardins. Se isso é verdade, só pode ter acontecido pela conquista do Cordeiro imolado e pela luta e testemunho dos seus santos. Cabe a nós hoje a tarefa de transformar, com a força do Evangelho, a sociedade prostituída e idólatra em esposa do Cordeiro. Quais são as características da cidade vislumbrada por João? Ela tem o esplendor de Deus (v. 11 = jaspe cristalino, cf. 4,3). É uma sociedade perfeita e aberta a todos os povos (v. 12) (muralha com 12 portas – 3 portas abertas para cada um dos pontos cardeais). A perfeição é indicada pelos números perfeitos: 4 e 3 e o resultado de sua multiplicação que é 12. A perfeição da cidade é também indicada pela perfeição de suas medidas e pela qualidade do material de sua constituição (cf. vv. 15ss). O Templo lugar de encontro com Deus através de diversas mediações foi substituído pelo próprio Deus e do Cordeiro a quem o povo contempla face a face (v. 22). Sol e lua também desapareceram, pois a cidade resplandece com a glória de Deus. Sua lâmpada é o Cordeiro (v. 23).
Como transformar a nós mesmos e a nossa comunidade em esposa do Cordeiro? “Sem mim nada podeis fazer”. Mas devemos esperar tudo caindo do céu? E a missão que Cristo nos confiou?
EVANGELHO – Jo 14,23-29
a) Só o amor transforma
A pergunta de Judas – não o Iscariotes – (v. 22) implica numa manifestação de Jesus como Messias glorioso só na linha política, transformando a sociedade através da violência de um exército imbatível. Jesus responde apontando com a arma do AMOR. O compromisso do amor vai transformar a sociedade. Esse compromisso do amor a Jesus tem três consequências:
- Quem ama a Jesus guarda a sua palavra e sua palavra é a palavra do Pai (v. 24).
- Quem ama a Jesus é amado pelo Pai.
- Quem ama a Jesus se torna habitação de Deus.
Estas três consequências podem ser sintetizadas em uma só: quem ama a Jesus assume com ele o projeto do Pai que é o mesmo projeto do Filho: levar a vida divina a todos, principalmente aos mais excluídos. Não foi para isso que ele foi enviado? Sua vida não foi dada para a transformação do mundo? Quem quiser ser discípulo não deve segui-lo?
b) A ação da parábola (v. 26)
Jesus está se despedindo de seus discípulos, mas a herança que Jesus deixou, seus gestos e ensinamentos não serão esquecidos. Em nome de Jesus ou junto com Jesus, o Pai enviará o Espírito Santo sobre os discípulos. Sua missão não é ensinar novidades, pois Jesus como plenitude da revelação do Pai já ensinou tudo. “Ensinar e recordar tudo” significa trazer à memória dos discípulos o sentido profundo de todas as ações e palavras de Jesus. O Espírito substitui a presença física de Jesus. É sua presença espiritual junto aos discípulos. É mestre e advogado (= Paráclito) para os discípulos. Ele os capacita no discernimento do que constrói e conduz à vida.
c) Jesus se despede tranquilizando os seus discípulos (vv. 27-29)
Diante da tristeza e medo dos discípulos, Jesus lhes transmite paz (= shalom), uma paz que não é ausência de conflitos, mas uma certeza da presença de Deus na vida deles, dando-lhes serenidade e coragem até mesmo diante da morte, na convicção de que o bem triunfa sobre o mal, a vida será restituída para todos aqueles que amam o Filho e fazem a vontade do Pai. Eles não precisam ficar com medo, pelo contrário, eles podem ficar alegres, pois Jesus vai para o Pai a quem ele se submeteu totalmente; por isso ele diz que o Pai é maior do que ele. É preciso apenas que eles tenham um amor confiante, pois, conforme ele disse, ele retornará a eles através de seu Espírito Santo.
O que significa força transformadora do amor? É algo de alienante ou revolucionário?
DOMINGO DA ASCENSÃO DO SENHOR
16/05/2010
Iª LEITURA – At 1,1-11
A obra de Lucas: evangelho e Atos (vv. 1-5)
São Lucas escreve uma obra em dois volumes. O primeiro é o seu evangelho, ou seja, a atividade e ensinamentos de Jesus, sob a força do Espírito Santo. O segundo é a atividade e ensinamento dos apóstolos sob a força do mesmo Espírito – os Atos dos Apóstolos. Ele inicia o 2o volume relembrando o primeiro que também foi destinado a Teófilo – o amigo de Deus – ou a todos nós que somos amigos de Deus. Nos primeiros versículos ele faz referência à obra de Jesus e sua instrução aos discípulos após a Páscoa durante quarenta dias. Este número quer indicar a plenitude dos ensinamentos de Jesus. Depois Jesus pede que aguardem a promessa do Pai de enviar-lhes o Espírito Santo.
Não se preocupar com o tempo, mas com o testemunho (vv. 6-8)
Os discípulos ainda estão presos às idéias de um messianismo político de restauração da realeza em Israel, e querem saber se já chegou a hora. Jesus responde que isto compete ao Pai. A eles cabe o testemunho em Jerusalém, na Judéia toda, na Samaria e até os confins da terra. É esse, aliás, o programa de atividade traçado por Lucas nos Atos dos Apóstolos. Para testemunhar a verdade sobre Jesus os discípulos receberão a força do Espírito Santo no Pentecostes. Assim como o Espírito atuou em Jesus, atua também na sua Igreja.
A ascensão e a missão
O v. 9 descreve a ascensão: Jesus é elevado e uma nuvem o oculta aos olhos dos apóstolos. Oculto pela nuvem, Jesus pertence agora à esfera divina. Cabe agora aos discípulos continuar a missão de Jesus. Para isso Jesus vai enviar junto com o Pai o Espírito Santo. É isso que os dois anjos querem anunciar. Eles não devem ficar olhando para o céu. Agora começa a missão deles, a missão da Igreja. Jesus não estará mais fisicamente com eles, mas sua presença continua através do Espírito Santo.
2ª LEITURA – Ef 1,17-23
Agradecimento e súplica
Nas comunidades de Éfeso o amor estava presente e a esperança, sem dúvida, animava a caminhada das comunidades. Podemos falar também da firmeza da sua fé, mas havia ameaças perigosas para a fé. Apareceram alguns ensinando um Deus distante das comunidades, atuando apenas através de entidades intermediárias como soberanias, poderes, forças, dominações; e Jesus não passaria de uma dessas entidades. O autor, provavelmente um discípulo de Paulo, vai primeiramente agradecer a Deus pelas virtudes da fé e do amor presentes na vida das comunidades. Depois vai suplicar a Deus um espírito de soberania e revelação para que as comunidades possam reconhecê-lo em profundidade. Em seguida, pede luz para que elas tenham consciência da esperança a que Deus as chamou, da herança que as aguarda e da extraordinária grandeza do poder de Deus em favor dos que crêem.
O poder de Deus em Cristo e o poder de Cristo sobre tudo
A partir do v. 20 o autor relembra o que Deus fez em Cristo, mostrando-se próximo e presente na vida das comunidades. Ele o ressuscitou dos mortos e fê-lo assentar à sua direita nos céus. Esse é um outro modo, o mais comum no Primeiro Testamento, de falar da “ascensão” de Jesus aos céus não em termos de subida, mas em termos de glorificação. No v. 21, sem polemizar contra as entidades intermediárias, mostra que Jesus está muito acima de qualquer Principado, Autoridade, Poder e Soberania e acima de qualquer nome que se possa nomear não só neste mundo, mas também no vindouro. Jesus é o único Senhor que realizou o projeto do Pai, por isso o Pai colocou todas as coisas debaixo dos seus pés. Quer dizer, ele domina sobre tudo (cf. 1Cor 15,14-18). Deus o “colocou acima de tudo como Cabeça da Igreja, que é seu corpo”: a plenitude daquele que plenifica tudo em todos. Essas idéias sobre a soberania do Cristo estão também bastante claras em Cl 1,15-20. A idéia da Igreja Corpo de Cristo já foi amplamente desenvolvida por Paulo em 1Cor 12. Você tem consciência clara da majestade e soberania de Nosso Senhor Jesus Cristo?
EVANGELHO – Lc 24,46-53
Últimas instruções
Jesus, primeiramente, no final de suas aparições, abre a mente dos seus discípulos para que eles entendam que estava se realizando tudo o que as Escrituras falavam sobre ele. E os primeiros versículos do texto de hoje esclarecem que as Escrituras falam de seu sofrimento, morte e ressurreição ao terceiro dia, e que em seu Nome fosse proclamado o arrependimento para a remissão dos pecados a todas as nações a começar por Jerusalém. E os apóstolos são as testemunhas do cumprimento das Escrituras a respeito de Jesus. Para isso o v. 49 faz referência à promessa do Pai, ou seja, ao envio do Espírito Santo com força do Alto para ajudá-los a reler as Escrituras, dar coragem, ativar a memória e a disposição nos discípulos para a pregação, o testemunho e o martírio.
Na ascensão Jesus é visto como sumo-sacerdote que abençoa e dá vida.
Jesus, primeiro, leva seus discípulos até Betânia, depois ergue as mãos e os abençoa (v. 50) e enquanto os abençoa, distancia-se deles e é elevado ao céu (v. 51). O v. 52 fala que os discípulos se prostraram diante dele e depois voltaram a Jerusalém com grande alegria. Lucas tem em mente um texto do Primeiro Testamento: Lv 9,22-24. Vejamos as palavras sublinhadas: Aarão levantou as mãos em direção ao povo e o abençoou. Havendo assim realizado o sacrifício pelo pecado... entrou na Tenda da Reunião... Diante do que via, o povo gritou de alegria e todos se prostrarão com o rosto em terra. Através desse paralelo percebemos a intenção de Lucas de ver Jesus como sumo-sacerdote em plena comunhão com Deus. Dele recebemos a bênção da vida. Esse é o tema predileto da carta aos Hebreus: Jesus é o sumo-sacerdote que derramando seu sangue, entrou no santuário da comunhão definitiva com Deus (céu), por isso tem uma bênção plenamente eficaz.
O v. 52 registra o retorno dos discípulos para Jerusalém. O evangelho de Lucas começa no Templo (com Zacarias) e termina no Templo. O v. 53 diz que os discípulos estavam continuamente no Templo, louvando a Deus.
Com a ascensão de Jesus e a vinda do Espírito Santo vai começar o tempo da Igreja.
DOMINGO DE PENTECOSTES
23/05/2010
Iª LEITURA – At 2,1-11
Como a “Páscoa” recordava a libertação da opressão egípcia e a “passagem” do povo de Deus para uma nova terra onde corre leite e mel, também “Pentecostes” relembrava o dia em que Moisés, no monte Sinai, recebeu a Lei – 50 dias depois da Páscoa. O Pentecostes cristão também acontece 50 dias depois da Páscoa de Jesus. É o nascimento da Igreja. Descrevendo o Pentecostes cristão, Lucas quer mostrar que o evangelho, graças a força do Espírito Santo, chegou a todos os povos, alcançou todas as línguas, pois quando ele escreve, o evangelho já tinha realmente se espalhado por todo o mundo. Para indicar a universalidade do anúncio evangélico, Lucas usa a expressão “todas as nações do mundo” (v. 5) e enumera 12 povos (vv. 9-11): o número 12 simboliza totalidade.
Ex 19 apresenta a aliança do Sinai e entrega da Lei acompanhada de fenômenos da natureza. São Lucas descreve o Pentecostes cristão do mesmo jeito (vv. 2 e 3). Ele quer mostrar que com o Pentecostes cristão está acontecendo uma Nova Aliança, está surgindo o Novo Povo de Deus regido não por uma nova Lei, mas pelo próprio Espírito de Deus.
Nm 11,10-30 apresenta Deus repartindo seu Espírito sobre Moisés e os 70 anciãos para que pudessem organizar o povo. E Moisés exprime seu desejo de que todo o povo recebesse o Espírito de Javé (Nm 11,29). Lucas, aqui no Pentecostes, mostra este desejo de Moisés se realizando, pois o Espírito Santo desce sobre todos os presentes.
Gn 11 descreve o episódio da torre de Babel, onde Deus confunde as línguas para mostrar que a ambição e o orgulho prejudicam a comunicação e a comunhão. Lá todos falavam a mesma língua e ninguém se entendia, aqui todas as línguas diferentes conseguem se entender (v. 11). Lá a linguagem do orgulho e da ambição, aqui a linguagem do amor. Com a linguagem do amor a Igreja é capaz de falar a todos os povos da terra. O que é mais importante: falar muitas línguas, falar em línguas ou falar a linguagem do amor?
2ª LEITURA – 1Cor 12,3b-7.12-13
A comunidade de Corinto, rica em dons espirituais chamados carismas, experimentou também divisões internas, vaidades, ambições, orgulho, exclusões. São Paulo exorta seus fiéis à unidade e comunhão de vida. Podemos dizer que ele dá aqui dois exemplos:
O exemplo da Trindade
Existem dons diferentes, mas o Espírito é o mesmo.
Existem serviços diferentes, mas o Senhor é o mesmo.
Existem diferentes modos de agir, mas Deus é o mesmo.
Temos aqui uma formação trinitária. Pai, Filho e Espírito Santo vivem uma profunda unidade, na comunhão de três pessoas e um só Deus. Nenhuma divisão. Absoluta harmonia. Perfeita comunicação. Infinito amor. Assim deve ser a comunidade cristã. Todos os dons do Espírito se destinam não à vaidade pessoal, mas para o bem da comunidade, para a utilidade de todos, para a edificação do Corpo de Cristo.
O exemplo de Cristo
Como um corpo tem muitos membros e não perde sua unidade e harmonia, assim também o corpo social da Igreja, que forma o corpo de Cristo. Se não há divisões na vida trinitária, também não poderá haver divisões na vida da Igreja – Corpo de Cristo. Nós fomos batizados num só Espírito para sermos um só corpo. Todos os povos, através do batismo, se tornam irmãos, formam uma unidade, ficam fazendo parte de um só corpo, a Igreja, que é o Corpo de Cristo. E todos bebem de um só Espírito. Tem sentido na comunidade cristã o espírito de divisão, de violência, de ambição, de exclusão? O corpo não é uma unidade maravilhosa, uma harmonia exemplar? A Trindade não é a comunhão perfeita? Pense em você, no seu grupo, na sua comunidade. O que está faltando?
EVANGELHO – Jo 20,19-23
Jesus traz paz e alegria
São João fala do Pentecostes – vinda do Espírito Santo – não 50 dias depois da Páscoa como Lucas, mas no próprio dia da ressurreição de Jesus, na tarde do Domingo da Páscoa. Os discípulos tinham se fechado numa sala mortos de medo das autoridades judaicas, que, ligadas a uma sociedade injusta e opressora, haviam matado Jesus. Jesus ressuscitado entra na sala, pois não há barreiras após a ressurreição. Jesus é o mesmo (“mostrou-lhes as mãos e o lado”), mas o seu corpo é espiritualizado. Jesus deseja a paz messiânica para seus discípulos, transformando o medo deles em alegria.
Jesus traz o Espírito Santo e envia seus discípulos para a missão.
Jesus repete a saudação de paz e envia seus discípulos em missão. O Pai enviou o Filho, assim também o Filho envia seus discípulos. Através dos discípulos Jesus continua o projeto do Pai. Quem vai garantir a missão dos discípulos? O mesmo Espírito que garantiu a missão do Filho. Por isso Jesus sopra sobre os discípulos dizendo: “recebam o Espírito Santo”. É o sopro de Deus. Acontece aqui uma nova criação mais perfeita que a primeira acontecida no paraíso (cf. Gn 2,7). Com este sopro de vida nova surge a comunidade messiânica, guiada não através da Lei, mas através do próprio Espírito de Deus. Os discípulos estão agora capacitados para serem missionários, para formarem a nova comunidade messiânica.
O perdão é formador de comunidade
Como os discípulos vão formar comunidades messiânicas? Através do perdão. João distingue entre pecado no singular, que é participar de uma sociedade injusta e exploradora, que exclui e mata e pecados no plural, que são atos concretos daqueles que fizeram esta opção contra a vida. Quem estiver disposto a uma nova opção receberá o perdão dos seus pecados. Quem quiser continuar na injustiça e exploração permanecerá no pecado.
DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE
30/05/2010
Iª LEITURA – Pr 8,22-31
Temos aqui uma personificação literária da sabedoria. Outros textos semelhantes vemos em Jó 28; Br 3,9-4,4; Pr 8-9; Eclo 24; Sb 7-8,etc. O corpo do livro dos Provérbios que vai do capítulo 10 ao 29 são coleções de sentenças anteriores ao exílio Babilônico (séc. VI a.C.). São resultados das experiências dos antepassados, escritas para servirem de orientação para a geração presente. Estas experiências foram colecionadas no pós-exílio quando o povo vivia sem a orientação de um rei. Quem deveria orientá-los agora? O bom senso, o senso da vida fruto da experiência do povo em ligação íntima com Deus. É essa sabedoria que iria orientar o povo. Os capítulos 1 a 9 são uma espécie de introdução ao livro dos Provérbios. Essa longa introdução parece provir do mesmo colecionador dos provérbios no pós-exílio.
No nosso trecho, a sabedoria está intimamente ligada a Deus e à criação. Sua importância está em ser o primeiro fruto da obra de Deus. Ela foi estabelecida desde a eternidade, antes que a terra começasse a existir, antes do oceano, das fontes, das montanhas e colinas (vv. 22-26). Um outro papel importante da sabedoria é ser o mestre de obras, ou arquiteto na criação de todas as coisas. Ela colaborava com Deus, quando Deus fixava o céu, condensava as nuvens, fixava as fontes do oceano, punha limites para o mar e quando assentava os fundamentos da terra (vv. 27-29). Os vv. 30-31 consideram a criação como um jogo divertido, onde a sabedoria brincava com a presença de Deus. Ela era o encanto de Deus, sua inspiração, sua alegria. Os Padres da Igreja serviam-se deste texto para elaborar a teologia sobre o Verbo de Deus e sobre o Espírito Santo. Paulo chama Jesus de poder de Deus e sabedoria de Deus (1 Cor 1,24). Para João, Jesus é a sabedoria de Deus que se fez carne (cf. Jo 1,1ss.14; Ap 3,14) para conduzir os homens à plenitude de vida (Jo 10,10; 20,31).
2ª LEITURA – Rm 5,1-5
Nossa salvação vem pela fé em Jesus Cristo. A garantia de nossa salvação está no amor de Deus e no dom do espírito (v. 5), ou seja, na obra da Trindade Santíssima. Quais são os frutos da fé ou os bens possuídos por aquele que foi justificado pela fé em Cristo? São:
- a paz com Deus, ou seja, a vida vivida segundo a vontade de Deus;
- o acesso à graça de Deus, quer dizer, o benefício da amizade de Deus; podemos nos aproximar dele;
- a esperança da glória de Deus. Nosso desespero de uma vida condenada se transformou na esperança e um dia viver a salvação definitiva com Deus.
Quais são as consequências de uma fé comprometida?
São as tribulações. Essa palavra se refere às repressões sofridas pelo povo diante de um sistema injusto e anti-cristão. Mas essas tribulações, próprias de quem quer seguir os passos de Jesus, não levam ao desânimo, mas à perseverança, à fidelidade e à esperança. E essa esperança não engana. Por quê? Porque através do dom do Espírito Santo o amor de Deus foi derramado em nossos corações (v. 5). O importante para nós é a certeza da caminhada. A dúvida perturba, desorienta e mata, mas a certeza abre caminhos e gera vida. Antes, no pecado, vivíamos sem chance de vida e salvação. Agora, através da fé na salvação trazida por Jesus caminhamos seguros enfrentando com amor e garra todo tipo de problema numa esperança firme, pois a Trindade caminha conosco. A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estão conosco (cf. 2Cor 13,13). Precisamos de mais alguma coisa?
EVANGELHO – Jo 16,12-15
A função do Espírito Santo
Estamos dentro dos “Discursos de Despedida” que ocupam os capítulos 13-17 do evangelho de João. Nosso trecho fala da função do Espírito Santo. É um trecho todo trinitário, ou seja, fala do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Nos discursos de despedida Jesus vai completando os ensinamentos aos seus discípulos. Ele ensina tudo o que ouviu do Pai (cf. 15,15), mas muita coisa os discípulos não conseguem captar em todo o seu alcance (v. 12). Assim Jesus encarrega o Espírito Santo para interpretar o alcance de seus ensinamentos ao longo da história. A função do Espírito é, portanto, conduzir os discípulos à verdade completa e ao sentido profundo dos acontecimentos futuros (v. 13).
O Espírito da Verdade
Jesus é o caminho, verdade e vida. Aqui no v. 14, o Espírito Santo é chamado de Espírito da Verdade”, pois o Pai e o Filho são uma só coisa (17,11); cf. 10,30). O termo verdade em João está associado à Aliança de amor que o Pai fez com seu povo, aliança que se torna perfeita e definitiva através da revelação total do Pai através do Filho que dá sua vida por amor. O Espírito da verdade é o intérprete das palavras de Jesus e a garantia para os discípulos da fidelidade de sua Igreja ao projeto do Pai revelado no Filho. Cada vez que o espírito ajudar os cristãs a iluminar as trevas do erro, transformando-as em caminho de luz, cada vez que o Espírito encorajar os cristãos a testemunhar a verdade através da Palavra, do testemunho e até mesmo do martírio; cada vez que o espírito eliminar divisões e provocar a comunhão, ele está manifestando a glória do Filho, na qual também o Pai é glorificado.
A Trindade comunhão-perfeita
Há uma comunhão profunda entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Um não age independente do outro. Tudo que pertence ao Pai, pertence também ao Filho (v. 15). O Espírito por sua vez, recebe aquilo que também pertence ao Filho e ele não fala em seu próprio nome, mas em nome do Pai e do Filho. Cada um é uma pessoa distinta com funções diversas. Aqui a comunhão é total. Cada pessoa é divina, mas as três pessoas são um só Deus. Nós, Igreja, somos o Corpo de Cristo, cada cristão é Templo do Espírito Santo. O que dizer das divisões entre nós?
Dom Emanuel Messias de Oliveira
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Diocese de Guanhães - MG