2010-01-14
5º– DOMINGO DO TEMPO COMUM
07/02/2010
Iª LEITURA – Is 6, 1-2a.3-8
Estamos diante de um texto que descreve a vocação do grande profeta Isaías. Isto acontece no ano de 739 a.C., antes da morte do rei Ozias. Seu chamado a ser profeta do Altíssimo aconteceu numa liturgia no Templo de Jerusalém, quando se celebrava a realeza universal de Deus cantando o Salmo 99. O profeta posteriormente tenta no texto de hoje escrever essa sua profunda experiência interior.
a) O que o profeta sente a respeito de Deus?
1 – Deus é o Senhor absoluto da história, ele reina sobre o universo inteiro. Seu trono majestoso e elevado é o céu, mas as franjas das suas vestes invadem o santuário do Templo. Isaías não vê a face de Deus, só a barra de seu manto, mas com isso o profeta já sente a plenitude de Deus e percebe que sua realeza ultrapassa a imensidão do infinito. O céu é apenas o trono de Deus e o Templo o escabelo de seus pés. Isaías sente que a terra inteira está cheia da glória do Senhor.
2 – Deus é Santíssimo – Os serafins proclamavam esta profunda santidade de Deus dizendo: “santo, santo, santo”. Em que consiste esta santidade? “Consiste em sua coerência contínua na história ao lado do seu povo, libertando-o e salvando-o”, com justiça e retidão. Esses sinais de libertação constituem, para aqueles que têm fé, a glória de Deus sobre a terra (v. 3b).
b) O que o profeta sente sobre si mesmo
Diante de tamanha santidade e majestade, Isaías se sente pequeno, pecador e perdido (v. 5). Mas Deus cuida de seus profetas e os capacita para a missão. Aqui vemos Deus, através do seu anjo, purificar o profeta, perdoar-lhe o pecado e enviá-lo em missão para ele transmitir ao povo a experiência que ele acaba de viver.
Interessante que foi através de uma impressionante liturgia que o profeta se sente tocado e é capaz de se comprometer dizendo: “Aqui estou, envia-me”. Nossas liturgias são capazes de suscitar profetas?
2ª LEITURA – 1Cor 15,1-11
Vamos ler do 5º ao 8º Domingo comum o capítulo 15 da primeira carta aos Coríntios.
Entre tantos problemas e dúvidas da comunidade de Corinto, um era sobre a ressurreição e é dela que trata o capítulo 15. Paulo afirma que o que ele transmitiu aos coríntios foi o que ele recebeu. Quais são os itens da fé recebida e transmitida? Ele enumera quatro artigos de fé dos apóstolos:
a) Cristo morreu por nossos pecados, quer dizer em nosso favor, em nosso lugar. Isto está conforme as Escrituras tinham anunciado.
b) Ele foi sepultado, quer dizer, o sepulcro constata a morte de Jesus e o fim de sua vida terrena.
c) Ele ressuscitou ao 3o dia. Isto está conforme Jesus tinha anunciado.
d) Ele apareceu a Cefas (Pedro) sozinho e depois aos 12. As aparições querem inaugurar uma nova presença de Cristo no meio de nós.
Paulo continua o texto dizendo que mais tarde Cristo apareceu a mais de 500 irmãos de uma vez; depois apareceu a Tiago e depois aos apóstolos todos juntos. Por último apareceu também a ele, “como a um abortivo”. Como a Bíblia de Jerusalém explica, esta expressão alude ao caráter anormal, violento, “cirúrgico” da vocação de Paulo”. É bom observar no texto a preocupação de que a iniciativa é sempre de Deus, a fé viva como resposta da comunidade primitiva e o impulso a transmitir a experiência vivida (conferir também a 1a leitura). O que transmitimos hoje como conteúdo básico da nossa fé?
EVANGELHO – Lc 5,1-11
No evangelho de hoje Lucas não está preocupado com a crônica dos acontecimentos; sua preocupação é mais teológica do que histórica. Ele condensa aqui vários fatos e mistura sua preocupação fundamental de narrar a vocação de Pedro com a vocação de outros discípulos. Com a pesca milagrosa ele quer mostrar que a missão dos discípulos é um prolongamento da missão de Jesus. Apresenta também duas condições fundamentais para ser discípulo e missionário. Dar atenção especial à Palavra do Mestre e deixar tudo.
a) A situação do povo e a posição de Jesus.
Lucas, como Marcos, vê a região do lago de Genezaré (= lago de Tiberíades ou mar da Galiléia) como o lugar da atividade libertadora de Jesus. O texto mostra a multidão faminta da Palavra de Deus. Os pescadores com suas redes vazias representam a situação do povo, depois ele sobe na barca para mostrar que compartilha com a frustração do trabalhador, que ganha pouco e às vezes nada. Da barca ele pode encarar o povo de frente com suas faces abatidas e angústias transparentes. Ele se assenta. É a posição de quem ensina. O texto não diz o que Jesus ensinava, mas certamente ele profere palavras de libertação e solidariedade.
b) Simão acredita na palavra do Mestre
Jesus, não era pescador, entretanto ele dá ordens a um mestre em pescaria. Simão, delicadamente, (coisa rara em Pedro) lembra a Jesus que ele e seus companheiros trabalharam a noite inteira. Mas Simão reconhece Jesus como Mestre e Senhor da Palavra da vida (cf. Jo 6,68). Eis a frase importante de Simão Pedro: “Mas, em atenção à tua Palavra, vou lançar as redes”. Diante de Jesus somos todos discípulos, aprendizes. Sua palavra é a palavra da vida, capaz de transformar situações carentes em conforto e alegria. Foi o que aconteceu. Jesus mandou lançar as redes e pescaram como nunca (vv. 4-8).
c) Abandono e seguimento
Simão reage como Isaías. Reconhece-se pecador diante da santidade do seu Senhor. Senhor é o título que Jesus recebe depois da ressurreição. A pesca quer simbolizar, na verdade, a grande vitória de Cristo sobre a morte e o resultado da pregação apostólica. A abundância de peixes aponta para a quantidade de futuros convertidos. Como Isaías, Pedro também é acolhido e transformado em mensageiro da Palavra, em pescador de homens. Diante de tudo isso, Pedro e seus companheiros deixaram tudo e seguiram a Jesus.
Que valor estamos dando à Palavra de Deus? Estamos partilhando das angústias e sofrimentos do povo?
6º – DOMINGO DO TEMPO COMUM
14/02/2010
Iª LEITURA – Jr 17,5-8
Este texto atribuído ao profeta Jeremias é uma crítica violenta às tentativas de aliança de Judá com as grandes potências. Judá sempre teve a tentação de confiar nos exércitos estrangeiros ao invés de pôr sua confiança no Senhor. É um fato que conserva sua atualidade. Confiar no homem, em sistemas sociais, políticos ou sócio-econômicos, confiar em partidos, nas forças das armas ou em potências internacionais só gera escravidão. A única dependência que liberta e gera vida é a adesão ao Deus da vida. O nosso texto diz duas coisas seguidas da expressão: “maldito o homem que confia no homem e bendito o homem que confia no Senhor”. É no fundo um comentário de Dt 30,15-19b: “Vê que eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça (...) Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes...” O evangelho de hoje vai seguir o mesmo esquema das bem-aventuranças dos pobres, que põem sua confiança em Deus, e das mal-aventuranças dos ricos que confiam em si mesmos.
Como nossos versos comparam o homem que confia no homem e têm seu coração afastado do Senhor? É comparado com os arbustos desfolhados do deserto que não vêem a alegria da floração. Parece que se contentam com a aridez e a secura do ermo. Entretanto, o homem que confia no homem é como a árvore plantada junto às águas. Não lhe falta umidade. Não teme o calor. Está sempre verde e dá fruto mesmo em tempos de seca. Este texto serviu de inspiração para o Sl 1 da liturgia de hoje. Quem confia só em si mesmo torna-se auto-suficiente e ocupa o lugar de Deus que é o único Absoluto. Quem confia só nas pessoas faz delas um ídolo, um absoluto e se torna suas escravas. Nossa confiança deve estar no Deus da vida. Na prática da sua vida em quem você põe sua confiança?
2ª LEITURA – 1Cor 15,12.16-20
Na comunidade de Corinto alguns negavam a ressurreição dos corpos, não dando assim importância à dignidade do corpo, pois achavam que, quando a pessoa morria, só o espírito é que se destinava à vida eterna. Conformavam-se com a filosofia grega, que só valorizava o espírito em detrimento do corpo. Para eles se Cristo ressuscitou ou não, pouco acrescentava à condição humana. Qual é a colocação de Paulo? Faz parte dos artigos da nossa fé, comum a Paulo, que Cristo morreu e ressuscitou. É isto que os cristãos pregavam e é isto que as Escrituras anunciavam. Como pode então quem tem fé duvidar da ressurreição? Se Cristo ressuscitou é porque os mortos ressuscitam. Por outro lado, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou e estamos assim invalidando as Escrituras e as próprias palavras de Cristo. Para Paulo as testemunhas oculares das aparições são a maior prova da ressurreição de Cristo. Quais seriam as consequências da negação da ressurreição de Cristo? Paulo as enumera. Vejamos:
- Nossa fé seria pura ilusão (v. 17).
- A redenção não teria sido realizada, ou seja, todos nós estaríamos ainda mergulhados no nosso pecado sem possibilidade de perdão (v. 17).
- Os que morreram em Cristo estariam perdidos (v. 18).
- Seríamos os mais dignos de compaixão entre todas as pessoas.
Mas na realidade nossa esperança em Cristo não foi colocada só para esta vida, pois Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram (v. 20). Primícias significam os primeiros frutos de uma árvore que dará muitos frutos, ou os primeiros frutos de uma colheita abundante. A ressurreição de Cristo como primícias dos que morreram significa que todos nós ressuscitaremos depois dele. Em 1Cor 12 Paulo fala que somos membros do corpo ressuscitado de Jesus. Daí o respeito que devemos ter pelo nosso corpo e pelas pessoas, pois fazemos parte do Corpo de Cristo e somos destinados à ressurreição, para vivermos para sempre com ele. É assim que tratamos o nosso corpo e as pessoas?
EVANGELHO – Lc 6,17.20-26
Em Mt 5-7 temos o Sermão da Montanha. Em Lucas, Jesus desce e pára num lugar plano. Então, temos o Sermão da Planície. Em Mateus, temos apenas as Bem-aventuranças. Em Lucas, temos as bem-aventuranças para os pobres e as mal-aventuranças para os ricos.
Qual é o auditório de Jesus? Muitos dos seus discípulos e uma grande multidão vinda de todas as partes. Provavelmente havia pobres e ricos. Pois Jesus se dirige diretamente primeiro aos pobres, depois aos ricos. Que a preferência de Jesus é pelos pobres e marginalizados está claro em todo o evangelho, e o contraste entre as bem-aventuranças e as mal-aventuranças o confirma.
Quem são os pobres?
Um primeiro ponto a chamar a atenção é que o Reino de Deus é dos pobres, por isso são bem-aventurados ou felizes. Os pobres, são portanto, desde já cidadãos do Reino. Eles já iniciam a nova sociedade que Jesus veio inaugurar. Eles são os que agora passam fome, os que agora choram e os que terão um futuro conflitivo neste mundo. Pois para eles estão reservados da parte dos cidadãos deste mundo o ódio, a expulsão, o insulto e a maldição. Tudo isto porque eles pertencem a Cristo (= o Filho do Homem) e seu Reino. Mas tudo isto deve ser motivo de alegria e exultação, pois esta foi a sorte dos profetas e como os profetas também eles terão uma grande recompensa no céu. É por isso que a segunda parte de cada bem-aventurança assegura uma promessa: sereis saciados, havereis de rir.
Por que os pobres têm de passar por tudo isso?
Porque os ricos deste mundo não querem mudança nas relações sociais. Querem manter seus privilégios, seus status, seus bens. Eles querem dominar e explorar os pobres. Querem acumular tirando do pobre o que lhe pertence. Eles se alegram com o sofrimento dos pobres. Seus antepassados já matavam os profetas que anunciavam uma mudança através da justiça, partilha e solidariedade.
Quem são os ricos?
Eles são infelizes, são mal-aventurados aos olhos de Deus e sua recompensa já está na consolação aqui e agora. Amanhã eles pedirão ao Pai Abraão para deixar Lázaro refrescar a língua deles com uma gota d’água (cf. Lc 16,24), mas não obterão este favor. Eles são os que agora têm fortuna, os que agora riem, os que agora são elogiados. Eles simbolizam os falsos profetas. Amanhã eles vão passar fome, vão ter luto e lágrimas.
Nós partilhamos das lutas dos pobres para a construção de uma nova sociedade, onde desaparecerão o orgulho e o egoísmo dos ricos e haverá partilha e solidariedade?
1º – DOMINGO DA QUARESMA
21/02/2010
Iª LEITURA – Dt 26,4-10
Estamos diante do “credo histórico de Israel”. É um trecho de fundamental importância para o povo de Deus. Este trecho é trazido à memória a cada ano, quando as famílias celebram o memorial de sua libertação. Os vv. 1-3 estão explicando o que deve ser feito logo que o povo tomar posse da terra prometida. O povo deve pegar os primeiros frutos da terra e apresentá-los a Javé, ou seja, cada família devia ir até ao sacerdote, levando o cesto e professar a sua fé. O v. 4 mostra o sacerdote pegando o cesto das primícias, ou seja, dos primeiros frutos da terra e colocando-o diante do altar do Senhor. Depois disso o ofertante recita a profissão de fé e se prostra diante de Javé (vv. 5-10). Então temos aqui todo o ritual com a oferta, a profissão de fé, a adoração e ainda no v. 11 o grande banquete de confraternização. Com a família participavam também o levita e o imigrante que vive no meio do povo. Todos se alegravam com a fé no Deus libertador.
Temos neste gesto dois grandes significados: primeiro, lembrava que o processo da libertação e a posse da terra são ao mesmo tempo dom de Deus que liberta, e conquista do povo que luta e se organiza.
Segundo, nesta profissão de fé, relembrando a ação de Deus na caminhada histórica do povo, o israelita reconhecia a opção preferencial, que Javé havia feito pelos oprimidos e marginalizados, pois esta era a situação de Israel no Egito, mas Javé ouve o clamor do povo e o liberta dando-lhe uma terra, onde corre leite e mel.
Terceiro: o povo manifesta a sua fé através da gratidão da oferta, onde reconhece que tudo vem de Deus, ou seja, a liberdade, a vida e os produtos da terra. Este gesto de oferta com o final festivo estimulava à partilha e à generosidade. Simbolizava a possibilidade de uma sociedade alternativa, superando a tentação da ganância e do acúmulo.
Questionamentos: a) A nossa fé no Deus que liberta nos leva a acompanhar as lutas do povo que pede libertação? b) A fé no Deus que é dono de tudo e tudo nos dá nos leva à partilha generosa através do dízimo e da oferta?
2ª LEITURA – Rm 10,8-13
O capítulo 1o fala da infidelidade culpável de Israel, pois ele não se sujeitou à justiça de Deus em Jesus Cristo, mas quis estabelecer a própria, baseada nos seus próprios méritos de um fiel cumprimento da Lei. O v. 4 diz que Cristo é o próprio fim da Lei “como meta, como termo e como realização”, quer dizer, o objetivo da Lei é chegar até Jesus e Jesus põe fim à Lei, pois agora a vida é encontrada em Jesus Cristo e não na Lei. Assim os vv. 5-13 mostram que o único caminho da salvação está na fé em Cristo. O próprio texto de Paulo faz duas citações. A primeira é tirada de Lv 18,5 onde fala que a Lei plenamente cumprida leva à salvação. O acento aqui está no agir humano. Mas na realidade ninguém é capaz de cumpri-la por causa da força do pecado. A segunda é tirada de Dt 30,11-14 que sublinha o agir de Deus. Mostra que a Palavra de Deus não está distante do homem (no céu ou nos abismos), mas foi colocada por Deus ao seu alcance. No v.8 Paulo mostra que esta Palavra colocada ao alcance do homem não é palavra da lei, mas a palavra da fé. Qual é o conteúdo dessa fé? É o v. 9 que nos traz o sintético e primitivo credo cristológico: “Se, pois, com tua boca confessares que Jesus é o Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo”. Aqui está afirmada a divindade de Jesus (Senhor era o título de Deus no Primeiro Testamento) e a sua ressurreição de entre os mortos. Estes são os dois conteúdos básicos da fé. Para se obter a salvação é preciso confessar ou professar estas duas verdades de fé. Como confessá-las? É com uma confissão externa, pública, litúrgica (através da boca). É uma adesão interior – crer com o coração. Como o coração para o judeu é a sede das opções da vida, crer com o coração significa não um sentimentalismo religioso, mas pôr em prática o projeto libertador de Jesus, onde ninguém fica excluído, pois não há mais distinção entre judeu e grego, pois o Senhor Jesus dá atenção a todos aqueles que invocam o seu nome, ou seja, a sua pessoa.
Em síntese a vida cristã, ou seja, a salvação trazida por Jesus se recebe numa vida ativa na busca da justiça, honestidade e solidariedade com os mais pobres (= acreditar com o coração) e na proclamação e celebração litúrgica desta vida de fé (= confessar com a boca). É assim que você faz?
EVANGELHO – Lc 4,1-13
Os sinóticos querem mostrar, antecipadamente, a vitória de Jesus sobre o poder do mal e, assim, sintetizam todas as tentações, que Jesus sofreu em sua vida pública, nestas três tentações simbólicas. Jesus está no deserto e é guiado pelo Espírito. O deserto pode simbolizar o povo de Israel e o demônio simboliza todos os obstáculos e anti-projetos com os quais Jesus se deparou e venceu para levar à frente seu programa libertador. Os 40 dias simbolizam o tempo da vida de Jesus – uma geração. Lembra o tempo em que Moisés passou no Sinai (Ex 34,28), o tempo em que Elias permanece no Horeb (1Rs 19,8) e também o tempo em que Israel passou pelo deserto, tentado a retornar para a escravidão do Egito. Jesus, novo Moisés, e para Lucas, principalmente, novo Elias, vai refazer de modo vitorioso a caminhada do povo com um novo projeto de libertação.
a) Jesus é tentado a ser o Messias da abundância transformando pedras em pão. Num mundo de famintos Jesus teria pleno sucesso. Jesus responde com o texto de Dt 8,3: “Não só de pão vive o ser humano”. O projeto de Jesus vai além do alimento. Em Jo 6,15, depois da multiplicação dos pães, o povo quer aclamar Jesus como rei, e Jesus foge.
b) Jesus é tentado a ser o Messias do poder.
O demônio propõe a Jesus dar-lhe todos os reinos do mundo com toda a glória, contanto que Jesus o adore. A tentação é capaz de inverter e perverter o que há de mais sagrado. O demônio quer que Jesus o adore, ou seja, se submeta a ele. A proposta aqui é muito tentadora, pois o povo estava preparado e queria exatamente um Messias temporal, poderoso politicamente. Jesus sabe que um messianismo temporal e político não seria libertador, seria opressor como foi o projeto do faraó, por isso, Jesus responde de novo com Dt 6,13: “Temerás o Senhor teu Deus, a ele servirás e só por seu nome jurarás”. Adorar a alguém ou algo que não é Deus é voltar à condição de oprimido.
c) Jesus é tentado a ser o Messias do prestígio
A segunda tentação de Mateus, Lucas coloca como terceira para terminar em Jerusalém, onde a paixão representa a última e a mais cruel das tentações de Cristo (cf. Lc 22,3-53). A tentação do prestígio é usar o poder de Deus em seu próprio favor, isto é, a fim de se livrar da morte. Dentro do simbolismo da terceira tentação, Jesus é convidado a pular do pináculo do Templo, pois conforme o Sl 91,11-12 os anjos de Deus o protegeriam e o livrariam da morte. Mas Jesus entendeu bem que o projeto de Deus, que é a libertação dos oprimidos, tinha de passar pelo sofrimento e morte, e Jesus não se acovardou. A reposta de Jesus é tirada de Dt 6,16: “Não tenteis o Senhor vosso Deus”. “Tentar a Deus” no Primeiro Testamento significa “desobedecer-lhe para ver até onde chega a sua paciência, ou, como aqui, recorrer à sua bondade como objetivo interesseiro”. O v. 13 afirma que o demônio voltará no momento oportuno. Isto vai acontecer, quando Jesus tiver que enfrentar os chefes dos sacerdotes, doutores da Lei e anciãos, que representavam o poder (cap. 20, cf. 22, 3-53).
Quais são as três principais tentações de hoje?
Quem hoje faz o papel do demônio, promovendo as tentações?
2º – DOMINGO DA QUARESMA
28/02/2010
Iª LEITURA – Gn 15,5-12. 17-18
O que nós temos neste texto? A aliança de Deus com Abraão. Deus fez uma promessa a Abraão. Abraão acredita. Esta fé lhe é creditada como justiça. O sinal de que Deus vai cumprir sua promessa é dado no rito da aliança.
A aliança e seu rito – a aliança é sempre bilateral, quer dizer, as duas pessoas envolvidas tinham que assumir o compromisso. O rito da aliança era concluído assim: dividiam alguns animais e colocavam as partes uma diante da outra. Os contraentes passavam no meio. Quem violasse o contrato teria a mesma sorte dos animais. Interessante no nosso texto é que é só Javé, através do símbolo do fogo, que passa entre os animais. Isto significa que Javé nunca será infiel à sua promessa de conceder vida e liberdade àqueles que nele confiam. Veja o texto forte de 2Tm 2,13: “Se lhe somos infiéis, ele, no entanto, permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo”.
A promessa – Deus promete duas coisas que eram as aspirações mais profundas de Abraão e de todo o povo da Bíblia: descendência e terra.
Justiça e fé – “A justiça do homem consiste em acreditar nas promessas de Deus, mesmo quando as aparências e fatos indicam o contrário, mesmo quando se espera contra toda a esperança (Rm 4,18 – cf. todo o capítulo 18 da carta aos Hebreus). Em sua polêmica a salvação pela fé e não pelas obras da Lei, Paulo cita essa passagem de Gn 15,5 em Rm 4,3-9. É bom ler todo o capítulo 4
Cristo nos faz uma promessa de vida nova através da sua morte e ressurreição. Em quem acreditamos? Naquilo que fazemos ou naquilo que Deus fez por nós em Jesus Cristo?
2ª LEITURA – Fl 3,17-4,1
A carta aos filipenses pode ser lida como se fosse a compilação de três cartas escritas em momentos distintos. A primeira 4,10-20: agradecimentos pelos auxílios recebidos na prisão. A segunda seria uma exortação à unidade e notícias pessoais: 1,1-3 + 4,2-7 + 4,21-23. A terceira seria um ataque a falsos doutores, inimigos da cruz de Cristo: 3,1b-4,1 + 4,8-9. Como vemos nosso trecho pertence à terceira carta. Ele nos apresenta de um lado os amigos da cruz de Cristo, onde Paulo é o modelo a ser imitado, do outro lado “os inimigos da cruz de Cristo”, um contra-modelo a ser evitado. O interesse dos amigos da cruz de Cristo, os cristãos, está no céu. O interesse dos inimigos da cruz de Cristo está no ventre, etc.
Paulo – o modelo – Não se trata de um orgulho ou vaidade de Paulo. Aliás, os filipenses são convidados a observar não apenas Paulo, mas também os que vivem com a mesma coragem de fazer uma opção radical por Cristo (cf. 3,7-8; 1,21). No fundo, a preocupação de Paulo é ajudar os filipenses a distinguir os verdadeiros dos falsos líderes e se colocar como ponto de referência para os filipenses, diante do contra-testemunho dos inimigos da cruz de Cristo. Onde está o interesse dos que são de Cristo? No céu, pois eles, mesmo atuando na terra, já são cidadãos do céu. A espera do retorno de Cristo é ansiosa, pois, com seu poder, ele vai transformar o nosso corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso. Eis a importância do respeito ao corpo, pois nosso corpo tem um destino glorioso.
Os judaizantes – o contra-modelo – Os inimigos da cruz de Cristo são os judaizantes, são os que não acreditam no valor salvífico da cruz de Cristo. A salvação deles ainda está no fiel cumprimento da Lei antiga, levando a sério a distinção entre os alimentos puros e impuros (= o deus deles é o estômago), vendo na circuncisão (= o que é vergonhoso) o sinal da pertença ao povo de Deus e, portanto, sinal da salvação. Mas Paulo garante que o fim deles é a perdição, pois seus pensamentos estão nas coisas da terra, não nas coisas do céu (cf. Cl 3,2).
Quem são hoje os inimigos da cruz de Cristo?
EVANGELHO – Lc 9,28b-36
É o Evangelho da transfiguração, embora Lucas não use esta palavra, para seus leitores vindos do paganismo não confundirem o episódio com uma metamorfose das divindades pagãs. Lucas diz que o rosto de Jesus mudou de aparência.
Enquanto rezava, Jesus se transfigura. Jesus está sobre uma montanha para rezar e leva consigo Pedro, Tiago e João. A montanha é uma lugar de oração a sós. O Jesus de Lucas está sempre rezando, principalmente antes de decisões importantes. A montanha relembra também o lugar de tentações de um projeto mundano. Mas Jesus vence o demônio e consolida o projeto divino de salvar os homens através da cruz. Durante a oração Jesus se transfigura.
Moisés, Elias e Jesus conversam sobre o seu êxodo.
Moisés e Elias aparecem na glória e conversam com Jesus sobre seu êxodo em Jerusalém. Moisés representa a Lei; Elias representa os profetas. É que as promessas do Primeiro Testamento vão se realizar em Jesus. Para Lucas este v. 31 é o ponto alto do episódio. O que significa o êxodo de Jesus? A palavra relembra toda a caminhada da libertação do povo do Egito até à Terra Prometida. Jesus também quer libertar o povo oprimido. Isto ele vai fazer superando as tentações do comodismo, do egoísmo e triunfalismo e subindo para Jerusalém numa subida sem retorno, para lá enfrentar a morte e de lá continuar sua subida ou êxodo até à casa do Pai (cf. 9,51 que marca esta decisão de Jesus).
A atitude de Pedro, Tiago e João
Eles dormiam. Quando acordaram viram a glória de Jesus. Quando Moisés e Elias iam se afastando, Pedro sem saber o que estava dizendo, mas sentindo a paz das alturas, propõe fazer três tendas, querendo prolongar aquela cena. Ele não sabia que a transfiguração-ressurreição só acontece depois do Calvário. Nisto foram recobertos com a sombra de uma nuvem que representa a presença de Deus, daí o medo.
A voz de Deus
Da nuvem Deus declara: “Este é meu Filho, o escolhido, escutem o que ele diz”. Jesus é o Filho, superior aos servos Moisés e Elias. Só que ele vai assumir a missão de Servo de Javé, o escolhido (cf. Is 42,1) para a libertação-transfiguração do seu povo através da cruz. O Primeiro Testamento conduz a Jesus e se eclipsa com a sua chegada. A única voz autorizada agora é a dele. Diante desse mistério ainda incompreensível os discípulos se calam.
Como ajudar hoje na transfiguração do rosto tão desfigurado do nosso povo sofrido?
Dom Emanuel Messias de Oliveira
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Diocese de Guanhães - MG