2006-05-07 CNBB - REGIONAL LESTE II

Institucional

   

IVº Domingo da Páscoa - 07/05/2006


Dom Emanuel Messias de Oliveira - Bispo de Guanhães (MG)


Iª LEITURA - At 4,8-12

Lucas, nos Atos, mostra que o Espírito que atuou em Jesus é o mesmo que atua nos apóstolos e na Igreja, e que a prática de Jesus se prolonga na prática dos apóstolos e dos discípulos. Lendo os Atos dos Apóstolos, percebemos que os milagres que Jesus fez; são realizados também por Pedro e Paulo. Pedro e Paulo ficam presos uma noite. E de manhã são levados ao Sinédrio, do mesmo modo que aconteceu com Jesus (cf. Lc 22,662). Lá quem fala é o Espírito Santo, conforme a promessa de Jesus (cf. Lc 12,11-12). No discurso de Pedro, podemos destacar os seguintes pontos:

1o) Pedro fala para os chefes do povo que eles (Pedro e João) estão sendo julgados, porque fizeram o bem curando um coxo. Isto já é uma denúncia contra os chefes do povo, que não estão sendo pastores, não estão se interessando pelo bem de suas ovelhas, mas estão agindo como mercenários.

2o) Eles querem saber em nome de quem Pedro curou. Eles não conseguem ou não querem fazer o bem ao povo e ainda estão contra quem o faz. Eles querem um povo submisso e espoliado e temem perder suas posições diante de alguém que cuida do povo como bom pastor.

3o) Pedro aproveita a oportunidade para anunciar Jesus Cristo e denunciar o crime das autoridades de Israel. É em nome de Jesus que o coxo foi curado e ninguém será salvo senão através de Jesus. E este Jesus salvador é o mesmo Jesus que eles assassinaram na cruz. Mas Deus o ressuscitou dos mortos. As autoridades o rejeitaram, mas Deus o tornou pedra angular (Sl 118,22). Sem ele qualquer construção, qualquer sociedade, qualquer Templo cairá por terra, e se afogará no seu próprio orgulho e egoísmo.

IIa LEITURA -1Jo 3,1-2

Como já lembramos nos domingos anteriores, o que está por trás da carta é o combate à doutrina gnóstica que os carismáticos separados da comunidade querem implantar. Doutrina gnóstica é a doutrina da salvação não através da prática dos mandamentos, principalmente do mandamento do amor, mas através do conhecimento especial de Deus. Conhecer a Deus, chamar-se filho de Deus sem amar o irmão é uma farsa, uma mentira. O texto de hoje traz apenas dois versículos.

O 1o versículo afirma que o Pai nos deu uma grande prova de amor nos acolhendo como filhos. O versículo anterior reconhece que Jesus é justo e todo aquele que pratica a justiça nasceu de Deus. Assim ser filho de Deus significa assumir a luta pela justiça. Este 1o versículo apresenta o conflito entre os filhos de Deus e o mundo injusto, corrupto, sedutor e perseguidor. O mundo não reconheceu a Deus no seu projeto, que é Jesus Cristo - o Justo.

O 2o versículo reafirma a nossa filiação divina e abre uma janela para nossa realização maior ainda, uma revelação mais profunda da nossa identidade em Jesus - o Filho. Embora filhos de Deus, ainda caminhamos neste mundo de luzes, e sombras e nossa visão de Jesus não é tão nítida, pois só o conhecemos através da fé. Mas quando Jesus se manifestar, nossa santidade vai transparecer e seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é; todas as sombras desaparecerão e o clarão da luz de Deus iluminará todo o nosso ser.

EVANGELHO - Jo 10,11-18

O capítulo 10 de João se inspira no capítulo 34 de Ezequiel. Lá se faz uma crítica pesada aos líderes e pastores do povo, que, praticamente, abandonaram o povo para cuidarem de seus próprios interesses. Deus anuncia que ele mesmo será o pastor de seu povo. João no capítulo 10 apresenta Jesus, o bom pastor, como a realização da profecia de Ezequiel, critica as instituições que estavam massacrando a vida do povo e chama de mercenárias suas lideranças. Nos versículos anteriores, Jesus chama os que vieram antes dele de ladrões e assaltantes. O que temos aqui, em síntese, é um contraste entre o bom pastor e os mercenários. Quem é o bom pastor? É aquele que cuida maternalmente de suas ovelhas a ponto de dar a vida por elas diante dos perigos dos lobos. O bom pastor conhece suas ovelhas e é conhecido por elas. Jesus diz que a relação de conhecimento entre ele e suas ovelhas é igual à relação de conhecimento entre ele e o Pai. Quer dizer que Jesus vive em profunda comunhão com suas ovelhas. Quem é o mercenário? São as lideranças políticas e religiosas de Israel. Aliás, as lideranças de Israel estão sendo lobos para as ovelhas, pois estão roubando e assaltando. Estão cuidando apenas delas mesmas, não importando com o sofrimento e morte do seu rebanho.

Jesus fala também de outras ovelhas, que pertencem a outro redil. Ele quer apresentá-las também, quer que elas escutem sua voz, quer que haja um só rebanho e um só pastor. É um grito ecumênico no evangelho de João.

No finalzinho, Jesus fala da relação de amor entre ele e o Pai. O Pai o ama e ele corresponde a este amor, entregando livremente sua vida na cruz em benefício de suas ovelhas, na certeza de que o amor do Pai, que está nele, o fará ressurgir glorioso. O mandamento do Pai é o amor total.

Vo - DOMINGO DA PÁSCOA
14/05/2006

Ia LEITURA - At 9,26-31

A Igreja - novo povo de Deus - encontra perseguições das mais violentas (At 8,1), mas o Espírito Santo vai trabalhando no coração das pessoas e vai aumentando o número dos ramos que querem permanecer firmes na videira e produzir frutos. Paulo, antes chamado Saulo, de encarniçado perseguidor dos cristãos, se torna um apaixonado missionário. O texto de hoje mostra Paulo convertido se aproximando da comunidade dos discípulos, mas as cicatrizes de suas perseguições ainda assustavam o corpo da comunidade. O grande Barnabé, então, serve de intermediário; apresenta Paulo aos apóstolos e justifica uma nova conduta. Com carta branca Paulo se entrega ao trabalho missionário em Jerusalém. Entretanto os judeus de língua grega procuram matá-lo. Os irmãos (a comunidade), então, tomam providências para libertar Paulo da morte, conduzindo-o para Cesaréia e dali para Tarso. Lucas (o autor dos Atos) depois disso, mostra a paz na Igreja, sua consolidação, seu progresso e crescimento, com ajuda do Espírito Santo. Neste trecho percebemos a preocupação de Lucas em mostrar a comunhão de Paulo com a comunidade apostólica. Mais tarde Paulo vai dizer que a Igreja é uma unidade, um corpo, cuja cabeça é Cristo! O evangelho de hoje fala em permanecer na videira. Percebemos também a importância de um líder capaz de aproximar as pessoas (Barnabé) buscando comunhão e entendimento na comunidade, abrindo espaço para novas lideranças. Enfim, vimos a ajuda do Espírito Santo para a expansão da Igreja.

IIa LEITURA -1Jo 3,18-24

Poderíamos ver este trecho na ótica da pergunta chave do evangelho de hoje: Quem faz parte do novo povo de Deus? Há pessoas e líderes que se dizem cristãos, têm discursos bonitos sobre o amor, mas cujas ações concretas estão distantes do que dizem e distantes da verdade. A verdade é exatamente a manifestação concreta do amor do Pai na pessoa e obra do Filho. Aquele que pertence ao povo de Deus pertence à verdade, traduz sua fé em Jesus Cristo, em gestos, e lutas em favor dos mais injustiçados, dos mais carentes, das famílias mais abandonadas. Neste texto, percebemos que pertence ao novo povo de Deus não apenas quem foi batizado, quem fala bonito, quem fala em nome de Jesus Cristo, mas quem atua na comunidade, quem guarda o mandamento do amor, ou seja, quem sabe traduzir sua fé-entrega-confiança em amor-serviço-doação. É permanecendo na comunidade-corpo de Cristo que permanecemos no Deus de Jesus Cristo.

O autor nos traz um consolo para nossa consciência e tranqüilidade diante de Deus, quando diz: mesmo que o nosso coração (consciência) nos acuse, Deus é maior que o nosso coração e conhece tudo. O que é que Deus conhece em nós e nos traz tranqüilidade de consciência? É o nosso amor concreto, não de boca, mas amor em ação e em verdade. Este amor serviço nos traz consciência e tranqüilidade de fazermos parte do povo de Deus, de sermos da verdade, de permanecermos em Deus.

EVANGELHO - Jo 15,1-8

Este texto fala que o Pai é o agricultor, Jesus é a videira e nós fazemos parte da videira, porque somos os ramos. Então o texto define quem faz parte da família de Jesus, quem faz parte do novo povo de Deus. Todos sabemos que o Antigo Povo de Deus era Israel, o povo judeu. Mas este povo deixou de ser o povo de Deus, porque não produziu os frutos desejados. Se você ler Is 5,1-7 antes de continuar a nossa leitura, você vai entender melhor o que estamos dizendo. Não produzir os frutos desejados significa não acolher a Palavra de Deus, não acolher Jesus, desligar-se dele que é a videira.

Talvez a primeira pergunta forte que o texto quer responder é esta: Quem faz parte hoje do povo de Deus? No hoje do autor estamos diante de 3 povos: Israel, a sociedade pagã e os que estão ligados a uvas azedas (cf. Is 5,1-7). Os pagãos não estão ligados a Jesus, mas ao imperador romano que pretendia ocupar o lugar de Deus. O verdadeiro povo de Deus é a Igreja - os ramos da videira. Esta Igreja, o povo de Deus, no tempo do autor e hoje, tem ramos produtivos e improdutivos.

A 2a pergunta, portanto, é: Como Deus - o agricultor age em relação aos ramos da sua videira? Ele tem duas atitudes apenas:

1o) Corta os ramos que não dão fruto, joga-os fora e quando estes acabam de secar, ajunta-os um por um e joga-os ao fogo.

2o) Quanto ao ramo que está dando fruto, ele o poda ou limpa para que dê mais frutos ainda. É interessante que o texto está primeiramente no singular: o ramo. Isto significa que o Pai cuida de cada pessoa individualmente, cortando para jogar ao fogo ou podando para produzir mais. Que fruto você está produzindo na Igreja-comunidade?

Uma última pergunta do texto poderá ser esta: O que precisamos fazer para dar mais frutos ainda?

1o) Precisamos ter consciência da realidade do Pai e da realidade virtual do Filho, ou seja, acreditar que nele temos a vida e fora dela temos a morte.

2o) Precisamos, portanto, permanecer ligados ao Filho, viver sua Palavra que purifica e limpa, ou seja, viver em comunhão constante com o Filho, na realidade da vida comunitária de serviço fraterno e celebrar isto na Eucaristia - seiva. Em uma palavra é preciso que nos deixemos podar pelo Pai e sejamos discípulos de Jesus imitando sua entrega total, pois só assim é que o Pai é glorificado.

VI o - DOMINGO DA PÁSCOA
21/05/2006

Ia LEITURA - At 10,25-26.34-35.44-48

O livro dos Atos dos Apóstolos vai mostrando a caminhada de abertura da Igreja para os pagãos.

Primeiro, a conversão de Paulo, o futuro apóstolo dos pagãos. Hoje, temos Pedro abrindo o caminho para Paulo. O episódio acontece na casa de um chefe militar romano, o pagão Cornélio. Para uma pessoa pertencer ao novo povo de Deus precisa de pouca coisa. Primeiro, uma abertura para Deus através de Jesus Cristo. Cornélio possuía esta qualidade; até vê em Pedro um personagem celeste, ajoelhando-se diante de Pedro. Pedro esclarece que ele é apenas um homem a serviço de Deus. Depois, uma abertura para o outro através da justiça - a ante sala do amor. Fica claro que não é preciso mais ser judeu ou passar pelo judaísmo. Pedro entende que Deus não faz distinção de pessoas. Para confirmar esta novidade o Espírito Santo desce sobre todos os presentes, e os fiéis de origem judaica ficam admirados. Depois, Pedro concluiu que não se pode negar o batismo aos não judeus, e todos naquela casa foram batizados.

IIa LEITURA -1Jo 4,7-10

A tônica da 1 Jo hoje bate com o texto do evangelho: o amor ao próximo. João bate nessa tecla por causa de um grupo carismático que falava muito, se considerava grande conhecedor de Deus, mas vivia uma prática distante do discurso. A 1Jo aponta Deus como a fonte do amor e chega até a dizer que Deus é amor, ou seja, Deus se revela, se manifesta a nós como amor. É só quem ama concretamente, ou seja, é só quem se coloca a serviço da comunidade que nasceu de Deus e conhece a Deus; o resto é papo furado.

Depois, a 1Jo explica 3 coisas: como chegou até nós o amor de Deus; qual o objetivo do envio do Filho ao mundo e em que consiste o amor. O amor chega até nós através de Jesus: ele é, realmente, nossa vida; ele nos purifica, nos alimenta (é a videira); e nos salva através da cruz. E em que consiste o amor do Pai? Consiste em tomar a iniciativa no amor, e amar primeiro sem merecimento da nossa parte. Éramos pecadores e o Pai não poupou seu Filho único, mas o entrega como vítima de reparação pelos nossos pecados. Poderíamos dizer metaforicamente do Pai o que acontece realmente com o Filho: Ele morre de amor por nós. Se o Pai nos entrega até mesmo seu próprio Filho por amor de nós, o que mais deixaria de fazer por nós?

EVANGELHO - Jo 15,9-17

O evangelho do domingo passado (“Jesus videira”) mostrou que para pertencer ao novo povo de Deus é preciso estar ligado a Jesus e produzir frutos. O evangelho de hoje dá continuidade a este pensamento. Creio que as palavras chaves aqui são: alegria, amor, obediência aos mandamentos. Podemos sintetizá-las assim: o objetivo geral da pertença ao povo de Deus é a alegria messiânica, que brota da comunhão de vida dos homens entre si e com Deus. Esta alegria própria do relacionamento Pai-Filho é doada aos homens como plenitude da realização humana. Para viver esta alegria “divina” é preciso permanecer no mesmo amor divino, amor recíproco entre o Pai e o Filho. Para permanecer neste amor é indispensável a obediência aos mandamentos do Pai. Se perguntarmos que mandamentos são estes, o próprio texto responde que estes mandamentos se reduzem a um só: amar como Jesus amou. Para ficar mais claro a medida com que devemos amar, Jesus nos diz: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá vida pelos amigos”. Foi o que Jesus fez. A medida do seu amor é amor até à morte. O amigo é aquele que é capaz de doar tudo. O novo povo de Deus não é um povo de escravos, mas um povo de amigos, um povo fraterno ligado entre si por verdadeiros laços de intimidade familiar. Somos também um povo eleito, povo escolhido por Jesus destinado a uma missão. A missão é de produzir frutos de comunhão e de amor. Nisso consiste a alegria completa do ser humano. Numa palavra tudo é misteriosamente simples: “amem-se uns aos outros”. Assim somos família de Deus.

ASCENSÃO DO SENHOR
28/05/2006

Ia LEITURA - At 1,1-11

Lucas divide a história em três tempos. O tempo da promessa, que é o Primeiro Testamento, que vai até João Batista. O tempo da realização das promessas em Jesus (evangelho); e o tempo da realização das promessas em prolongamento da atividade salvadora de Jesus (atos dos Apóstolos). O Espírito Santo é o animador desses tempos, é o fundamento da missão de Jesus e dos seus seguidores. Vamos salientar alguns pontos no texto de hoje.

1 - Neste início do seu segundo livro, S. Lucas faz alusão à obra de Jesus narrada no seu primeiro livro, que é o evangelho e, acena, às diversas aparições de Jesus, falando do Reino de Deus durante 40 dias. Este número simbólico quer mostrar a plenitude do ensinamento de Jesus para os apóstolos.

2 - Jesus dá uma ordem aos apóstolos para não se afastarem de Jerusalém em vista da realização da promessa da vinda do Espírito Santo.

3 - Os apóstolos perguntam se é agora que Israel vai assumir as rédeas do poder, ou talvez, o Reino de Deus vai se instalar em plenitude. Jesus responde dizendo, que a data não cabe a eles saberem, mas é segredo do Pai. A eles cabe a missão de, com a força do Espírito Santo, serem suas testemunhas em Jerusalém, na Judéia e Samaria e até os confins da terra, ou seja, Roma, capital do Império. Este v. 8 apresenta exatamente o programa geográfico da atividade apostólica que Lucas vai narrar nos Atos dos Apóstolos. Este livro termina mostrando Paulo evangelizando em Roma.

4 - A narração da Ascensão em forma de arrebatamento, como se Jesus estivesse subindo ao céu fisicamente, foi inspirada no arrebatamento de Elias. É uma forma visível e plástica de descrever uma verdade de fé várias vezes expressa de outra forma em outros textos do Segundo Testamento, ou seja, que Jesus foi glorificado e entronizado junto do Pai (cf. Fl 2,9-11; Ef 1,17-23 - 2a leitura de hoje, etc.).

5 - O interesse maior de Lucas recai sobre as conseqüências da glorificação de Jesus para os seus discípulos. Quer dizer, eles não devem ficar agora olhando para cima esperando Jesus voltar, mas devem sim aguardar pela presença do seu Espírito, que animará a missão da Igreja. Como Jesus foi subindo devagarinho entre as nuvens, símbolo da presença de Deus, ele vai reaparecendo devagarinho a partir da evangelização e vivência cristã no coração da comunidade - corpo de Cristo (Ef 1,23) até à manifestação total e final dessa sua presença (parusia ou vinda). Aí Cristo será tudo em todos (Cl 3,11).

IIa LEITURA - Ef 1,17-23

Talvez pudéssemos sintetizar o texto de hoje com a palavra poder de Deus em nosso favor e em favor de Cristo. A primeira parte é uma espécie de oração de súplica a Deus em favor dos fiéis. Pede para eles um espírito de sabedoria e revelação para conhecerem a Deus profundamente numa iluminação, para compreenderem o alcance da esperança cristã, a riqueza e a glória da herança reservada aos santos, e a grandeza do poder de Deus em favor dos que têm fé. Uma consciência mais profunda dessas realidades desperta um entusiasmo mais ardoroso pela evangelização e vida cristã, para que um dia Cristo seja manifestamente “tudo em todos” (Cl 3,11).

A segunda parte mostra como Deus usou este seu poder em favor de Jesus Cristo. É um outro modo de falar da glorificação e entronização de Jesus, mas não em forma de subida ou ascensão visual como nos Atos dos Apóstolos. Aqui o autor mostra a nossa realidade e a identidade de Jesus, hoje, depois de sua paixão e morte. Deus o ressuscitou e o entronizou como Senhor absoluto do universo inteiro, universo visível e invisível. Deus no seu imenso poder “colocou tudo debaixo dos pés de Jesus Cristo”. Cristo “é a cabeça de todas as coisas da Igreja”. “A Igreja é o corpo de Cristo que preenche tudo em todo o universo”. Enaltecendo Jesus a Igreja é também enaltecida, pois a Igreja é o corpo, cuja cabeça é Cristo. Mas há uma diferença importante para combatermos o nosso triunfalismo e desenvolvermos a virtude da humildade. Enquanto Cristo-cabeça é totalmente santo, a Igreja corpo é também pecadora. Daí o sentido geral da liturgia de hoje: O apelo missionário para que um dia Cristo possa ser de tal forma vivido pelos fiéis que sua parusia-vinda-presença seja claramente visível por todos.

EVANGELHO - Mc 16,15-20

O evangelho de Marcos terminava em Mc 16,8. Os versículos finais 9-16, dos quais faz parte o nosso texto, foram acrescentados posteriormente, mas fazem parte do evangelho como qualquer outro trecho, só que não foi São Marcos quem escreveu. É uma síntese das narrações sobre as aparições de Jesus, tiradas dos outros evangelhos como alusões a fatores narrados nos Atos dos Apóstolos. Os versículos 9-14 narram três aparições. Os versículos de hoje 15-20 se aproximam de Mt 28,16-20, ou seja, apresentam o discurso missionário com o acento sobre a universalidade da missão aos pagãos.

O evangelho deve ser anunciado a toda criatura, ou seja, ao mundo inteiro. Depois de ouvirem a Boa Nova da Salvação, uma proposta de vida nova, as pessoas podem aceitar ou não, crer ou não crer. Os que aceitarem a proposta devem ser encaminhados ao batismo, pois a fé deve ser acompanhada do compromisso público com a comunidade através do batismo. Quem não aceitar a proposta de vida está assinando sua própria condenação, está assumindo sua situação de morte.

Os vv. 17-18 falam dos sinais que acompanharão aos que crerem, mas não devem ser tomados ao pé da letra. Quando o evangelho foi escrito tudo aquilo já tinha acontecido e sido experimentado pelos primeiros missionários e missionárias. Eles querem exemplificar o que está escrito no v. 20, ou seja, a presença e ajuda do Senhor Jesus. Eles são condicionados pela mentalidade daquela época. Hoje, podemos entendê-los de forma simbólica: “expulsar os demônios” simboliza a vitória sobre os ídolos modernos alienantes e escravizantes; “falar novas línguas” é o contato com novos povos e culturas, fruto das caminhadas missionárias; “pegar em serpente, beber veneno mortal e curar doentes” vão na linha da vitória sobre o mal que atormenta o povo. Tudo isso expressa a vitória do Ressuscitado. O v. 19 salienta a glorificação de Jesus ressuscitado através da linguagem de ascensão física de Jesus ressuscitado e sua entronização à direita do Pai. Este modo de falar da glorificação de Jesus era bem aceito no mundo antigo. Ela frisava duas coisas importantes: A primeira é a ausência física de Jesus; a Igreja agora é o sinal da presença de Jesus no mundo. A segunda coisa é a presença constante e misteriosa de Jesus junto à sua Igreja missionária, dando incentivo, ajuda e provando por meio de sinais a veracidade de seu ensinamento (v. 20).


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