2008-10-09
Ia LEITURA - Ap 7,2-4.9-14
Nosso texto pertence à última parte da seção dos selos que ocupa os capítulos 6 e 7. O capítulo 7 é um clarão de força salvadora de Deus, uma injeção de ânimo para a caminhada. Diante da situação calamitosa da humanidade (6,1-8 = abertura dos quatro primeiros selos) e do grito dos mártires (6,9-12 = abertura do quinto selo). Deus intervém para julgar os ímpios (6,13-17) com a abertura do sexto selo. O capítulo sétimo é uma pausa onde o autor apresenta a salvação dos justos, dos eleitos de Deus. A pergunta de 6,17: “quem poderá ficar em pé?” encontra no capítulo sétimo sua resposta. A salvação é impossível ao homem, mas para Deus nada é impossível.
1o Momento: uma referência ao passado, 7,1-8
O autor tem presente o recenseamento dos hebreus no deserto (Nm 1,20-43). O v. 1 mostra a proteção de Deus. A marca na fronte indica a salvação. Os marcados são 144 mil. Este número não pode ser interpretado ao pé da letra. Ele é simbólico. Ele aponta para a totalidade de 12 (12x12x1000=144.000), todo o povo de Deus do Primeiro Testamento - 12 tribos como também todo o povo do Segundo Testamento - 12 apóstolos. O no 12 é símbolo da totalidade. O número 1000 simboliza um grande número. Aqui temos totalidade vezes totalidade, vezes uma grande multidão. Este número pode indicar a largura da misericórdia divina, salvando a totalidade dos eleitos.
2o Momento: uma referência ao presente/futuro da comunidade cristã - vv. 9-17
O v. 9 esclarece que o no 144 mil é um número simbólico e não apenas o resultado exato de uma multiplicação. As seitas fundamentalistas que acham que apenas 144 mil serão salvos caem no ridículo diante do v. 9. O número dos que serão salvos será incontável. Expressões que se referem à salvação aparecem aqui com fartura. “De pé” (= não serão julgados; é sinal salvífico); “Vestes brancas” (simbolizam a vitória, a salvação). “Palmas nas mãos” (= vitória). Todos reconhecem que a salvação vem de Deus através da cruz de Cristo - o Cordeiro. Os versos 10 e 11 traduzem a adoração e o louvor de todos os que foram salvos, juntamente com todos os anjos, com os 24 anciãos (podem ser os representantes do povo santo do Primeiro e do Segundo Testamento: 12 tribos + 12 apóstolos, e os 4 seres vivos (símbolo do que há de mais perfeito na criação em força e ciência). Os vv. 13 e 14 desvendam o mistério sobre “os que estão trajados com vestes brancas”. “São os que vêm da grande tribulação = lavaram suas vestes e alvejaram-nas com o sangue do Cordeiro”. “O sangue simboliza a eficácia da morte de Jesus”. O povo das comunidades pode assim descobrir seus mártires e santos, que derramaram seu sangue por Jesus, na resistência contra o mal representada pelo Império romano perseguidor. O Apocalipse é assim uma injeção de ânimo para que os cristãos de todos os tempos lutem até o fim para não deixarem que o bem - o projeto de Deus - seja abocanhado pelo antiprojeto, o mal, encarnado nas injustiças e perseguições de pessoas e instituições.
IIa LEITURA - 1Jo 3,1-3
Vamos analisar este trecho da carta de João à luz da 6a e 7a bem-aventuranças: “Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus” (cf. 1Jo 3,3); bem-aventurados os que promovem a paz “porque serão chamados filhos de Deus” (cf. 1Jo 3,1-2). Em 1 Jo 2,29 (“Se sabeis que ele é justo, reconhecei que todo aquele que pratica a justiça nasceu dele”) podemos ver o eco de Mt 5,6 e 10,4 e as 8 bem-aventuranças.
Como pano de fundo da 1a carta de João, lembramos a crise da comunidade provocada pelos dissidentes carismáticos que achavam que a salvação não estava na prática da justiça à imitação de Jesus, que deu a vida por nós, mas num conhecimento religioso especial e pessoal. Negavam Jesus como Messias, achavam-se livres do pecado, iluminados por Deus e se gloriavam de conhecer e amar a Deus, mas sem dar importância ao amor ao próximo. Por isso o autor se preocupa com algumas afirmações básicas como a purificação através do sangue de Jesus. (cf. 1,7-9), a consciência de sermos pecadores (cf. 1,8;2,2); a importância de guardarmos os mandamentos e andarmos como Jesus andou (cf. 2,4-6); a importância de confessar o Filho e não negar que Jesus é o Cristo-Messias (cf. 2,22-23; 5,1); a importância do amor ao próximo (cf. 3,11.14.23; 4,7ss); etc.
O texto de hoje pertence à seção cujo tema é: “viver como filhos de Deus” (cf. 2,29-4,6). Aqui já temos a afirmação da prática da pertença como combate do autor ao espiritualismo vazio dos carismáticos. Praticando a justiça nascemos de Deus e assim podemos ver a maior prova de amor que o Pai nos deu: “sermos chamados de filhos de Deus e o sermos de fato”. Para Jesus na 7a bem-aventurança (cf. Mt 5,9), isto é, concedido aos que promovem a paz. Uma paz verdadeira é bem estar que exclui injustiça e opressão. Supõe, portanto, a fé traduzida em obras, uma fé no único Pai de todos que nos ama através do amor do Filho que vivendo e morrendo por nós, nos concedeu a graça da filiação divina. Somos, portanto, todos irmãos com a obrigação do amor mútuo. Mas nós estamos no mundo, que desconhece a Deus, desconhece seu Filho e, portanto, também não nos conhece. O mundo, cultiva o ódio e nos impede de ver a Deus. O mundo, portanto, na sua impureza obscurece a nossa visão e dificulta o nosso ser cristão. Na verdade a nossa realidade de filhos está escondida em Cristo (cf. Cl 3,3-4). Quando Cristo se manifestar também a nossa realidade de filhos se manifestará, e aí seremos semelhantes a ele, pois o veremos tal como ele é. A 6a bem-aventurança afirma que os puros de coração verão a Deus. Ser puro de coração é ter uma conduta pautada na justiça e no amor. Aqui, no último versículo, está afirmado que nós nos purificamos a nós mesmos na força da esperança de vermos a Deus tal como ele é.
Sintetizando, para vivermos a realidade de filhos, ou seja, vermos a Deus, ou partilharmos de sua vida, precisamos de uma fé sólida, uma esperança firme e um amor profundo aos irmãos.
EVANGELHO - Mt 5,1-12a
Estamos no início do grande “Sermão da Montanha” (Mt 5-7). Para quem Jesus fala? Para multidões numerosas vindas de vários lugares (cf. 4,25). E essas multidões são compostas de gente simples, pobres, aflitos, perseguidos, famintos. Jesus sobe a montanha e se assenta. A montanha lembra o Sinai onde Deus tinha feito, através de Moisés, aliança com seu povo. Assentado Jesus assume o papel de Mestre e legislador da Nova Aliança, numa aproximação muito grande com seus discípulos. No Sinai a distância era grande entre Deus e o povo.
Aqui o clima é de total confiança e aproximação. Inclusive aqui não há leis, há sim propostas de felicidade. Jesus que é “o caminho, a verdade e a vida” propõe um caminhar tranqüilo em direção ao
Reino. Jesus proclama seus ouvintes um povo feliz, bem-aventurado e lhes promete as alegrias do Reino.
Duas bem-aventuranças (a 1a e a 8a) sintetizam as outras. A 1a é: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus” (v. 3) A 8a é: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus”. As outras Bem-aventuranças não são mais do que esclarecimento dessas duas. A promessa da 1a e da 8a é a mesma e é uma constatação diferente: O Reino dos céus é deles (verbo no presente). As outras trazem uma promessa futura (verbo no futuro).
1a bem-aventurança - “Pobres” São os injustificados que depositaram sua confiança em Deus. São considerados pobres em espírito, porque estão abertos para participar do projeto de Deus que é a construção da nova sociedade, baseada na justiça e na igualdade - isso é o Reino de Deus.
A 8a bem-aventurança - Tem muito a ver com a primeira, pois os que são perseguidos por causa da justiça são os mesmos pobres em espírito. Eles buscam uma sociedade alternativa através da partilha e da solidariedade, através da luta pela justiça, melhores condições de vida para todos. Isto, porém não é tolerado pela sociedade estabelecida, que sentindo-se ameaçada parte para a perseguição.
Qual é a situação dos pobres?
A 2a, a 3a e a 4a bem-aventuranças vão explicar a 1a e a 8a; vão dizer quem são os pobres.
A 2a diz quem são os mansos, os que foram amansados pelos poderosos que até lhes caçaram os direitos; mas eles herdarão a terra. Podem ser identificados com “os sem terra”. A 3a diz quem são os aflitos - pessoas cativas e aprisionadas vítimas da sociedade cruel e opressora, mas Deus os consolará, libertando-os. A 4a diz quem são os que têm fome e sede de justiça - aqueles que não podem viver (fome e sede) na atual injustiça. Eles lutam pela sobrevivência. Sua luta é justa e eles serão saciados. Os pobres são, portanto os mansos, os aflitos, os que têm fome e sede de justiça. Sua situação é de extrema miséria, injustiça e opressão.
Qual é a meta dos pobres?
As bem-aventuranças 5a, a 6a e a 7a vão mostrar que os pobres querem construir a nova sociedade.
A 5a afirma que os pobres são misericordiosos, são solidários, eles querem colocar tudo em comum. Deus reparte com quem reparte. A 6a afirma que os puros de coração verão a Deus. O coração é a sede das opções profundas. Os pobres são puros de coração, ou seja, suas opções estão em sintonia com o Reino, são íntegros, honestos, com os outros. A 7a diz respeito aos que promovem a paz. Paz (=Shalom) é a plenitude dos bens, é exclusão da injustiça, da opressão e da violação dos direitos. Paz aqui é mais social do que pessoal. Serão chamados filhos de Deus os que lutam pelo bem comum, pelo bem estar de todos.
O conflito na comunidade - 9a bem-aventurança.
Esta última bem-aventurança é diferente das outras. Ela é mais desenvolvida e enquanto as outras são escritas na 3a pessoa esta está na 2a pessoa com recomendações diretas aos discípulos. No fundo ela quer revelar as tensões e conflitos enfrentados pela comunidade dos evangelistas.
A comunidade sofria injúrias, perseguições e calúnias, por causa de Cristo. O Evangelista busca em Jesus uma força e um incentivo na caminhada, com o v. 12 que diz: Ser tudo isso deve ser motivo de alegria e regozijo, pois a recompensa dos perseverantes será grande no céu. Assim também aconteceu com os profetas.
Um adendo que pode ajudar na compreensão das “Bem-aventuranças”.
Muita gente já ficou intrigada com as bem-aventuranças, que declaram felizes ou bem-aventurados aqueles que normalmente consideraríamos infelizes, pois são os pobres, os aflitos, os que choram etc. Como explicar isso? Na verdade, Jesus não falou em grego, mas em aramaico que é semelhante ao hebraico. Ele, certamente, seguindo a tradição bíblica, teria usado o termo “ASHRÉI”, que aparece 43 vezes na Bíblia Hebraica. São Mateus traduziu a palavra hebraica “ASHRÉI”, que aparece, por exemplo, nos salmos 1,1 e 119(118), 1-2, segundo a Tradução grega, chamada Septuaginta, por “makárioi”, que significa “Bem-aventurados” ou “felizes”. De onde vem o termo “ASHRÉI”? Vem do radical hebraico “ASHAR”. Este verbo não evoca uma vaga felicidade, mas implica retidão (“YASHAR”) daquela pessoa que marcha no caminho certo em direção ao Reino de Deus. O primeiro sentido do verbo “ASHAR” é marchar; ser feliz é uma conseqüência de quem marcha com retidão em direção ao Reino. Assim, poderíamos traduzir a palavra “bem-aventurados” ou “Felizes” pela expressão “Em marcha”. Deste modo ficaria: Em marcha os pobres..., em marcha os que choram... em marcha, em os mansos ... etc. . Em marcha para onde? Em marcha no caminho (que é Jesus) em direção ao Reino de Deus. É por isso que eles são felizes. As bem-aventuranças são o retrato de Jesus, que é caminho, verdade e vida. Quem está parado, não faz nada na comunidade, não faz o esforço de caminhar, mas apenas lamenta sua sorte, este é infeliz.
32º DOMINGO COMUM
Dedicação da Basílica de Latrão
09/11/08
Iª LEITURA – Ez 47,1-2.8-9.12
O profeta Ezequiel que exerceu sua atividade profética entre os anos 593 a 571 a.C. no Exílio Babilônico, anuncia um futuro novo para o povo de Deus. O centro vital da Nova Jerusalém será o Templo de Deus. Um estranho guia conduz o profeta e lhe mostra a água que saía da parte subterrânea do Templo na direção leste. As águas correm para a região oriental, descem pelo Rio Jordão e desembocam pelas águas salgadas do Mar Morto e vai transformando a água salgada do mar em águas saudáveis. Aqui está a grande novidade, o grande anúncio de vida. Por onde a água vai passando ela vai gerando vida, porque a água brota em abundância do santuário de Deus. É água fecunda que gera vida. É água que transforma o mar da morte (Mar Morto) em mar de vida. Essas águas trazem saúde e os peixes se multiplicam. Nas margens do rio crescerá toda espécie de árvores frutíferas de frutos intermináveis. “Cada mês estas árvores darão frutos novos”. “Seus frutos servirão de alimentos e suas folhas serão remédio”. Vemos de novo algo mais bonito que o paraíso no início do Gênesis (Gn 2,10-14). No Segundo Testamento o tema retorna em Jo 19,34 na água que jorra do lado aberto de Jesus e na descrição da nova Jerusalém em Ap 22,2. Em uma palavra poderemos dizer que o mundo novo que o profeta anuncia é um futuro cheio de vida e vida em abundância (cf. Jo 10,10).
IIª LEITURA – 1Cor 3,9c-11-16-17
O contexto lembra uma grande tensão na comunidade que está divida em diversos “partidos”: o de Paulo, o de Cefas, o de Apolo e até mesmo o de Cristo, como se Cristo pudesse ser divido. O apóstolo ensina então a centralidade de Cristo. Todos os outros personagens são apenas evangelizadores, servidores de Cristo.
No texto de hoje, Paulo fala não mais nos servidores, mas na comunidade comparada a uma lavoura e a uma construção. Quanto à lavoura Paulo apenas diz que a comunidade é a lavoura de Deus, mas não se desenvolve o tema, pois Paulo é da cidade e não da roça. Ele se sente mais à vontade desenvolvendo o tema da construção. Como fundador da comunidade, Paulo se sente como arquiteto, como experiente mestre de obras. Mas ele lançou apenas o alicerce que é Jesus Cristo. Ele lembra que não existe outro alicerce. Os outros agentes de pastoral (Apolo, Cefas...) devem continuar a construção em cima deste único alicerce. Daqui vem o grande ensinamento do apóstolo. A comunidade é o santuário de Deus. O Espírito de Deus mora na comunidade. Este santuário – a comunidade – é santo, portanto ninguém pode destruí-lo; caso aconteça, Deus destruirá esta pessoa!
Entendemos e vivemos assim a nossa comunidade cristã, ainda que pequena, frágil e empobrecida como a comunidade Corinto? O Santuário de Deus não é construção suntuosa de tijolos e mármores, mas o coração dos pequenos e empobrecidos que acreditam em Jesus Cristo.
EVANGELHO – Jo 2,13-22
O templo de Deus se tornou centro da exploração
Infelizmente o grande Templo de Jerusalém no tempo de Jesus não estava sendo mais a casa de oração, presença de Deus, lugar santo. Transformou-se em centro de exploração e comércio. A Páscoa – festa da libertação – transformou-se em festa da exploração das lideranças religiosas. João mostra neste trecho do evangelho que Jesus não concorda com nada disso. (cf. vv.14-15). Com o chicote na mão Jesus realiza a profecia do último livro do profeta Zacarias (Zc 14,21): “Nesse dia não haverá comerciantes dentro do Templo de Javé dos exércitos”. Jesus está inaugurando os templos messiânicos. O comércio era grande no pátio do Templo, e os comerciantes tinham que pagar aluguel dos espaços ocupados dos sumos sacerdotes, que também eram latifundiários e forneciam os animais para o sacrifício. E o preço de tudo era exorbitante. Até mesmo pombinhos e aves para o sacrifício dos pobres custavam mais caros. A exploração era assustadora. Os cambistas também exploravam na troca das moedas.
O gesto de Jesus e a dupla reação
Jesus com a expulsão de bois e ovelhas e pombinhas – matéria de sacrifício, declarava inválidos esses sacrifícios e esse culto explorador. Temos duas reações.
Primeira: é a reação dos discípulos. Eles vêem em Jesus um grande reformador: “O zelo por tua casa me devora”. É só depois da ressurreição que os discípulos compreendem que Jesus não faz uma reforma, mas sim uma substituição. Agora é o corpo de Jesus que é o Templo Santo de Deus.
Segunda: a segunda é a reação dos dirigentes. Como Jesus acaba com o templo, eles querem amedrontar Jesus pedindo um sinal. É que Jesus dá o grande ensinamento. “Destruí este Templo e em três dias o levantarei”. Os dirigentes não entendem esta edificação em três dias. Mas o evangelista explica que Jesus falava do Templo do seu corpo que eles destruirão e que em 3 dias ressuscitará – será levantado. Depois da ressurreição os discípulos lembraram de tudo isso e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus.
33º DOMINGO COMUM 16/11/08
Iª LEITURA - Pr 31,10-13.19-20.30-31
Este trecho do livro dos Provérbios, à primeira vista, nos parece apresentar a mulher ideal para a mentalidade daquela época! Mas começa perguntando se é possível encontrar a mulher ideal. Outra curiosidade é que naquele tempo o preconceito contra a mulher era tal que a mulher nem podia sair de casa. Aqui, entretanto, percebemos a descrição de uma mulher super ativa de grande tino comercial, uma mulher mais valiosa do que as jóias, que só dá alegria ao marido, excelente dona de casa, em quem o marido pode confiar plenamente. Ela provê até o ganha pão da sua família com a habilidade de suas mãos e não fica apenas nisso, abre também suas mãos generosamente aos necessitados. Diante de tudo isso o autor reconhece a fugacidade da beleza e o engano do charme. Merece louvor mesmo é a mulher que teme o Senhor. A habilidade de tal mulher é louvada na praça da cidade. Existe mesmo tal mulher com prendas masculinas e femininas? É claro que pode existir, mas, na verdade o autor aqui não está preocupado com a descrição de uma mulher ideal. A pessoa sábia busca o sentido da vida e de tudo o que faz, e nada faz que não tenha sentido. Realizar apenas o que tenha sentido é como possuir uma esposa companheira que toma conta do coração da gente e, ao invés de sufocá-lo com um amor egoísta, o ajuda a se abrir para tudo e para todos.
IIª LEITURA - 1Ts 5,1-6
Esta carta é o primeiro escrito do Novo Testamento. Foi escrita no ano 51. Os tessalonicenses ainda estavam preocupados com a data da vinda de Cristo. Alguns nem queriam trabalhar, pensando que Cristo viria logo. Mas Paulo já havia ensinado à comunidade que Cristo não marcou data. Assim como o ladrão chega de noite a uma casa sem aviso prévio assim também Cristo virá. O importante não é especular a respeito da data, mas estar vigilante e ficar sóbrio. Isto significa viver uma vida decente a serviço da comunidade e de acordo com o evangelho da justiça, pois todos nós somos filhos da luz e filhos do dia. "Dormir", "andar nas trevas" são expressões que significam descuidar da verdade do evangelho, viver em vícios e pecados. Quem vive assim uma vida anti-cristã pode ser surpreendido com a vinda repentina do Dia do julgamento do Senhor. E aí não haverá mais tempo de mudança para escapar da destruição e da condenação.
EVANGELHO - Mt 25,14-30
A parábola dos talentos quer salientar o tema da vigilância que não é cruzar os braços, mas trabalhar em favor da Justiça do Reino, fazer frutificar os talentos-dons, que Deus colocou dentro de nós. Parece que é exatamente para salientar a vigilância ativa que se desenvolve mais a parte daquele empregado que enterrou o talento recebido.
A distribuição dos talentos varia de acordo com a capacidade de cada um. Um recebeu 5, outro recebeu 2, e o terceiro recebeu 1. Quem recebeu 5 produziu outros 5, quem recebeu 2 produziu outros 2. Mas... Aqui está o acento da parábola: Quem recebeu 1 escondeu o dinheiro do patrão e não fê-lo render. "Depois de muito tempo” o patrão volta para o ajuste de contas. A parábola pertence ao discurso escatológico que fala sobre o fim do mundo. O patrão elogia e premia os dois primeiros que fizeram render os talentos recebidos. Ele não discrimina quem tem menor capacidade, nem o trata de modo diferente. Todos os que lutam pela justiça do Reino são igualmente importantes e recebem elogio e recompensa. Mas o que disse o patrão para o que enterrou seu talento? Primeiro é importante perguntar: por que o terceiro empregado escondeu o talento do patrão? Ele ficou com medo de correr o risco e não ser bem sucedido nos negócios. Ele buscou sua própria segurança enterrando o talento recebido. A imagem que ele tinha do patrão era totalmente distorcida, talvez fruto do seu medo de correr o risco. Todo aquele que busca sua própria segurança e não quer correr o risco de um engajamento na comunidade, colocando-se a serviço, está forjando preconceitos a respeito de Deus e da religião. Estes são servos inúteis. No tempo de Jesus este servo representava os fariseus bitolados na Lei e nos seus preconceitos sobre Deus. Isto os fez fechar à novidade de Jesus com medo de correr o riso de um novo investimento que ultrapassasse sua mesquinhez.
O que o patrão vai dizer a este empregado? Ele reclama da esterilidade deste servo que não fez render os seus pertences. Tira-lhe o que tem para doar a quem se empenha. É a salvação tirada dos judeus e dirigida aos pagãos. Chama-o de inútil e o condena.
Primeiro, queremos lembrar que Deus distribui talentos-dons-capacidades a todo mundo. Segundo, queremos fazer uma pergunta. Em cada mil paroquianos quantos estão mesmo dobrando seus talentos na comunidade?
34º DOMINGO DE CRISTO REI 23/11/08
Iª LEITURA - Ez 34,11-12.15-17
O profeta Ezequiel acompanhou o povo de Deus no Exílio Babilônico. Ele lembra que o exílio é um castigo de Deus pelos pecados de todos, mas a culpa principal recai sobre as lideranças, que cuidaram de si mesmas e se esqueceram do povo. Mas Deus, qual pastor solícito, não vai abandonar suas ovelhas no exílio. Seu rebanho padece, afastado da sua pátria. O profeta expressa isso com as expressões "ovelhas perdidas", "extraviadas", "de perna quebrada", "doente". O povo está precisando de pastores, verdadeiramente zelosos e dedicados. Mas onde estão os pastores? Onde está o povo como porta-voz de Deus. Ele anuncia que é o próprio Deus que virá tomar conta de suas ovelhas como um pastor totalmente consagrado, atencioso e meigo. Deus mesmo virá para resgatar suas ovelhas, apascentá-las e fazê-las repousar, virá buscar a perdida, fortalecer a doente e vigiar a gorda e forte. Virá apascentá-las conforme o direito, virá fazer justiça. Essa notícia é maravilhosa e pode ser resumida nestas palavras: Deus mesmo virá libertar seu povo da escravidão e morte e reconduzi-lo à sua pátria para que todos tenham liberdade e vida.
IIª LEITURA - 1Cor 15,20-26.28
O capítulo 15 da 1Cor é todo dedicado à ressurreição. Nosso trecho lembra dois argumentos. O 1º é que Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram O que significa a expressão primícias? São os primeiros frutos de uma colheita. Estes primeiros frutos bem amadurecidos trazem a grande esperança de ótima colheita. É uma amostra esperançosa. A partir dela se tem uma certeza do bom resultado da colheita. Paulo nos diz que esta amostra é Cristo. Nós que pertencemos a Cristo somos o resto da boa colheita. Todos ressuscitaremos por ocasião da sua vinda. Depois, Paulo contrapõe Adão a Cristo. Por causa da nossa ligação com Adão todos morreremos. Mas também por causa da nossa ligação com Cristo, novo Adão, que venceu a morte, recebemos de volta a vida. O 2º argumento sobre a ressurreição é a vitória de Cristo sobre todos os mecanismos da morte. Aqui o apóstolo enumera como mecanismos da morte: "soberania", "poder" e "força".
Que nomes poderíamos dar aos mecanismos da morte hoje? O fim só virá, quando Cisto colocar todos estes inimigos da vida sob seus pés. Depois ele destruirá o último inimigo que será a morte. A luta de Cristo é a luta dos cristãos. A vitória de Cristo é a vitória dos cristãos. Cristo conta conosco. Cristo só entregará o seu Reino ao Pai, quando tudo estiver submetido a ele. Aí Deus será tudo em todos. Nosso tempo individualmente é muito curto, mas não podemos partir sem ter dado nossa contribuição na obra do Filho de resgatar todos para o Pai.
EVANGELHO - Mt 25,31-46
Cristo é Rei e Juiz de toda a humanidade. Estamos no final do discurso escatológico (Mt 24-25) com o trecho sobre o juízo final. O critério do julgamento surpreende a todos: é a prática da justiça, a prática da caridade feita ao irmão mais marginalizado. Os que abrem seu coração para os pequeninos do Reino são chamados "justos" e "benditos". Estes irão para a vida eterna. Os outros são os malditos, irão para o castigo eterno.
Quem separará os bons dos maus, as ovelhas dos cabritos é o Filho do Homem, Jesus, o Pastor. As ovelhas, os justos, serão colocados à direita. É o sinal da salvação. Estes serão abençoados pelo Pai e receberão o Reino como herança. Os cabritos, os injustos, ficarão à esquerda, ou seja, receberão condenação, serão afastados do Filho; serão chamados de malditos e irão para o fogo eterno. Serão sócios do diabo no egoísmo que os condenou.
O critério de separação
O critério de separação é o atendimento ou não a Jesus na pessoa dos mais marginalizados, isto é, os que passam fome e sede, os que são estrangeiros, os que são maus. Estes ficam surpresos com este modo do Filho do Homem falar e perguntam quando foi que isto aconteceu. Na verdade todos ignoram terem ajudado ou não a Jesus na pessoa dos empobrecidos. Não apenas os justos e os injustos da parábola, mas também nós do tempo que se chama hoje, nós não percebemos que estamos atendendo a Jesus, quando ajudamos um seu e nosso irmão marginalizado. Também nós teremos surpresas. Aqueles que vivem maldizendo o estatuto da criança e do adolescente; aqueles que vivem jogando sobre os ombros das crianças de rua toda a culpa dos crimes da sociedade; aqueles que consideram os presos como bichos, nocivos à sociedade, e que acham que preso deve ser castigado e morte; aqueles que nunca atendem bem a quem bate à sua porta e não apóiam os movimentos populares, que lutam por melhor distribuição de renda e maior justiça no país; estes terão um péssima surpresa. Nesse momento toda a falsa piedade será desmascarada, toda hipocrisia será revelada, e aniquiladora será a sentença do tribunal divino: "Afastem-se de mim, malditos! Vão para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos". É claro que toda esta maldição é uma pesada advertência. Não se trata de uma sentença categórica no fim do mundo, mas um chamado de conversão para “o tempo que se chama hoje”.
I o DOMINGO DO ADVENTO 30/11/08
Ia LEITURA - Is 63,16b-17.19b; 64,2b-7
Este texto é uma espécie de salmo de súplica coletiva, ou seja, é a assembléia do povo que reza. A situação do povo é de sofrimento e abandono. O motivo são os pecados e transgressões, é o afastamento de Deus. Dentro da mentalidade, onde tudo é atribuído a Deus, o autor fala como se fosse o próprio Deus, que quisesse endurecer o coração do povo, esconder dele a sua face e entregá-lo à mercê de suas maldades. É como se Deus estivesse fazendo silêncio diante do sofrimento do povo.
O povo tem saudades dos tempos de outrora. “É nos caminhos de outrora que seremos salvos”. Pede a Deus uma aproximação maior como aconteceu outrora no Sinai.
Aqui temos dois dados de fundamental importância. O primeiro é o reconhecimento da própria condição humana de pecador, as transgressões, as maldades, as impurezas e o afastamento de Deus. O segundo é o reconhecimento do ser de Deus. Ele é o Senhor, o criador, aquele que modelou o homem do barro da terra, é o Pai, o redentor. Redentor era o membro do clã encarregado de vingar o sangue derramado ou de resgatar membros da família escravizados. O povo, então, reconhece Deus como Aquele capaz de libertá-lo dessa situação pior lá no Egito.
A saída está, portanto nesta confiança e esperança. Mas para acontecer mesmo a libertação é preciso que o povo se deixe de novo modelar pelas mãos de Deus, arrepender de sua maldade e buscar os caminhos da justiça, recomeçando mais uma vez sua vida com Deus.
IIa LEITURA - 1Cor 1,3-9
Estamos no início da carta aos Coríntios. Normalmente depois do endereço e da saudação inicial vem o agradecimento a Deus pelos benefícios concedidos à comunidade, ou pela resposta que a comunidade está dando à pregação do apóstolo. Paulo costuma também aludir a alguns temas importantes que ele irá desenvolver. Aqui ele fala da graça divina, dos dons ou carismas que a comunidade recebeu em palavra e conhecimento. Ele diz que a comunidade foi enriquecida em tudo e não lhe falta nenhum dom. Os carismas do Espírito Santo eram abundantes na comunidade, mas a comunidade não vai saber lidar adequadamente com eles. Entram a vaidade, o orgulho, a distorção da finalidade dos dons. Muitos achavam que estes dons, principalmente, o dom das curas e o dom das línguas tinham finalidade em si mesmos. Estes grupos considerados carismáticos achavam-se perfeitos e satisfeitos espiritualmente. Os capítulos 12 a 14 vão chamar a atenção da comunidade a este respeito. Aqui com antecipação Paulo relembra dois pontos:
1o) que a comunidade tem todos os dons, mas “ainda espera a revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Quer dizer, ninguém se considere perfeito, acabado, pois o que seremos ainda não se manifestou.
2o) Que fomos chamados à comunhão com Jesus. É preciso ter senso crítico e revestir-se de humildade, pois uma comunidade carismática, enriquecida de todos os dons pode viver com tantos problemas e tanta falta de comunhão como vivia a comunidade de Corinto? Repasse a carta para você perceber a vida da comunidade. Confira por exemplo os capítulos 1; 5; 6; 11 etc. Se há um grupo, que deveria viver a comunhão, a compreensão e não criar problemas, é o grupo carismático!
EVANGELHO - Mc 13,33-37
Este trecho é tirado do capítulo 13 - todo ele escatológico - quer dizer, referente ao fim do mundo. No evangelho de hoje, Jesus chama a nossa atenção sobre a vigilância. Estamos começando o Ano Litúrgico já nos preparando para o Natal com o Advento ou a chegada de Jesus, e a liturgia nos lembra a segunda vinda de Jesus - o tempo final. O importante mesmo é ficar vigilante. A primeira frase já nos apresenta a mensagem total: “Cuidado! Fiquem atentos, porque vocês não sabem quando chegará o momento”. Se esse versículo tivesse sido levado a sério (veja também 13,32) ter-se-ia evitado muito papel, tinta, trabalhos, escândalos, frustrações e transtornos ao longo da história da religião cristã, principalmente de seitas cristãs, ou pseudo-cristãs. Ninguém sabe o dia, nem a hora, nem o século do momento final. Para ilustrar isso Jesus faz uma comparação como se ele fosse um homem que tivesse feito uma longa viagem para o estrangeiro e tivesse deixado a sua casa sob a responsabilidade dos empregados, cada um com uma tarefa. E tivesse mandado o porteiro ficar vigiando. O porteiro, sem dúvida, representa os líderes das comunidades, mas a responsabilidade para zelar da casa de Deus, que é o mundo, é tarefa de todos. “O que digo a vocês, digo a todos”. A qualquer momento da noite o dono da casa pode voltar e ninguém pode ser encontrado dormindo. O que significa afinal, “vigiar ou não dormir?” Significa a tarefa de continuar com empenho a tarefa de Jesus, que, em uma palavra, é vida para todos, ou seja, lutar para que o homem viva com dignidade, tenha casa, terra, pão, educação e viva na justiça e na comunhão. Isso é vigiar, isso é não dormir. Vigiar ou estar vigilante não é algo passivo, mas um desempenho da tarefa recebida. Acho que há muita gente na comunidade cristã, que está participando das liturgias, mas mesmo assim está vivendo em total descuido, sem vigilância nenhuma e em profundo sono. Acho que muita gente está correndo o perigo de acordar assustado, quando Jesus chegar!